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 Foto Ícaro Moreno

De Saint-Jean a Santiago a Pé

Ícaro Moreno

20º Dia - De Rabanal del Camino a Molinaseca

Data: 23 de junho, sábado
Saída: 7h30min
Trecho de 32,8 km: Rabanal del Camino, Foncebadón, La Cruz de Hierro, Manjarin, El Acebo, Riego de Ambrós e Molinaseca

Saí sozinho de Rabanal. Disse ao Agustín que queria passar só em Foncebadón. em razão da aura que esta cidade tem por ser abandonada. Abandonada e mal-assombrada, segundo Paulo Coelho, pois em seu livro "Diário de um Mago" (Editora Rocco. 1994, Rio de Janeiro, 99a edição pgs. 175 a 182) descreve que ali encontrou o espírito do demônio num cão. Mas isto é história para depois.

Por enquanto, o que posso falar é que assim que saí de Rabanal, a caminho para Foncebadón, encontrei uma subida bem íngreme. É a subida do monte Irago, com l 504 metros, que atravessa Foncebadón, indo até a Cruz de Ferro. Tirei foto de uma calçada com flores, mais adiante, de um depósito de água potável e mais ainda, de uma cruz bem feita, mas que se encontrava cercada de mato que já estava alto.

A Cruz de Ferro é outro ponto místico do Caminho. Parece-nos que foi erguida por um ermitão do século XI, Guacelmo, protetor dos peregrinos, talvez sobre um altar romano dedicado a Mercúrio, deus dos caminhos, onde os peregrinos costumam depositar suas mensagens e votos. O dia começou muito difícil. Subidas e descidas, algumas muito fortes, outras nem tanto. O chão todo de pedra, parecendo que a montanha é toda uma pedra só e os peregrinos vão desgastando-a, dia a dia. Pedra preta, parecendo vulcânica. Pedras duras, grandes e pequenas, soltas e presas, redondas, roliças, afiadas, vale tudo.

Cheguei a Foncebadón. Logo um cartaz nos conta como nasceu a cidade e também como foi abandonada por sua população, em busca de melhores plagas.

Entrei na "rua" que ainda diz chamar-se Calle Real, mas na realidade é uma viela, com casas desmoronando em ambos os lados e um mato ralo por onde foi via. Tirei fotos, enquanto caminhava. Ia observando bem o caminho, com dobrada atenção, enquanto penetrava no que fora uma cidade. Não estava com medo, porém tenso, querendo adivinhar o que veria adiante.

Depois de andar por mais ou menos trinta minutos, vi, ainda bem à frente, um homem agachado, que parecia ter uns quarenta anos, que tirava água de uma banheira e a jogava numa panela grande, preta, como se fosse de borracha dura. Fui chegando e cumprimentei-o. Da primeira vez nem deu sinal de que percebera minha presença, continuando em seus afazeres. Cumprimentei-o de novo:

- Buenos dias!

O homem lentamente olhou para mim. Fiquei desconfiado. Pensei: será que estou diante de algo imponderável, sobrenatural? Olhei em seus olhos para ver se havia alguma diferença dos meus, como o branco dos olhos vermelho ou outra qualquer característica. Não havia. Tudo igual, comum. Olhei para a cara do seu cachorro, que estava a seu lado, de cor amarronzada, e também não percebi qualquer diferença dos cachorros comuns.

- ¿Hablas con todos? - perguntou.

- Si; ¿por que no habria de hacerlo ¿ - retruquei.

- Pues yo no! - disse. E completou: - Solo con los vecinos...

Tentei puxar mais conversa, argumentando que eu era brasileiro, de paz, que só queria fazer o Caminho para Santiago de Compostela.

- ¿Es hrusileno? - perguntou. Diante da resposta positiva, completou:

- Las hrasileñas son muy bonitas! - disse, levantando-se. Respondi-lhe que sim e perguntei-lhe:

- ¿Vives sólo?

Ao que imediatamente respondeu:

- Si. Trae una brasileña para mi. E eu retruquei:

- Vás a Brazil a buscarla...

Rimos. Como ele desse mostra de que queria ir embora, puxei conversa:

- ¿Cómo te llamas?

- Angel! - respondeu prontamente.

Angel é anjo, como sabemos. No mesmo momento pensei que no lugar onde o escritor Paulo Coelho encontrara um demônio eu encontrei um anjo!!! Tentando ainda continuar a conversa, disse-lhe:

- iEs um nombre muy bonito! Ao que ele respondeu:

- No me gusta; es muy común...

