Com o olhar de uma peregrina no Caminho de Santiago, no fim do século XX, andei sobre os passos de nobres, comerciantes, monges, reis, santos, ladrões... pessoas ilustres e pessoas comuns, que percorreram o mesmo caminho. O caminho inclui o contexto histórico-cultural de diferentes épocas, onde se inserem a religião católica, os celtas, as lendas e o ambiente que cada um pode captar com a sua sensibilidade e percepções.
Como humanidade, passamos por muitas mudanças desde o início da peregrinação a Compostela. Vivemos em um outro mundo, onde a forma, o pensar, o sentir, a comunicação... tudo é diferente. E continuam as peregrinações. Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela ainda são os principais centros de peregrinação cristã.
No Brasil, muitos peregrinos vão para Aparecida do Norte, no estado de São Paulo e também para outros lugares, como a cidade onde está enterrado o Padre Cícero, Juazeiro do Norte, no Ceará.
O que permanece vivo e válido na peregrinação, além dos dogmas da religião católica, da noção de pecado e penitência? O que está além da visão de mundo do homem de uma determinada época, das mudanças de contexto e ambiente? Além das dúvidas na interpretação da mensagem do Cristo, dos erros e acertos da Igreja, ao longo da história... Externamente, o que move cada pessoa ou grupo de pessoas pode parecer muito diferente. No íntimo, existe uma busca essencial pelo encontro com a alma, com Deus, com o mistério da criação que nos une a todos os seres vivos.
O caminho é a experiência de cada pessoa em um determinado momento. E essa experiência se une a de todos os outros peregrinos por um fio de luz que é como a própria vida.
O caminho também é o que fazemos com o que recebemos...
Não estamos sós. Andamos em caminhos abertos por todos os que nos precederam. Assim, nosso compromisso é seguir adiante. Pelos que já passaram, pelos que estão conosco e pelos que virão. Foi o que pensei, quando encontrei há poucos dias um livro que reúne textos e palestras da "Peregrina da Paz". Em 1953, essa senhora deixou para trás o seu nome, a sua história pessoal, identidade e posses. Ela fez o voto de caminhar até a humanidade aprender o caminho da paz, dedicando sua vida a Deus, sem reservas, com o propósito de servir. Sem nunca revelar o seu nome, ficou conhecida como a "Peregrina da Paz". No início, caminhou para fazer contato com as pessoas e para se manter concentrada em suas orações pela paz. Depois, descobriu que já não precisava da disciplina da caminhada para rezar. Rezava sempre, em qualquer situação. Com muita fé, caminhou durante 28 anos, nos Estados Unidos, no México e no Canadá, até 1981, quando morreu, atropelada por um carro. Por onde passou, distribuiu mensagens de paz. Fez palestras em escolas e em muitos outros lugares, atendendo às solicitações das pessoas que encontrou. Sem dinheiro, contou somente com a bondade das pessoas. Assim, recebeu comida e abrigo, sem nada pedir. Caminhou vestindo apenas uma blusa com o nome "Peregrina da Paz", levando no bolso um pente, uma escova de dentes, uma caneta, textos com mensagens de paz e a sua correspondência. Seu exemplo de desapego e bondade foi mostrado nos jornais e na televisão. Vivendo a paz interior, inspirou e continua inspirando muitas pessoas, pelo seu exemplo e pelo material escrito que deixou.
Como mágica, pisco os olhos e estou novamente no Caminho de Santiago, ouvindo o sopro de uma oração: Paz para todos os peregrinos. Paz na Terra.
Essa é a história de uma peregrina no caminho para Santiago de Compostela e é também a história de um processo de mudanças importantes na minha vida. Com histórias na Índia e em outros caminhos.