
Sete horas da manhã.
Botei a mão pra fora da minha janela e senti aquela chuvinha fina e gelada, que parecia uma coleção de agulhas, exatamente do diâmetro dos poros do meu braço. Aaaaaah... agora eu tinha todas as desculpas pra voltar para debaixo das cobertas e assumir uma deliciosa cumplicidade com a minha preguiça.
(Tô como o diabo gosta... Não vou nem pagar as contas que estão vencendo. Hoje, que se dane o Sistema! Nada de internet. Comer? Se, e quando, der fome e, com esse frio, banho só amanhã... Como dizia o Paulo Nilson... Nem me lembro mais - alguma coisa a ver com encarar uma jaca, sei lá!)
Me enrolei como uma múmia, abri um sorriso, e, ronronando, com os olhos entreabertos como quem ama....
"E da boca do dragão, e da boca da besta, e da boca do falso profeta vi sair três espíritos imundos, semelhantes a rãs".
Triiiiiiiiiiiin! Triiiiiiiiiiiin! Triiiiiiiiiiiin!
Foram-se o sorriso e o pré-êxtase! O palavrão que mais aprecio ficou preso na garganta e, no terceiro Triiiiiiiim, o meu dia começou com um "amável"...
- Alô!
- Tava dormindo, a esta hora! - fui obrigado a escutar.
- Nunca estou dormindo para os amigos - gemi, mentindo descaradamente, sem identificar o meu interlocutor.
- Já leu os jornais? O Serra sifu!
- O quê!? (o que seria um jornal? quem é Serra?)
- Ô meu! Tá me escutando bem? Levanta, que o bicho tá pegando e o pessoal marcou pras nove!
- Hein?
- Pras nove, figura... Pras nove!
- Roberto, hoje eu não posso. Marquei dentista pro meu cachorro.
- Roberto é o cacete! Tá me gozando ou tá dormindo mesmo?
Já com intenções assassinas, respondi:
- Qual a diferença, pô? Você não é o Roberto, eu não marquei com pessoal nenhum pras nove, não tenho cachorro e a conversa tá virando coisa de doido! Eu poderia mandar você se coçar, mas, mesmo de manhã cedo, sou muito educado - pelo menos enquanto estou dormindo.
- Não é o Alberto quem está falando?
- Cara, já é demais... Tem dó! Alberto-Roberto é "tropo" pro meu saco! Vamos ficar por aqui? É obvio que é um engano!
- Pôxa! Desculpe, amigo.... Sinto muito. Siga o seu caminho em paz.
- .......
- OK? Me desculpe, certo?
- .......
- Você ainda está aí? Me desculpe, certo?
O tom amigável de sua voz, me desarmou, e me lembrei, num relance, de certas coisas que eu imaginava que já havia aprendido. Revivi momentos intensos, passados sob sol e chuva, enquanto cruzava montanhas, bem longe daqui.
- Claro...humm... Roberto! Me desculpe você, pelo meu mau humor. Me chamo Leon. Tenha um bom dia.
- Me chamo Jean. Até qualquer dia.
- Até qualquer dia.
Não havia como fazer diferente. Eu tinha mesmo que seguir meu CAMINHO. Quem falou foi o JEAN.
Mesmo com a chuvinha fina e ainda com um pouco de sono, escovei os dentes, tomei um cafezinho, forrei os pés com minhas meias high tech, coloquei o tênis recém comprado, a pochete, e já com o pedômetro devidamente calibrado caí na estrada (quer dizer, no asfalto).
É isto que eu chamo de Coisas do Pós Caminho...
Leon Max Nahon - leon.nahon@gmail.com
"Máscaras, Vendas e Véus"
2005 - Segunda Edição