Livro Completo

Perdi Meu Roteiro Encontrei Meu Caminho

Paulo Bastos Netto

Partindo - 18 de abril de 1999

Finalmente chegou o dia. Não podia controlar o tempo. Patrícia me deu um livro - Abrindo Portas Interiores, de Eillen Caddy, que tem um pensamento para cada dia do ano. Para aquele dia estava escrito:

"A paz começa no interior de cada um. Está lá dentro de cada alma uma sementinha esperando para germinar, nascer e fluir; só precisamos lhe proporcionar boas condições, um meio ambiente certo e o tratamento necessário para ela desabrochar. Aquiete-se e crie as condições certas. Aquiete-se e dê a ela a oportunidade para se enraizar. Quando ela se sentir bem firme, continuará a crescer; mas seus tenros brotos precisam ser ajudados e protegidos com muito carinho. Portanto, você guarda a chave para a paz do mundo dentro de você. Não perca tempo com o caos e a ordem em seu próprio interior. Faça a Minha vontade sem estardalhaço. Você não precisa ficar falando a esse respeito, simplesmente viva à Minha maneira. Transforme o caos e a confusão de sua vida em paz, serenidade e tranquilidade; torne-se um membro útil da sociedade e do mundo em que você vive. Comece com você mesmo, num ponto onde você sabe que terá sucesso, e depois espalhe a paz para fora de você."

Interessante, tudo a ver com aquele meu momento...

Passei os últimos três dias grudado na minha família. Mariana e Manuela dormiram conosco, na nossa cama. Foi um desconforto, mas foi ótimo ficarmos os quatro abraçados. Era como se não quiséssemos a separação momentânea que estava por vir. As meninas não queriam que eu viajasse, tinham medo que eu não voltasse e eu, já com saudades delas, queria "engoli-las", ficar juntinho...

Mal podia acreditar. Durante tanto tempo tinha planejado esta viagem e agora que estava indo, era como um sonho realizando-se. Mas foi interessante: durante todo o dia, fiquei apreensivo e assustado, sem saber o que fazer. Conferi a mochila e a pochete umas quatro vezes.

Manuela me deu um lencinho para eu me lembrar dela e Mariana, uma caixinha com uma corrente dela. Os pensamentos vinham aos borbotões. Lembrei-me dos comentários dos amigos, dos parentes e conhecidos, quando lhes contei que faria o Caminho de Santiago...

- Você ficou maluco?
- Que legal, também tenho vontade de fazer...
- Nossa, que inveja! Exclamou uma amiga...
- Isso é falta do que fazer ou então é muita grana... disse outro.
- É apenas um passeio, uma besteira... desdenhou um conhecido, que já havia feito o Caminho.
- Vá com Deus e com a minha benção... disse o Dr. Fernando, meu querido sogro.
- Estou orgulhosa de você... murmurou Marília, com um beijo carinhoso.
- Você vai descobrir mil coisas... disse Patrícia.
- Papai, vou sentir saudades... em uníssono, choramingaram Mariana e Manuela...

E todos tinham razão. O que falaram e o que estavam sentindo era pura verdade...

Para uma mesma coisa existem várias maneiras de ver e perceber. Todas são verdadeiras, mas o que um vê ou sente não é, necessariamente, a mesma coisa que o outro viu ou sentiu.

Pela manhã, recebi um telefonema de um fazendeiro vizinho. Queria dar-me um abraço de despedida, mas acabamos falando sobre a nossa produção de leite. Ele estava célico, realmente pessimista quanto ao futuro da sua fazenda. O preço que estávamos recebendo do comprador de leite não dava para cobrir os custos. Os compradores alegavam que o leite importado da Argentina chegava ao Brasil por um preço que inviabilizava qualquer incremento no preço que eles pagavam. A nossa expectativa era de que agora pudessem melhorar, graças ao baque que os argentinos estavam sofrendo em suas exportações depois de quatro anos de favorável taxa cambial. Mas até agora, nada. Enfim, ele chorou suas lágrimas e acabou me contagiando com seu pessimismo. Mas que droga, justo no dia da partida!

Logo em seguida, telefonou-me uma outra pessoa informando que a venda de um pequeno terreno que tenho em sociedade com Patrícia não ia se concretizar. Mas que droga, justo no dia da partida!

O que eu tinha a aprender com isso? A entrega... Nada mais eu poderia fazer naquele momento. Eu tinha feito a minha parte tomando as providências necessárias para a venda, mas, como em tudo na vida, era uma ilusão eu imaginar que tinha controle sobre a situação. Naquele momento a única coisa que eu deveria fazer era aceitar e entregar à Deus, confiando em qualquer resultado da minha escolha. Isso não queria dizer que então Deus é que resolveria. ao contrário. Eu deveria reconhecer que o resultado seria consequência de uma escolha minha.

Ia viajar e, na volta, veria o que poderia fazer. Naquele momento, sabia que nada podia ser feito.

Chegou a hora. Tomei um bom banho - quando teria outro igual? - vesti minha roupa e pronto. Levamos as meninas para a casa da Luiza, uma amiguinha delas, pois não queriam ir ao aeroporto. Assim, não sentiriam tanta saudade, segundo elas. E os parentes e amigos: Marília, Patrícia, José Maria, Cybele, e Luciléa foram ao aeroporto se despedir.

