Livro Completo
Foto Bia Bruxita

Diário de Uma Bruxa

Beatriz E. Abreu

Segurando a Mão de Deus

Encontrei-me com Elmo no Monte do Gozo. Não poderia estar em melhor companhia para entrar em Santiago...

Na descida do Monte, diz a tradição que se deve cantar... Eu que havia cantado tanto pelo Caminho, tentava me lembrar de uma canção que demonstrasse o eu que sentia naquele momento e nada me vinha a mente. De repente, vi-me cantando: "Segura na mão de Deus e vai..." Elmo também começou a cantar, e foi segurando nas mãos de Deus que cheguei à Santiago de Compostela. Ele, que me carregou por todo o Caminho, segurou nas minhas mãos para chegar até a catedral... Foi chorando de emoção que entrei na catedral!

Com meu coração transbordante de alegria comemorei minha vitória abraçando Santiago.

Minha alma se sentia engrandecida!

Nunca a minha mochila esteve tão leve e o meu cajado tão protetor como naquele momento.

Silenciosamente, cumpri todo o ritual. Abraçar Santiago, passar pelo portal da indulgência, tocar com as mãos naquela coluna, onde há tantos séculos as pessoas vitoriosas como eu tocavam.

Extasiada e em estado de graça assisti à missa dos peregrinos... Chorei quando ouvi meu nome e o nome do meu país ser falado pelo celebrante... Minha alma exultava de alegria... eu tremia... as lágrimas caíam como uma cortina de paz em meu coração.

Estar ali, depois de ter caminhado quase oitocentos quilômetros foi para mim o melhor presente que Deus poderia ter me proporcionado.

No final da missa, quando o celebrante mandou que saudássemos uns aos outros, eu saudei meu marido, meus filhos, meus pais, meus amigos, eu saudei a vida... saudei a saúde, a força, a alegria! Eu saudei o universo que sentia dentro de mim.

Nunca mais vou me esquecer do perfume do "bota-fumero"...

Na catedral encontramos com Allan, o irlandês que perfumava o Caminho com o seu cachimbo, com Angel, o peregrino que cuidava de flores, Jean Pierre e seu dicionário, Marcos o peregrino da Bahia, e com Josephina a querida e adorável "meiga".

Estávamos ali, tão envolvidos pela emoção, que mal pude sentir quando Miguel chegou... e me abraçou com tanto carinho, como eu nunca havia sido abraçada antes. Junto dele Ana, cheia de alegria e Robert, que emocionado me abraçava e agradecia por ter cuidado de Miguel...

- Quem teria cuidado de quem?

O relacionamento entre os peregrinos é algo muito mágico e misterioso. É como se alguma coisa muito forte unisse a todas aquelas criaturas, exaustas e vitoriosas...

Todos, durante o Caminho falávamos a mesma língua, independente do idioma, comunicávamo-nos de uma maneira extraordinariamente simples.

Compartilhamos lágrimas e sorrisos, nos confraternizamos em todos os momentos, dividimos dores, enxugando lágrimas uns dos outros. Tivemos as mesmas bolhas, sentimos o mesmo frio e fome, e agora temos em nosso corações o Caminho, e é isso que nos une, e unirá para sempre:

Somos" filhos do Caminho de Santiago", irmãos de dores e sorrisos.

Ao nos encontrarmos ali na Catedral de Santiago, um pouco de alegria e tristeza invadia nossa alma, alegria por estarmos ali juntos, desfrutando da nossa "vitória"... tristeza por estarmos terminado o Caminho de Santiago... Tristeza? Terminando? Ou começando? Isso iríamos ver depois que passasse a euforia da chegada...

Voltaríamos a nos encontrar? Não importa... o que importava -e todos sabiam - é que havíamos nos conhecido, sabíamos da existência uns dos outros e era isso que contava agora. Foi com muita alegria que ficamos todos nas imediações da catedral a esperar os outros peregrinos que chegavam.

A Compostelana, naquela hora, era para nós a coisa mais importante do mundo.

Logo depois de termos conseguido carimbar pela última vez nossas credenciais encontramos Marcello o peregrino/poeta, que havia acabado de deixar um bilhete para Elmo.

Ficamos os três mineiros juntos, comemorando a nossa chegada à Santiago.

Senti-me muito feliz em poder estar ali com Marcello, pois quando o conheci, em Leon, não pude conversar muito com ele, isso me deixou um pouco preocupada. Mas, agora teria muito tempo para conversar com aquele menino, dono do cajado mais bonito do Caminho, pois quando chegava aos albergues, ele entalhava no cajado a rota e o nome do "pueblo" onde estava, além de escrever belos poemas sobre o Caminho...

À noite, ficamos assistindo aos espetáculos musicais ao ar livre... Santiago é uma festa! Centenas de peregrinos e turistas, andando pelas ruas cheias de bares e de música celta, pessoas de todos os lugares do mundo...

Na manhã seguinte despedimo-nos de Marcos e de seus amigos... E de muitos outrso peregrinos.

Fui para a catedral que ainda estava vazia e ali, em frente àquele magnífico altar eu chorei, chorei toda a emoção do Caminho, toda a alegria que sentia dentro de mim, e que parecia não caber no meu peito...

Eu me sentia tão feliz... tão grandemente vitoriosa!

Eu que andava buscando retomar a alegria para a minha vida, aquela alegria da minha mocidade, que andava adormecida dentro de mim... dentro da minha vida.

Eu que tinha voado até o mais infinito do universo, até o mais profundo do mar... e sempre voltava com as mãos vazias...