Perguntei-lhe, ainda, mostrando-lhe um pequeno gravador:

- ¿Gravas una entrevista?

- iNo, no sé hahiar! - prontamente respondeu.

- ¿Como no? No estas hablando conmigo?

- Si; Pêro no quiero hablar en el grabador.

- Sacas una foto? - emendei logo, sem lhe dar tempo de ir embora.

- ¿De quien? - respondeu, perguntando.

- De mi... - falei, estendendo-lhe minha máquina fotográfica já armada para tirar a foto, e explicando-lhe logo como deveria fazer.

Ele ajeitou-a em sua face e apertou o botão (saiu uma foto muito boa, que está em meu álbum) (foto 31). Devolvendo-me a máquina, pegou a tal panela e aí vi que era dura, mas maleável, com aparência de borracha e encaminhou-se para um local inverso daquele que eu teria de percorrer.

Não podendo fazer mais nada, continuei em minha marcha. Tirei mais fotos (foram nove ao todo) e quando já saía da cidade me dei conta de que não o fotografara. Voltei rapidamente e ainda o encontrei, agora pegando uma viela, (pareceu-me que iria trabalhar na lavoura ou coisa assim), com seu cão ao lado. Gritei seu nome e ele parou. Ao chegar perto, pedi a ele que se deixasse fotografar tendo ele recusado. Insisti duas vezes e ele novamente recusou a permissão, em ambas. Mas, olhando-me bem nos olhos disse uma frase mais ou menos incoerente:

- Los brasilenos son muy educados... - e continuou em seu caminho, sem voltar-se.

Não querendo perturbá-lo ainda mais, peguei minha estrada.

Continuei a subida suave, mas constante, até chegar à Cruz de Ferro.
É uma cruz comum, de ferro, montada em cima de um poste de madeira, na realidade um caule de uma árvore fina, mas alta, com talvez uns dez metros de altura. Sobre o solo acumula-se uma montanha de forma circular, de pedras pequenas, deixadas pêlos peregrinos, com uns quatro metros de altura por talvez outro tanto de raio. na base. E um imenso mílladoiro. Ali os peregrinos deixam seus pedidos e fazem preces, cada qual agindo livremente, como lhe aprouver.

Subi nas pedras e coloquei sob algumas delas, no alto da pilha, as mensagens que me pediram para ali deixar, e uma, de minha autoria, que escrevi na hora, em uma folha do caderno espiralado que servia para minhas anotações.

O motorista de um italiano muito simpático, que parecia rico, por seu modo de vestir, com roupas finas e bem talhadas, tirou foto minha (foto 32). Por várias vezes vi, em todo caminho, um carro a seguir pessoas de posse, que contratam o seu proprietário, com suprimento de água e comida e carregando tudo que possuem, aliviando-lhes o peso da mochila. Mas esse italiano tinha o carro, um furgão, só para si. Vi-o algumas vezes no Caminho caminhando...

Quando ainda me encontrava no monte de pedras, chegou o Agustín, que saíra depois de mim do albergue, e continuamos juntos.

A cruz de ferro marca o limite entre a maragataría de Astorga e El Bierzo. Começa-se então a descer, tornando o caminho mais suave.

Encaminhamo-nos para Manjarín. É outro povoado abandonado. Tudo está em ruínas. Há um pequeno espaço com vida. Uma vida mística, para o templo. É o espaço de Tomás. Tomás é uma pessoa que vive para o Caminho. Mora numa pequena casa, quase um barracão, mas não deixa de tocar os sinos e colocar na vitrola cantos gregorianos quando se aproxima um peregrino. Dá-lhe boas vindas e algo para beber ou comer. Conversa, canta, toca música.

Quando lá estivemos abraçou-nos muito e tirou fotos conosco. Disse que viria ao Rio de Janeiro e realmente o fez no mês de novembro, vindo à Associação dos Amigos de Santiago visitar-nos, na reunião da primeira sexta-feira do mês, na Casa de Espanha. É uma pessoa boa, que só faz o bem, quando pode fazê-lo. Alguns o terão como fanático, mas prefiro dizer que ele gosta muito do Caminho e por isso vive para ele.
Junto com Tomás, quando chegamos, havia mais cinco pessoas, quatro homens e uma mulher, que conversavam e ainda continuaram lá quando saímos.

Ao lado de sua casa há outro abrigo, este para caçadores, que querem passar dias caçando, embrenhando-se no mato e subindo a montanha. Também estivemos com os responsáveis e dois caçadores que iriam iniciar a jornada.

