
Esta é a pergunta que mais tenho ouvido. Por quê? De onde tirou você esta ideia?
Tento buscar no passado aonde exatamente tive inspiração para tal empreitada. Um livro, uma revista, um programa de televisão. Não sei, o que lembro é que um dia voltando de uma viagem a Curitiba, durante as férias de meus filhos em Janeiro de 1999, vejo na televisão em Campinas, na casa de minha irmã; a reprise de um programa do Globo Repórter sobre o caminho. O assunto não era novo, mas neste dia chamei minha esposa dizendo "Nega", (é assim que chamo carinhosamente minha esposa Valdenice), agora que não tenho mais vínculo com nenhuma empresa vou fazer este caminho! Há pouco tinha saído de uma empresa onde prestei trabalho por 12 anos, e pela primeira vez em minha vida tinha meu próprio negócio.
Acredito que neste momento iniciei meu Caminho, minha convicção era tanta que São Tiago Apóstolo, filho de Zebedeu, irmão de João, certamente ouviu e disse amém.
A partir deste momento as coincidências se iniciaram: chegando em BH fui ao supermercado e na hora de pagar a compra vejo na minha frente a revista Viagem e Turismo, ano 5, n. l, Rio de Janeiro, Ed. Abril, Janeiro/1999. Na capa a foto da Catedral de Santiago, de imediato a comprei e devorei antes de chegar em casa. A reportagem mostra o roteiro, define o tempo necessário e já mostra alguma estimativa de custos, além de indicar algumas empresas de turismo que têm pacotes para andarilhos, a Starshine de São Paulo e a Zenithe de Belo Horizonte.
Em seguida descubro, através de uma nota no jornal, a Trilhas e Rumos, empresa que gerência grupos para fazer o Caminho. Entro em contato e sou convidado para uma palestra no Centro Cultural Brasil-Espanha, Leopoldo meu amigo e companheiro de outras aventuras me acompanha.
Apesar de chegarmos um pouco atrasados, somos recebidos com um sorriso do tamanho do Caminho pela Ayla, que se desdobrou em informações. Pela primeira vez o Caminho toma formato definido em minha mente. Não tenho mais dúvidas. Vou em maio de 1999.
Leopoldo ficou de pensar, neste momento de sua vida é praticamente impossível se ausentar tanto tempo, 40 dias para todo o Caminho, 22 dias saindo de León ou mesmo 15 dias saindo do Cebreiro.
Primeira dificuldade: a família não consegue entender como vou me ausentar por 40 dias; os negócios, as crianças, os compromissos da Igreja, como ficarão? Tento viabilizar mas não consigo, sou obrigado a abrir mão da última passagem ainda disponível no grupo da Trilhas e Rumos que vai em maio.
Não me dou por vencido, solto imediatamente a ameaça:
- Então vou em maio de 2000!
Para minha surpresa o apoio da família foi incondicional. Mãos à obra, comecei a procurar maiores informações e acabei chegando a um site do Caminho, www.caminbodesantiago.com.br e em seguida à Lista de discussão sobre o Caminho no e-groups, atual Yahoo (santiago@egroups.com.br). Bem, aí é que realmente comecei a caminhar, conheço virtualmente vários peregrinos, as informações vão chegando: quando ir? O que levar? Como se preparar? Passagens? Hospedagem? O que comer? Quanto custa?
Que turma maravilhosa, tirei todas as minhas dúvidas e ainda fortaleci minha vontade de ir.
Começo a formatar uma nova Peregrinação, sem grupos, sem apoio logístico, bem mais próximo do que eu sempre desejei. Aumentam os desafios e também as preocupações.
Na lista de discussão da Internet, depois de descobrir mais pessoas com vontade de ir em maio, formamos a "Turma de Maio 2000", que chegou a ter mais de 30 possíveis peregrinos.
Conheço os peregrinos Flávio, Dani e Xandi e participo das reuniões da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago no Centro Cultural Brasil-Espanha.
Sou convidado pela Dani, representante da Associação, a fazer uma caminhada de 25km, de Belo Horizonte até Honório Bicalho. E a grande oportunidade de sentir se sou capaz!
Às 8h saímos do Posto Fernanda, próximo ao BH Shopping, e 7h30m mais tarde estamos chegando à Fazenda, onde um bom macarrão peregrino nos espera. Contrariando as expectativas, chego sem muitos arranhões, um pouco dolorido mas nada com que não esteja familiarizado (tenho passado os últimos 2 anos em consultórios de ortopedistas, devido a dores musculares).
Depois vieram outras caminhadas. Na Serra do Cipó conheci Luiz o peregrino a jato, Júnia, Andreyva, os também aspirantes a peregrino, Miguel, Juare2 e Lina. Que maravilhosa troca de experiências e de expectativas.
Em todas as caminhadas sinto muitas dores, tento não pensar muito no assunto, mas a possibilidade de não conseguir fazer todo o caminho ronda minha mente.
Em dezembro de 1999 compro meu primeiro objeto para o caminho: uma bota, especial para caminhadas, com Gore-tex, material impermeabilizante que permite a respiração. Ainda pouco familiarizado com todos estes nomes e características, mas assim mesmo efetuo a compra de meu presente de Natal. O número? 10 e Vi, 44 no equivalente brasileiro, um susto a princípio pois calço normalmente 39 ou 40, mas a "Lista" (Internet) aconselha que os pés estejam confortáveis.
Começo a amaciá-las. Na primeira caminhada, ao dar a volta na Lagoa da Pampulha, ganho duas bolhas, uma em cada pé, um trofeu para um aspirante a Peregrino e também uma oportunidade para colocar em prática os ensinamentos da Associação: agulha e linha desinfetadas, passo o fio por dentro delas e corto nas extremidades, a fim de que sequem naturalmente.
Faltam pouco menos de 10 dias para a viagem, meu joelho esquerdo dói muito, herança do Rally dos Sertões, em julho de 1999, ao ajudar um competidor que entalou a roda de sua moto entre dois troncos em uma ponte, tive uma torção que ainda não melhorou.
Vou novamente ao ortopedista, preocupado com a proximidade da viagem. O médico me receita um corticóide, que sinceramente não sou muito favorável ao uso, mas tomo uma das inj ecoes e levo outra juntamente com a receita para alguma eventualidade.