Percebi que sempre me "quedara" vazia do que buscava, porque buscava de uma maneira insana, partia para dentro de mim, desordenadamente abria portas e janelas, via-me nua por dentro, uma nudez triste e envergonhada. Na ânsia da procura , abria arquivos que ainda não podiam ser abertos, descerrava cortinas para paisagens inacabadas... desistia da busca... voltava... e tinha ataques de autopiedade, ficava ali, parada, com o nada nas mãos...

Naquele momento, percebi que a busca desordenada não me levou a lugar nenhum, que teria que cerrar todas as janelas e portas. Determinei que somente poderia abri-las quanto estivessem prontas em mim, as maneiras de espera, mas de uma espera consciente e tranqüila... O meu Caminho da Santiago realmente começou ali... tenho certeza disso!

Agora, sentia tudo tão cristalinamente simples... estava tudo ali ao meu alcance e eu não percebia. Aquela alegria... aquela paz... que eu sentia naquele instante, foram reconquistadas através da simplicidade e da magia do Caminho... Através da minha abertura para a ajuda que todos os seres de luz podem nos proporcionar... porque eles estão o tempo todo ao nosso lado dispostos a nos ajudar, pois essa é a missão de cada um deles.

Alguns não podem sair do nosso lado, porque assumiram o compromisso de serem nossos guardiões tutelares, ficam procurando nos orientar, acalmar-nos e fazer-nos perceber o verdadeiro sentido da nossa vida neste planeta. Outros nem sequer podem se aproximar, pois encontramo-nos revestidos de uma couraça tão densa que a vibração não combina... Eles não podem aterrar ao nosso lado, pois a nossa energia está densa e turva. Eles querem e tentam nos ajudar, mas a nossas máscaras de orgulho, egoísmo, vaidade, intolerância, medos, incredulidade, falta de fé, egocentrismo, enfim... todos os nossos venenos determinam uma grande distância entre esses seres de luz e o nosso coração. E, numa teimosia de criança, fechamo-nos em sofrimentos e problemas que vão crescendo e se tornando cada vez mais poderosos, pois os alimentamos com nossa queixas e revolta... mais e mais a energia se adensa... mais se instalam os sintomas da negatividade... Então começa o processo de atração: tudo de mal acontece de uma só vez! O padrão mental está estagnado, parado, voltado para uma única direção, a direção do desânimo, da desesperança do amor. Será tão difícil amar a si mesmo? Valorizar os aspectos positivos que se tem?

Quando se esquece de algo, ele enfraquece... assim se dá com o aspecto pesado e denso do ser... No Caminho de Santiago, o nosso lado mal qualificado fica completamente esquecido e abandonado (pelo menos por trinta dias). Por isso a descoberta de novos e maiores focos de luz em nosso ser, a revelação do nosso lado mais leve e bonito e a transformação...

Caminhar sempre, como dizia Marcello, o peregrino/poeta:

"...caminhar é preciso. Muito ou pouco, o que importa é seguir sempre adiante, a cada dia, em busca de algo que possa ser até desconhecido, mas está lá esperando por cada um de nós..."

Assim, percebemos em cada curva do Caminho, impulsão para vôos mais altos, pois se percebe que os valores mudam de acordo com a posição que se ocupa na vida...

Sempre, sempre em nosso cotidiano, poderemos ter um "albergue" para descansar; um "cajado" para facilitar a nossa caminhada... um "peregrino amigo" para nos amparar.

E a certeza de que depois de uma tempestade, o sol sempre nasce... e que do mais puro cristal, ao mais grotesco tronco, passando pelas estrelas, conchinhas, pedras, plantas, animais, e tudo mais; a matéria prima usada foi a mesma.......o Amor de Deus!

Somos todos, recipientes que contêm a maravilhosa luz do amor de Deus, incondicional e puro. Tão grande como toda a sua criação... e como tal, podemos ter a certeza da nossa essência divina e perceber que podemos ser as mais belas criaturas em todos os sentidos!

O Caminho de Santiago oferece esta oportunidade aos peregrinos.

Estávamos numa vibração mais elevada, propiciada pela própria natureza. E neste canal, pudemos colocar alguns objetivos maiores de busca, entre eles, o não julgar (coisa que de uma maneira muito especial reaprendi com Abadia), o cooperar, o estar receptivo, o estar presente para permitir uma abertura mais ampla para a vida em sintonia com essa maravilhosa cartilha que esta aberta aos nossos olhos... que é a natureza!

A calma e a mansidão do Caminho nos leva a perceber como é grande e inútil a nossa interação com o turbilhão cotidiano, onde atropelamos a tudo e a todos, no desejo de querer mais e mais. De uma maneira inconsciente acabamos por aprisionar nossos sonhos, nossas aspirações e também acorrentarmos nossos talentos, comprometendo, assim, triste e desastrosamente a nossa própria felicidade...

Assim terminei minha caminhada nas terras da Espanha, para seguir minha vida...

...E como minha vida seria diferente ...

Muitas coisas aconteceram desde então. Passei por um longo e doloroso processo de reajuste...

Dentro de mim despertou outra pessoa. Aos poucos estou aprendendo a lidar em esta nova pessoa que sou.

Terminei meu Caminho mais enriquecida, preenchida por momentos que me proporcionaram as mais belas e gratificantes emoções.

Chorei muitas lágrimas no Caminho, lágrimas dolorosas e refrescantes... Sorri muitos sorrisos, e me senti vitoriosa, sinto-me vitoriosa... uma doce e simples vitória.

Uma vitória cheia de paz, magia e beleza, que me foram emprestadas por Santiaguinho.

Agora eu o chamo assim, conquistei este direito depois de ter caminhado quase oitocentos quilômetros para abraçá-lo.

Farei o Caminho novamente? - Sim

Por quê? - "No lo se".