Livro Completo
João Fabris

DE CACABELOS A O CEBREIRO


Alípio Deolli Filho

Agora sei por que o pessoal teme O Cebreiro. Achava que era por causa da neve e do frio, mas não é somente isto não, mesmo porque neste época não está nevando aqui. A partir de Villafranca del Bierzo é só subida, branda na verdade, até Vega de Valcarce, mas depois... É de assustar !

Comecei bem a caminhada do dia e fui tranquilo até Villafranca de Bierzo, (7,1 Kms.), mas daí até Trabadelo, (12 Kms.), comecei a sentir uma estranha falta de ar. A respiração parecia não dar a volta no pulmão e aquilo começou a me incomodar. Era como se eu estivesse cansado demais e não conseguia respirar direito e, com isto, não conseguia caminhar também. Já lá na cidade de Trabadelo,

sentei-me num banco de jardim e comecei a pensar no que deveria fazer. Uma coisa certa era que não poderia continuar a caminhada do jeito que estava. Peguei o dicionário e comecei a estudar as palavras que deveria dizer para me fazer entender, e tomar um ônibus ou um taxi para uma cidade de maior recurso médico. Enquanto isso, tirei todo o equipamento, as botas, as meias e fiquei descansando. Passou algum tempo e eu resolvi reagir. Fiz uma forte prece para SÃO MIGUEL e para SÃO TIAGO, para que me ajudassem a chegar não só até o Cebreiro, mas até Santiago de Compostela.

Não deu outra. Fui atendido na hora ! Dentro de pouco tempo me pareceu que já estava bem melhor e resolvi tentar caminhar até a próxima cidadela a 3,3 Kms. dali. Parece que eu era outro. A disposição para caminhar era completa. A falta de ar, simplesmente sumiu, desapareceu. Passei pelos próximos lugarejos me sentindo bem e descartei a hipótese de ter que parar.

Chegue em Verga de Valcarce, onde havia abrigos. Mas me sentia muito bem e, como meu guia estava um pouco desatualizado com relação a novos abrigos, achei que pela frente encontraria outros.

Pelos caminhos, fui observando a construção de uma colossal nova autoestrada que estão fazendo quase que somente viadutos. As enormes plantações de uvas voltaram a aparecer e já se nota a criação de mais gado bovino que antes, onde somente havia ovelhas.

Fiz um lanche em um bar em Ruttelán e a moça que me serviu informou que em La Faba, a 4,7 Kms. havia refúgio. Embora agora a subida fosse deveras bem íngreme, fui em frente. Sé que cheguei em La Faba, e não havia refúgio e nem nada. Só umas casinhas de fazenda com gado, mais nada.

Meu guia mencionava um refúgio no próximo lugarejo, Laguna, a 2,3 Kms. Só que lá não havia nada. Um morador informou que já houve um refúgio há muitos anos atrás, mas hoje também só tem uma casinhas de camponeses...

Conclusão: cheguei ao Cebreiro por volta das 20 horas, exausto. Por sorte ainda encontrei lugar vago para mim. Estavam lá uns 10 brasileiros já conhecidos e cada um que me via fazia a maior festa. O Giovane me alertou que soube que o único restaurante local fechava cedo. Só tirei as botas e coloquei os famosos chinelos de "dedo" que tanto sucesso fizeram nas grandes cidades espanholas, pois chamavam a atenção de todos que o viam.

O frio estava terrível e não havia mais lugar no restaurante. Estava com a lotação completamente esgotada por Peregrinos. A sorte novamente me sorriu e apareceram o Caio, o Jonas e o Juan, o espanhol, todos para jantar... Assim ficou mais fácil o pessoal do restaurante fazer mais comida para nós. Enquanto isto, é claro, fomos tomando vinho e cada um contando as vicissitudes do dia e todos ficaram espantados com o meu relato e a quantidade de Kms. (37,1 Kms.) que caminhei neste dia, subindo uma enorme montanha e ainda mais depois de passar mal! Salve Santiago e São Miguel!

É claro que depois de tudo isto, simplesmente desmontei numa confortável e deliciosa cama... Sonhando que estava em casa, na banheira de hidromassagem, com a água quase fervendo, minha "gata" me servindo churrasco, massageando-me e eu tomando vinho... Que delícia. A estas pequenas coisas a gente só dá valor quando não estão disponíveis.