"Não vou conseguir chegar lá", pensei, "com esse frio, esse vento, essa chuva..." Mais um passo - você disse - estamos quase no alto.
Exausta, gelada, atravesso a curta passagem de pedras irregulares até a entrada do abrigo de Manjarín. A porta está entreaberta e lá dentro não existe muita luz. Espero que os olhos se acostumem à penumbra, enquanto tiro as luvas molhadas e esfrego as mãos. Vejo uma dúzia de pessoas lá dentro, talvez mais, sentadas no banco tosco de madeira, junto ao fogareiro a carvão. Os cumprimentos são em voz baixa, como se estivéssemos em uma das dezenas de capelas que visitamos. Corro o olhar pelas paredes de pedra e observo com cuidado as gravuras de Nossa Senhora, os objetos pendurados sem ordem em ganchos fixados nas juntas, a mesa pequena e as duas cadeiras, muito velhas, onde se sentam um dos hospitaleiros e cada peregrino que chega, cumprindo a rotina de carimbar as credenciais. Vejo, então, a feia tela que retraía um cavaleiro medieval, em frente à porta. Era isso: todos diziam que não poderíamos deixar de visitar Manjarín e conhecer o último templário. Acho este cenário bastante ridículo, como uma montagem destinada a criar o "clima" místico que se apregoava em todo o caminho e que tanto seduzia os brasileiros. A fumaça que se solta da lenha contribui para a atmosfera lúgubre. Sinto algum constrangimento... Não estou nada sensível, tenho de confessar, para esse tipo de experiência. Quero voltar para casa, sinto falta de meus objetos pessoais, do banho quente demorado, da roupa lavada e amaciada e perfumada, do barulho da cidade. Já não aguento mais esta música de fundo baixinha, que parece estar dentro da mente, o tal canto gregoriano que me acompanha onde quer que eu esteja. Tenho frio, fome, não; alguém me oferece o café no copo de vidro e eu vejo que ele está meio molhado, foi lavado e não secaram, que café horrível! fraco, eu, que gosto de café forte, muito amargo e insuportavelmente quente, mal dá para encostar a boca na borda, pelo menos aproveito para esquentar as mãos, agora que também estou perto do fogo, sem ver direito o que está acontecendo, mas não importa, porque como isso é ridículo... e ainda tem gente que dorme aqui, sem cama, no saco de dormir, sem água corrente, imagine como deve ser terrível ir ao banheiro durante a noite, eu que ainda não consegui vencer uma noite sequer sem ter de levantar para ir ao banheiro, isso é coisa do Zé Maria, que insistiu em que valia a pena vir, não sei, porque não imagino o que possa dizer a qualquer pessoa ali, quem será ele? Thomás me parece um homem baixo, quase da minha altura, tem cabelos e barba grisalhos, usa óculos de aros pretos que não ficam horizontais sobre os olhos, estão sempre meio inclinados, veste uma horrível roupa camuflada sobre a camiseta branca meio encardida e um boné verde, marrom, preto?, com a cruz templária: ele não é o último templário?, está cercado pela Anne-Marie e pela maiorquina, esqueci o nome dela, a francesa está filmando enquanto ele fala. Termino o café e decido obedecer às regras dos abrigos, vou lavar o copo, nossa! que coisa mais nojenta aquelas duas vasilhas com água, uma supostamente com água limpa, na qual se enxaguava o objeto que já tinha sido mergulhado na outra, turva, antes e depois de ser ensaboado, mas naquela vasilha, a da água limpa, boiavam uns resíduos, será que eu vou ficar doente?, embora eu possa até entender, porque neste abrigo não existe água encanada, é preciso ir até o riacho próximo, mas tenho de admitir que sinto aversão ao que vejo, não é muito cristão, onde está o espírito do caminho?, hoje estou tão irritada, acho isso muito ridículo e constrangedor. Chego perto dos três. Escuto a voz de Thomás, meio rouca e muito baixa, contando a história da mulher linda e misteriosa que passou por ali sem mochila, e deixou o lenço pendurado no prego, e que ele reconheceu como a Virgem Maria na gravura da parede, como é que alguém acredita na história, eu fico ouvindo, já que você não se levanta logo, para ir embora, nem enfrenta os dois e três peregrinos que chegam e querem carimbar a credencial, é melhor sair logo, pois o caminho é longo, ele mora longe e o caminho é deserto ("e o lobo mau passeia aqui por perto"). Mal ouço o que estão dizendo. Percebo que a francesa guarda a câmera. Ela aperta a mão do templário, a maiorquina também, e eu aqui do lado, que jeito? Obrigada por sua acolhida, hospitaleiro, e pelo café. Estendo a mão, automaticamente. A mão e magra e esta quente. -Não escuto nada do que ele me diz, fale mais alto, eu penso, que é que ele está dizendo? Sinto só o toque da mão dele na minha mão.
Não, não me pergunte por que eu estou em prantos. Não é por nada, não. Não estou triste, nem alegre. Não estou mais cansada. Não estou pensando em nada. Não consigo parar de chorar. As lágrimas não param de correr há uns dez minutos. Não me pergunte por quê. Não, não quero voltar. Não sei o que está acontecendo. Não, não acredito em templários fora dos livros, nem em bruxas soltas pelas montanhas e florestas do norte da Espanha. Não, eu não creio em nada disso. Mas, afinal, o que é que havia lá em cima, no alto do monte Irago, que me fez sair dos eixos?