SAIBA MAIS SOBRE SUA MOCHILA
1. Introdução
Os Conselhos sobre como fazer uma mochila é um daqueles assuntos sobre o qual 10 pessoas diferentes darão 10 opiniões diferentes. Levar uma carga às costas é sempre um motivo de preocupação e todos têm a sua teoria sobre como minimizar os efeitos do peso. Mas, também é verdade, as divergência são quase sempre de pormenor (que a comida pode ter peso em cima ou não, que a escova de dentes é um elemento de utilização freqüente ou não, etc). Eis, portanto, os meus conselhos para fazer uma mochila. Parte da energia que despendemos (e das lesões que contraímos) durante uma caminhada têm a ver com a carga que levamos às costas. A isto, temos ainda que somar o fato de o ser humano ter tendência a ser catastrofista por natureza; e, como ser prevenido que é, leva tudo aquilo que possa ser necessário "se por acaso" acontecer todo e qualquer tipo de desgraça (terremotos, furacões, cheias).
Quando se faz uma mochila, este é o primeiro instinto a combater, e temos que encontrar o ponto intermediário entre não levar nada (para evitar a fadiga e as lesões), e levar a casa às costas. Isto é algo que se vai aprendendo com a prática, mas convém recordar alguns fatores que influenciam a escolha do material a levar: clima, tipo de atividade que vamos fazer, a nossa própria constituição física e, muito importante mas muitas vezes esquecido, o tipo de mochila que vamos levar.
Para diminuir os riscos de lesões e o incômodo de levar um peso às costas, são importantes quatro fatores: boa postura, bom equilíbrio, boa forma, mochila com a carga adequada sobre os pontos corretos.
2. Generalidades
Uma boa mochila tem de ser confortável e distribuir o peso sobre os pontos da coluna vertebral preparados para o suportar. Assim, uma boa mochila ajuda-nos a manter o equilíbrio, a evitar o cansaço e a agüentar durante mais tempo um peso sobre as costas. Atualmente, existem mochilas diferentes para cada tipo de atividade. E não se pense que tal é feito em vão. A atividade na qual se pode carregar mais a mochila é a saída de vários dias (expedição). É necessário levar uma grande quantidade de coisas e um grande peso durante, naturalmente, bastante tempo. É nas mochilas de grande carga ou de expedição que os sistemas de carga são desenhados com mais cuidado. Um bom sistema de carga deve garantir duas coisas: que o equilíbrio e suporte da mochila se dê na zona inter-escapular; que a repartição de peso seja feita na cintura e não nos ombros.
Partes de uma mochila: a) Regulagem da altura da tampa da mochila - é uma regulagem disponível em poucas mochilas e constitui mais uma possibilidade de adaptar a mochila às distintas cargas a que pode estar sujeita. b) Asa da mochila: Permite mover a mochila mais facilmente quando não a temos às costas. c) Estabilizador superior - uma peça muito importante, mantém a mochila próxima das costas e desloca o peso para a frente, o que aumenta a eficiência do cinto. d) Alças anatômicas - adaptam-se à forma costas-ombros-tórax, reduzindo o apoio indireto das alças sobre o pescoço. Os modelos para mulher estão pensados para libertar carga de cima do peito. Para cargas pesadas, as alças têm que ser largas e acolchoadas. e) Costas acolchoadas - é fundamental para proteger as costas de objetos pontiagudos. Deve estar desenhada de forma a minimizar o contato com o corpo, permitir a ventilação das costas. f) Regulação peitoral - mantém as alças no lugar correto, melhorando a estabilidade geral da mochila. g) Regulagem das alças - adaptam as alças da mochila a diferentes capacidades torácicas. h) Cinto acolchoado e anatômico - reduz a pressão exercida sobre os quadris pelo peso da mochila. i) Regulagem do cinto - impede a mochila de saltar quando se anda. k) Estabilizador lateral – reduz a oscilação lateral da mochila, sobretudo quando esta é alta. l) Proteção lombar acolchoada - melhora a comodidade da zona onde vai incidir a maior parte do peso do conjunto. m) Descanso de dedos - pendurando os polegares aqui, levamos as mãos à altura do coração, evitando que inchem. n) Regulagem de altura - permite adaptar a mochila a diferentes estaturas ou alturas de costas. o) Fitas de compressão e porta-skis - As mesmas fitas realizam estas duas funções. Se a mochila não está completamente cheia, apertam-se as fitas para evitar a oscilação da carga e conseqüente oscilação da mochila. p) Cruzeta anatômica - o início das alças está desenhado para repartir a carga desde o centro das clavículas, libertando o pescoço e apoiando-a entre as escápulas. q) Bolsa na tampa - permite ter à mão pequenos acessórios que utilizamos com freqüência. r) Porta-material - permite transportar material no exterior da mochila de forma segura (colchonete, isolante térmico, etc).
