Livro Completo

Um Peregrino Iniciante no Camininho de Santiago

Danilo fontenelle Sampaio

Cansaço, frio e fome - De El Acebo a Cacabelos - 30,5 Km

Acordamos, como de costume, ainda escuro. Chovia fino e o frio devia estar em torno de 15 graus.

Tomamos rapidamente café com leite e seguimos em frente, descendo a rua central de El Acebo, contendo os inevitáveis escorregões nas suas pedras lisas.

O sol nasceu fraco, mas o vento frio deu uma trégua e a chuva passou logo, possibilitando que andássemos com um certo conforto térmico.
Minhas unhas ainda doíam mas voltei a usar as botas para não correr o risco de torcer os tornozelos.

A caminhada exagerada do dia anterior fez com que uma noite de sono não fosse suficiente para recompor nossas energias, e caminhávamos devagar e sem muita disposição.

Em alguns trechos pude ver , pintadas com tinta branca em pedras, as inscrições "León libre " e "Galícia libre ", o que demonstrava a existência de desejos separatistas de algum grupo daquelas regiões, talvez próximos do famoso ETA (Euskadi Ta Askatasuna - que significa em basco "Bascos em Liberdade").

Encontrei, na entrada de Molinaseca, um grupo de pessoas que ocupava a lateral de uma Igreja com mesas e cadeiras, logo constatando que lá podia carimbar minha credencial. O mais interessante é que ainda era muito cedo, mas aquelas pessoas já estavam a postos, à disposição de qualquer peregrino que passasse por ali a uma hora daquelas. Achei aquilo tudo de um desprendimento total e de uma generosidade ímpar.

Estava sentado nos batentes da Igreja, aguardando Adónis obter o sello na sua credencial, quando vi um casal de peregrinos passar conduzindo um cachorro pastor-alemão pela coleira. Não sei ao certo se eles estavam realizando todo o Caminho com o cão ou se estavam apenas fazendo uma pequena etapa de fim-de-semana (algumas pessoas, por não disporem de tempo suficiente, fazem o Caminho por etapas anuais, partindo sempre da localidade em que pararam no ano anterior), mas estavam muito bem equipados e o cachorro parecia estar adorando o passeio.

Molinaseca é uma cidade linda, com um parque bem à beira da "carretera" que mais parece um cartão postal. Atravessamos lentamente a cidade que ainda dormia, admirando a beleza dos jardins das inúmeras mansões. Quase na saída passamos pelas instalações de um regimento da Guarda Civil e constatamos a existência de várias barracas de campanha dispostas no terreno lateral do prédio parecidas com as que encontramos em El Acebo e imaginamos serem também disponibilizadas para peregrinos.

Adônis começou a sentir que as dores no seu tornozelo esquerdo aumentavam a cada passo e resolvemos diminuir ainda mais o ritmo.

Mesmo andando devagar chegamos a ultrapassar um peregrino que mancava mais forte que Adónis. Ao passar por ele arrisquei um Ultreya, mas ouvi apenas alguns resmungos como resposta. Passamos também por aquele peregrino que seguiu Adónis perto de Rabanal e, pode ser que eu esteja errado, mas tive a nítida impressão de tê-lo visto lançar um lânguido e demorado olhar em direção ao cearense de Juazeiro, o que confirmou a então descartada hipótese.

O Caminho deixa Molinaseca abruptamente, entrando sem avisar em um vasto campo de plantações. Foi no meio dele que vimos um jovem peregrino, de uns 19 anos, pequeno e magro, calmamente sentado em uma pedra, com a mochila de lado, fumando o seu cigarrinho de maconha. Estávamos em uma zona muito isolada, e ele deve ter pensado que ninguém (nem a Polícia) o importunaria logo ali. E ele estava certo. Passamos sem dizer nada, sentindo o cheiro forte da erva.

Logo avistamos Ponferrada, mas o Caminho circula a cidade por fora, de forma que andamos vários quilômetros até encontrarmos a entrada indicada para os peregrinos.

Após passarmos por uma pequena ponte. Adónis afirmou que as dores no seu tornozelo estavam insuportáveis e o remédio que tomava diariamente já não fazia efeito. Por sorte paramos perto de uma farmácia e resolvi tentar comprar uma pomada analgésica ou própria para dores musculares.

Comprei uma pomada cuja bula indicava a necessidade de ser aplicada com uma espécie de chumaço de nylon que a acompanhava, avisando que o paciente deveria evitar o máximo de contato com o produto. Adónis seguiu as instruções e, logo após, disse-me que o seu tornozelo estava esquentando muito e que as dores diminuíram sensivelmente, dispondo-se a caminhar. Seguimos em frente e assim que entramos na cidade demos de cara com um castelo medieval.

Já ouvira falar daquela edificação como tendo sido uma das últimas fortalezas dos Templários, ordem religiosa guerreira cujos monges eram exímios combatentes nas famosas Cruzadas.

Compramos algumas frutas e chocolates em uma tienda e almoçamos sentados em um banco em frente à fortaleza. Deveríamos ter entrado e visitado o castelo mas fomos dominados por uma pressa sem sentido e, após tirarmos apenas algumas fotos de sua fachada, fomos em frente.

