
No refúgio em Oviedo há um guia do Caminho do Norte à venda. "É o único existente sobre esse trajeto", explica o hospitaleiro. Foi editado pelos Amigos do Caminho do Norte. Compramos dois. Lendo-o antes de partir, ficamos sabendo mais sobre a história das peregrinações. De Oviedo saiu o rei asturiano D. Alfonso II, o Casto, tão logo foi divulgada a descoberta dos ossos do santo, tornando-se assim o primeiro peregrino a Compostela. Em Santiago há uma estátua desse rei em uma praça na zona da universidade.
O livro ensina ainda que a saída "oficial" de Oviedo dá-se da catedral do Salvador, havendo um dito que reza "Quien va a Santiago y no al Salvador, visita al criado y olvida el Creador". Vamos à catedral, os padres ficam muito contentes de ver peregrinos por ali e dão-nos acesso gratuito à Câmara Santa, onde estão expostas as maiores relíquias do principado das Astúrias, a Cruz dos Anjos e a Cruz da Vitória.
O Caminho do Norte começa bem. A travessia de Oviedo é longa e demorada, mas o trânsito é tranqüilo, muito diferente do de Santander, o povo é gentil, atencioso e prestativo. Montes verdes, belas vistas, árvores antigas.
Em Loriana, entramos para almoçar no bar Valdés. A dona diz que não há nada para comer, seu marido vê que somos peregrinos e manda que nos sirva. A comida está muito boa, o homem aproxima-se de nossa mesa e quer conversar, acha interessante a presença de brasileiros no Caminho e diz que ultimamente tem sido rara a passagem de peregrinos por ali, todos preferem o Caminho Francês. Pergunta como achamos a trilha. Respondo que está bem marcada, mas que os habitantes do local estão tão acostumados com as marcas, que não as percebem mais. Nós, que devemos caminhar com base nelas estamos de olhos abertos para todas. Acrescento que compramos um guia em Oviedo e ele se interessa, quer comprar um, para poder indicar a rota aos que por ali passarem.
Despedimo-nos, vamos embora entre aldeias, florestas, pontes, rebanhos, bandos de gansos. À tarde passamos por uma clareira de floresta, o Largo das Sábias Castanheiras, onde paramos para descansar. Sete castanheiras em largo círculo, mais uma no centro e duas à entrada. O lugar transmite tranqüilidade e energia. Ali ficamos por um longo período, é uma pena ter que seguir. Deixo lá duas pedras brasileiras para quem tiver a sorte de achar.
Numas sendas de florestas, as flechas amarelas desaparecem, precisamos ladear o rio Nalón, bem difícil, eu estava usando bermuda, pernas e braços ficaram totalmente cortados por espinhos. Resultou numa sensação de cãimbra na pele que durou até o dia seguinte. Os espinhos eram de alguma espécie de urtiga. Em Grado, cidadezinha que descobrimos ser famosa por sua ótima tradição pasteleira, dormimos no hotel Anto, excelente acomodação, comida asturiana de primeira classe!