3 . Arrumando a Mochila
Escrevo por experiência própria. A tendência, quando nos decidimos a fazer o Caminho, é passar horas (ou dias!) na Internet e em lojas à procura da marca ideal, da mochila ideal, da cor ideal ou do preço ideal. Esta busca só será útil se soubermos com precisão o que devemos levar e, sobretudo, como acomodar a carga na mochila. Este é o primeiro passo a dar, antes de pensar em comprar uma mochila. Porque mochilas, tem para todos os gostos: com desenhos simples e com desenhos complicados, com bolsas para objetos que se usam com freqüência, com compartimentos para comida, com porta-todo-o-tipo-de-objetos, etc, etc, etc. Todas estas características só são boas se as formos usar.
O corpo principal da maioria das mochilas tem, normalmente, 2 compartimentos e que é o essencial. Estes compartimentos estão normalmente separados por um tecido que se pode abrir, caso se queira uni-los. Esta separação tem por objetivo colocar o material mais pesado no centro da mochila. A parte inferior da mochila utiliza-se, quase sempre, para colocar o saco de dormir e a roupa para dormir, que são equipamentos leves. O objetivo desta distribuição é garantir que o centro de gravidade é baixado para a altura do meio das costas e próximo das mesmas, permitindo liberdade de movimentos em passos altos, pulos, agachamentos e balanços laterais. Uma mochila grande, com centro de gravidade alto, pode derrubar seu dono durante um agachamento. Há quem defenda que, para grandes cargas, o centro de gravidade deve ser baixado e o material pesado ir em baixo e isto é uma questão polêmica. Em relação à roupa, há quem prefira fazer uma bola com as peças, outros dizem que dobrar é a melhor opção. Pessoalmente, eu prefiro enrolar porque dessa forma é mais fácil localizar as peças, para além de que se enrugam menos. Mas o melhor é experimentar 2 formas e optar por aquela que melhor você se adaptar. É também recomendável transportar a roupa interior em sacos plásticos. Há quem separe os diferentes tipos de roupa em sacos de cor diferente: eu não vejo utilidade nisso. Uma regra fundamental quando estamos arrumando a mochila é pensar em que condições é que se pode necessitar de cada uma das peças de equipamento ou roupa. Tentar procurar um par de luvas ou a capa de chuva no fundo da mochila no meio de uma tempestade, pode ser perigoso e desesperante.
4. Estrutura de uma mochila
As mochilas possuem várias regulagens e é fundamental conhecer suas funções para poder adequá-las a cada situação. Conhecer os detalhes do produto e saber fazer a regulagem correta pode salvar a sua peregrinação. Com exceção da regulagem dorsal, todas as outras devem ser ajustadas toda vez que se veste a mochila, pois dependem da carga, do terreno, da roupa e até do humor do dono e quanto mais técnica for a atividade mais se exige estabilidade da mochila e mais apertadas devem ser as regulagens.
Regulagem Dorsal - Normalmente é a única regulagem fixa da mochila, ou seja, você regula apenas uma vez de acordo com o tamanho do seu tronco. Faça essa regulagem de maneira muito atenta e de preferência com o auxílio de alguém. Se for mal feita, esta regulagem poderá sobrecarregar os ombros.
Fitas de compressão lateral - Este tipo de regulagem se torna especialmente importante para mochilas com meia carga, pois permite compactar a carga mais perto das costas. O ideal é deixar a mochila achatada e rígida. O sistema mais comum é o de duas ou três fitas horizontais em ambas as laterais da mochila. A regulagem é feita com fivelas de nylon do tipo "só puxar". É bom que se tenha pelo menos quinze centímetros de fita sobrando para prender apetrechos (o isolante, por exemplo). Neste caso fivelas tipo "macho-fêmea" facilitam ainda mais a operação.