Soube que dentro do castelo existe um ator enorme, de quase dois metros de altura, vestido com armadura típica dos monges guerreiros e portando uma grande espada. Assim, de vez em quando o sujeito sai do seu imobilismo e escolhendo um turista para brincar grita para o mesmo: "TU ÉS UN CABALLEROT. E se a "vítima" responder que sim, o sujeito afirma que naquele castelo só tem lugar para um só nobre, de forma que terão que disputar o lugar na base da porrada mesmo, ocasião em que, levantando com as duas mãos a enorme espada acima da cabeça, sai correndo em direção ao turista para um inevitável "combate". É claro que o visitante sai correndo e o sujeito sai atrás gritando "VENGAU! TENEMOS UN COMBATE PARA HACER\!!". Dizem que a cena é muito engraçada.

Sair de Ponferrada foi um outro suplício. A cidade é muito grande e as setas indicam um caminho que serpenteia por quase toda ela, passando pela Universidade local, residência de professores, colégios públicos etc.

Caminhava olhando as nuvens escurecerem e rezando para que a chuva só voltasse quando estivéssemos abrigados. A simples lembrança do trecho Estella - Los Arcos e a experiência de caminhar com os pés encharcados causavam-me aflição. As minhas preces foram atendidas em parte, vez que acabamos levando uma chuva rápida no Lombo, mas sem estragos maiores. O chato é que o vento voltou forte e trio.

O cansaço aumentava a cada quilometro, e chegamos a parar várias vezes para tentar recuperar as forças. Em um desses descansos e após termos ladeado vários povoados, concluímos que não aguentaríamos chegar a Viliafranca e que seria melhor ficarmos em Cacabelos.

Chega-se a Cacabelos após subir e descer uma longa ladeira, em mais uma inevitável estrada de terra batida e pedras soltas. Com exceção da rua central bem larga, a cidade mantém as demais características medievais de todos os vilarejos, mas a canseira era tanta que não vi qualquer encanto nela.

Eu estava andando a uns 500 metros à frente de Adónis, que mancava cada vez mais forte, e, guiando-me pelas setas, encontrei o refúgio daquela cidade, avisando à hospitaleira que ele chegaria logo em seguida.

O refúgio era minúsculo e ficava no segundo andar do colégio municipal. Pelo que percebi, existiam vários conjuntos de dois quartos e um banheiro, com entradas independentes. Cada quarto compunha-se de três beliches em um espaço de aproximadamente 3x 6 metros, de forma que a distância entre as camas era ínfima.

Peguei a cama de cima de um dos beliches e coloquei minha mochila na de baixo, reservando-a para o Adónis que chegou após cerca de meia hora.

Nossas movimentações acordaram um peregrino franzino que estava dormindo; puxando conversa com ele, soube tratar-se de um estudante alemão de 21 anos que estava fazendo o Caminho com uma colega de faculdade; ele me disse que, infelizmente, estava constatando o efeito lubrificante do tempero espanhol sobre os seus intestinos e que há dois dias não podia comer coisa alguma sob pena de ter que dormir no banheiro. Ele era magro e baixo, com cabelos pretos e a possível desidratação estava realçando os sulcos existentes em sua face pálida. Recomendei-lhe beber bastante água e a procurar o serviço médico, mas ele afirmou já estar bem melhor e que na manhã seguinte tentaria voltar a caminhar.

Um só banheiro servia aos ocupantes dos dois quartos, de forma que tive que esperar sentado no chão e do lado de fora que um inglês tomasse o banho mais demorado que até agora tive notícia. Pelo menos a água era quente e, mesmo muito cansado, pude lavar-me com razoável dedicação.

Eu estava tão cansado e as dores nas unhas eram tão intermitentes que não me animei a ir procurar algum lugar que servisse refeições e preferi jantar o resto das frutas e do chocolate que comprara em Ponferrada e um iogurte que o Adónis me ofereceu, indo dormir por volta das 20:00 h.

No meio da noite fria e chuvosa acordei com vontade de ir ao banheiro. Fiquei um bom tempo pensando no indiscutível conforto das fraldas geriátricas e que deveria ter adquirido algumas, mas a vontade apertou e decidi tomar coragem para sair do momo saco de dormir e enfrentar a descida da cama. Assim que coloquei os pés no chão gélido do quarto senti cãibras dominarem os meus já minguados músculos das pernas. Foram tão fortes quanto aquelas que senti subindo os Pirineus mas, graças a Deus, passaram logo e pude ir, mesmo mancando, até ao banheiro.

Demorei um pouco a pegar de novo no sono e, quando acordei, senti que as cãibras tinham-me deixado com fortes dores nas coxas e que as unhas continuavam latejando.

Adônis contou-me Ter também acordado durante a noite para lavar-se, explicando-me que antes de tinha passado a pomada com a mão mesmo, esquecendo-se de utilizar o chumaço de nylon indicado para tanto, de forma que de madrugada suas mãos e canelas ardiam como se estivessem sendo queimadas.

Concluí que não aguentaria outro dia de caminhada com aquelas botas apertando minhas unhas inchadas e pedi que Adónis cortasse, com o seu canivete, as biqueiras delas, de forma que caminharia com a proteção para os tornozelos mas sem sentir a pressão das unhas batendo na parte interna e frontal do calçado. Após alguns minutos de "operação", recebi as botas devidamente "amputadas" e pude calçá-las colocando os dedos para fora mas sobre o solado, que fora conservado na sua integralidade.

O tempo estava escuro e o frio continuava presente, mas o refúgio era tão simples e sem estrutura que não tínhamos escolha a não ser voltar a andar. Resolvemos caminhar apenas até Viliafranca Dei Bierzo, distante apenas cerca de oito quilômetros, onde descasaríamos pelo resto do dia.

Saímos por volta das 10:00 h sem comer nada.