Dominando a entrada da casa de Tomás há um cartaz que dá certas quilometragens para locais de peregrinação: GALIZA: 70 km; JERUSALÉM: 5000 km; SANTIAGO: 222 km; FINISTERRE: 295 km; e ROMA: 247 km. O cartaz está lá; quanto a erros, ficam por conta do Tomás...

Logo depois passamos por uma pequena ermida, da qual tirei foto e onde não entrei por estar fechada, mas bem que fiz tudo para conseguir abri-la.

Seguimos adiante, para El Aceho. O dia estava lindo e fazia calor, mas não tanto que fosse atordoante. Às vezes, uma rajada de vento suave trazia alegria ao peregrino que caminhava. A entrada de El Acebo é muito bonita. Chega-se lá através de uma descida suave, seguindo o Caminho.

São quase sete quilômetros de Manjarín. Essa povoação também já esteve quase desaparecida, ressurgindo em razão do Caminho. Passamos pelo cemitério, onde em sua portada há um monumento a um peregrino alemão que morreu em acidente de bicicleta. Faz parte do monumento a bicicleta amassada do peregrino. Fotografei-o. Encontrei também um senhor que na garagem tinha muitas esculturas e tinha prazer em apresentá-las a todos que passavam. Disse gostar muito dos brasileiros e tiramos uma boa prosa. Em El Acebo resolvi comer um bocadillo que me pareceu muito bom. Enquanto esperava ser servido, um senhor, que disse chamar-se Agustin (assim como o que andava comigo, mas que naquele momento desaparecera) c que estava no bar e nada fazia. só atrapalhava, reclamando de tudo, parecendo ser o pai do dono do estabelecimento. Puxou conversa comigo.

Há coisas que não conseguimos explicar. Aquele senhor fazia questão de ser antipático, tornando desagradável a atmosfera no bar. Por mais gentis que fossem minhas palavras, elas não encontravam eco naquele velho coração amargo, que talvez tornara aquela vida uma sombra sobre a terra.

Mais quatro quilômetros e estaríamos em Riego de Ambrós, também localidade muito pequena. O dia estava lindo e fazia calor, mas não sufocante. Em Riego de Ambrós há um momento cm que a trilha se divide. Lembrei-me do que lera no Guia: a melhor trilha é aquela que passa pelo fundo do vale. E foi este o caminho que tomei quando chegou o momento. Realmente é uma descida íngreme, mas embaixo é um local muito bonito e pareceu-me o mais movimentado e mais povoado, com boas casas.

Finalmente cheguei a Molinaseca, e também ao final do Monte Irago, descendo para penetrar na cidade. Logo na entrada, após atravessar o rio Meruelo por uma ponte românica, encontramos o Santuário das Augustas, uma construção antiga, do século XVIII, à esquerda, com uma construção nova, recém-acabada, à direita. O portal antigo e revestido por uma camada de ferro, em razão de que os peregrinos costumavam tirar pequenas lascas, para levar como recordação e amuleto de sorte.

A entrada é muito bonita, com casas novas e boas, até ricas, dando uma visão de progresso. Atravessando a cidade chegamos ao albergue.

O albergue é bonito, com dois andares, ficando as pessoas mais idosas na parte de baixo e as mais jovens, na superior. Tem um bom pátio interno descoberto, formando uma área interna, com bancos, dando muito conforto ao peregrino. Vi alguns fazendo comida. Os salões de dormir estavam divididos, em baixo, o da esquerda para os homens e o da direita para as mulheres. Depois do banho e da troca de roupa, fiquei naquele pátio interno descansando, esperando a hora de ir jantar.

Numa parede lateral da casa vizinha, virada para o abrigo, alta e larga, com uns seis metros de altura por uns oito de comprimento, alguém fez um quadro a óleo lindo (disseram-me que foi um pintor do lugar) representando um peregrino, que na sua morte se encaminha para o céu. O reflexo da tarde fazia parecer que o peregrino estava entrando na nuvem, no céu. Muito, muito bonito.

Mais tarde chegou Agustín, com o padre do lugar, seu amigo, dizendo que iria à igreja para umas orações. Como estava muito cansado, não fui. Já à noite, o Agustín regressou com o mesmo padre e várias senhoras, convidando-me para jantar com eles. Declinei do convite, pois não ficaria muito à vontade, c fui jantar num restaurante ali perto, após passear um pouco pela cidade. Nesse passeio pude ver jovens que também estavam passeando. Alguns jogavam uma espécie de frontão, que é aquele jogo que possui duas paredes às quais se joga uma bola. Também passei numa padaria que tinha uns doces muito bonitos e comprei dois para comer depois do jantar. Quando quis, fui dormir.