Barrigueira - Este é o acessório mais importante da mochila, média ou grande. Fuja das mochilas com regulagem fixa, ou seja, aquelas que além da fivela principal da barrigueira tem uma outra que fixa a regulagem. No mínimo um dos lados deve ter regulagem livre: ajustável sem que seja preciso desconectar a fivela principal. Certifique-se também se a regulagem mínima da barrigueira vai se ajustar adequadamente quando você estiver magrinho ou caminhando sem camisa. Algumas pessoas chegam a emagrecer até cinco quilos numa caminhada de quinze dias em terreno difícil ou altitude. Não se esqueça de que a função principal da barrigueira é transferir o peso da mochila para os quadris. Barrigueiras fofinhas e com aparência confortável podem se tornar um martírio sob uma mochila carregada, e normalmente perdem muito em durabilidade.
Muitas mochilas pequenas e leves têm barrigueiras de fita que não transferem carga para a cintura. Elas funcionam com estabilizadores e são muito úteis para escalar, correr ou caminhar em terrenos acidentados. Fique atento também para a fivela. Existem muitos modelos diferentes e alguns deles podem quebrar se utilizados de forma exigente, principalmente se forem de plástico. As boas fivelas são de nylon e geralmente fazem um sonoro "clac" quando fecham.
Alças principais - Assim como na barrigueira, as alças devem ser estruturadas (semi-rígidas) para melhor eficiência e durabilidade. As alças "acolchoadas" ou "fofinhas" acabam se deformando e tendo a superfície de contato diminuída. A regulagem das alças pode ser de cima para baixo, quando as fivelas são fixas nas extremidades das alças, ou debaixo para cima quando as fivelas são fixas na base da mochila.
Estabilizador lateral - Item responsável pela estabilização do movimento lateral da mochila sobre as costas, deve ser regulado após a barrigueira e as alças terem sido apertadas, pois sua regulagem muda drasticamente a cada situação.
Estabilizador superior - Mantém a mochila próxima das costas e desloca o peso para a frente, o que aumenta a eficiência da barrigueira. Muitas mochilas permitem regular a altura desta inserção, o que deve ser feito depois da regulagem dorsal. O ideal é que ela se mantenha alguns centímetros acima dos ombros.
Estabilizador peitoral - É uma ótima solução para cargas pesadas, terrenos acidentados e caminhadas longas. Evita que as alças entrem em baixo dos braços e permite transferir o "puxão da mochila" (tendência da mochila cair para trás) para a área peitoral, aliviando os ombros. Mudando-se a regulagem do estabilizador peitoral durante o decorrer do dia, ou mesmo soltando-a algumas vezes, alivia-se bastante o desconforto na parte superior do tronco.
5. Regulando a Mochila
Já temos a mochila carregadinha; agora vamos colocá-la nas costas. Antes de mais nada, atemos que garantir que as alças estão suficientemente abertas para entrarem comodamente pelos braços. Se for necessário, abre-se as alças. Depois as regulamos quando tivermos a mochila às costas. Para pôr a mochila nas costas nunca é demais recordar que este é um movimento que gera desequilíbrio. Então é melhor ter cuidado pois além do desequilíbrio você poderá também arranjar uma distensão muscular ou um torcicolo. Com a mochila já nas costas, a primeira regulagem a fazer é a de altura, de preferência com a ajuda de alguém. Se for mal feita, este ajuste poderá sobrecarregar os ombros. A regulagem seguinte, é a mais importante da mochila, que é a do cinto (barrigueira). A grande função do cinto consiste em transferir o peso da mochila para os quadris. Ajuste de forma a ajustar bem a mochila ao corpo, mas sem dor. O passo seguinte é a regulagem das alças. Um correta regulagem das alças deve dar uma sensação de conforto, com pouco peso sobre os ombros e sem sentir a mochila a puxar-nos para trás. Finalmente, devemos fazer os ajustes finais: lateral, para evitar a oscilação da mochila; superior, para melhorar a eficácia do cinto; e o peitoral, para evitar o movimento das alças.
Quem já tem sua mochila e deseja ajuda para fazer a regulagem, é só ir em uma reunião da AACS-Br.
6. Conservando a mochila
Feitas para agüentar cargas pesadas e trabalho duro, de vez em quando as mochilas também se sujam e precisam de um cuidado especial. Pensando nisso, aí vão algumas dicas de uso sobre a manutenção e o armazenamento de mochilas, para que elas durem muito mais, sem perder a eficiência. Antes de falar sobre manutenção, vale uma dica sobre como fazê-la se adaptar ao seu corpo. É bastante comum vermos caminhantes com mochilas desengonçadas jogadas sobre o corpo, como se esse fosse o melhor jeito de vesti-las. Vestimos uma mochila, como vestimos roupas e, quanto mais ela se adequar ao nosso corpo, melhor será para transportá-la. Por isso, quando for colocar a barrigueira, ela deverá estar exatamente no meio dos seus quadris. Não é na cintura nem onde termina a sua calça – na verdade, é alguns centímetros para baixo, no meio mesmo do quadril. E as alças da mochila devem acompanhar esta distância – regule-a para que ela permita que a barrigueira fique na posição correta. Mochila regulada? Hora de cuidá-la...
Cada vez que usá-la, limpe-a com uma escovinha seca. Não esqueça de abrir todo e qualquer bolso e cantinho da mochila, para ter certeza de que tirou areia, pó, restos de comida etc. Se precisar, limpe por dentro com uma esponja úmida e um sabão neutro. Deixe secá-la totalmente antes de guardar. Se a sujeira não for muito pesada, apenas enxagüe-a, com água fria e uma esponja, dentro de um tanque mas sem sabão. Certifique-se que a espuma usada nas alças, barrigueira e nas costas são de células fechadas. Do contrário, encharcá-las poderá fazer com que sequem fora do formato. Mochilas podem ser lavadas em máquinas de abertura frontal (lavagem por tombamento), com água fria e sabão neutro. Não use detergentes! E certifique-se que a máquina de lavar não tem agitador central (lavagem por agitação), que pode danificar o produto.
Não lave a seco! A química usada poderá danificar sua mochila. Os tecidos das mochilas costumam ser cobertos por uma resina que pode sair. Não deixe-a de molho em água com sabão.
Enxagüe sempre e bastante, para não deixar resíduo de sabão. Deixe secar sempre à sombra, pendurada. Nunca use secadoras. Sempre guarde-a em locais secos e arejados. E, de preferência, longe da luz do sol. Não esqueça que tanto o mofo quanto o sol são grandes inimigos do tecido e poderão danificá-la em pouco tempo. Ao levantar uma mochila pesada, pegue-a pelo menos por dois pontos, para não forçar demais um só. Procure não apertar demais as fitas de compressão, para não causar estresse desnecessário nas costuras. "Queimaduras" de sol são prejudiciais também aos tecidos de suas mochilas. Os raios ultravioletas desbotam e tornam o náilon mais fraco.
Procure sempre usar uma capa de mochila, mesmo que não esteja chovendo. Ela previne de pequenos rasgos feitos pela vegetação, da sujeira e até mesmo da chuva!
Lembre-se que nenhuma mochila é impermeável – elas são à prova d’água, no máximo.
Procure deixar as fivelas fechadas quando não a estiver usando, para não pisar nelas e, desta forma, quebrá-las.
Sempre inspecione os pontos de estresse: barrigueira, estabilizadores e alças. Se isto não estiver funcionando muito bem ou quebrar no meio do caminho, você não conseguirá carregar sua mochila!
Se precisar reparar alguma costura, use linhas extra resistentes e agulhas grossas. Depois, passe algumas camadas de selante de costuras (Seam Sealer da Coghlan’s). Isto irá impermeabilizar e deixará toda a costura mais resistente.
Se as pontas das fitas de náilon estiverem desfiadas, conserte-as esquentando com um isqueiro ou fósforo. Faça uma mochila perfeita: não deixe objetos pontudos nem cortantes, marcarem o tecido – nem danificarem o que estiver à sua volta!
Com relação aos zíperes: Mantenha-os sempre limpos e longe da sujeira. De vez em quando, passe silicone. Principalmente após usá-la perto do mar ou da maresia, tenha certeza de limpá-los muito bem. A maresia e a água salgada corrói os cursores e destrói os zíperes em pouco tempo. Mantenha a costura ‘aparada’, com os fios sempre rentes à peça, para não prender seu zíper. Troque-os ou conserte no menor sinal de fraqueza. Afinal, você não quer ver seus pertences serem espalhados por metros e metros durante o seu Caminho, não?
(Colaboração de Tácio Caputo)