Foi enorme a emoção na despedida das minhas filhotas. Chorei até o aeroporto. Não era mais um sonho, não eram mais planos, estava acontecendo!

Fui embalar a mochila com aquele plástico protetor e um estrangeiro me pediu uma informação. Ele nem agradeceu, virou a cara e se mandou. Que sujeito mal educado!

No check-in consegui um lugar no corredor, meu lugar preferido no avião por causa das minhas pernas compridas. No meio de mais de 200 passageiros, quem acabou sendo meu vizinho de cadeira? O mal educado! Caramba, o Caminho já estava me ensinando, ou melhor, me dando a oportunidade de aprender.

No início eu o julguei por sua atitude, não levei em conta que ele poderia estar preocupado ou nervoso. Só vi a minha parte. No avião, tive a oportunidade de conversar com ele. Era um alemão, estudante de arquitetura, voltando para casa. No final, foi uma boa conversa.

Por razões culturais e, talvez, por alguma crença, fui batizado na Igreja Católica Apostólica Romana, mas nunca fui praticante, exceto numa ocasião em que Marflia e eu participamos de um encontro de casais, no que se constituiu em uma boa experiência.

Nunca fui de ler a Bíblia, apesar de ter uma na sala de casa, aberta no salmo 90. Hábitos e cultura. Mas por alguma razão eu levei uma Bíblia comigo e resolvi abri-la, pedindo para ler o que eu precisasse naquele momento. Aleatoriamente, abri em Salmos 18.32.

"Deus é o que me cinge de força e aperfeiçoa o meu caminho"

E assim comecei, mais tranquilo, menos ansioso... Jantei aquela comida insossa de avião, mas com um bom vinho. Não consegui dormir mais do que duas horas. Além da excitação da viagem, o espaço era pequeno. O avião atrasou na saída do Rio de Janeiro e, por causa disso, eu só teria meia hora para fazer a conexão para Pamplona. Na entrada da alfândega em Madrid, a polícia me reteve mais dez minutos. Foi um sufoco. Levava comigo vários remédios de homeopatia embalados naqueles papelotes. Apesar de estar levando a receita médica carimbada pela farmácia, o policial ficou muito desconfiado. Chamou seu superior, abriram um papelote, cheiraram, provaram, apalparam e me perguntaram para que servia esse tal de arsenicum álbum. Eu não sabia explicar especificamente, então resolvi tomar um. Se fosse droga, como eles desconfiavam, eu morreria de overdose ali mesmo. Eles ficaram boquiabertos e disseram...

- Passe, passe, adelante...

Saí correndo para ver se ainda conseguia pegar o avião. Já nem ouvia mais aquela fatídica voz:

- Passageiros com destino a Pamplona, última chamada.

Cheguei com a porta do avião quase fechando. Quarenta minutos de vôo e já podia ver os lugares por onde estaria andando. Estava animado. Fui o primeiro a desembarcar e a chegar na sala de bagagem. Estava preocupado com o cajado. Pelo seu formato, tinha medo que quebrasse ou que sumisse no compartimento de bagagem do avião. Mas ele foi a primeira coisa que despontou na esteira. Ufa! Só faltava pegar a mochila. As pessoas foram pegando suas coisas e saindo. De repente notei que estava sozinho na sala e a esteira estava rodando vazia, já tinha dado mais de dez voltas e nem tinha percebido. Minha mochila não tinha vindo! Já eram 14:30 e eu tinha programado tomar logo um táxi para Roncesvalles, a tempo de pegar o meu primeiro selo na credencial, deixar a mochila no albergue, e assistir a missa do peregrino às 18:00. O que eu tinha a aprender com isso? A entrega... novamente.

Tinha que aprender que nem tudo o que programei iria acontecer da maneira que eu esperava. Enfim, estava ali no aeroporto esperando o próximo avião e torcendo para que minha mochila estivesse nele. O aeroporto é pequeno, mas limpo e confortável. Só então me dei conta de que esta parada forçada foi boa. Eu que estava a mil por hora agora tinha relaxado um pouco. Já tinha feito contato com o Patxí, motorista de táxi, que se prontificou a me levar a Roncesvalles. O contato com ele e o sorriso da mulher que estava tentando descobrir minha mochila foram as melhores boas-vindas. O Caminho de Santiago não é um trecho a ser percorrido, é um caminho interior. E ele já estava em movimento, me fez parar, desacelerar e refletir.

Em vez de reclamar e ficar pensando no que poderia acontecer se a mochila sumisse, preferi esperar. Afinal, o que mais poderia fazer? Sabia, entretanto, que isso não iria impedir-me de prosseguir.

Finalmente, a atendente, Leónor Gailues, me informou que a mochila chegaria às 18:00. Patxi estava lá e me levou até Roncesvalles. Por incrível que pareça, fui o quarto peregrino a chegar à Colegiata. Quinze minutos depois chegaram mais de vinte. O cura Javier me levou, a mim e aos outros peregrinos, ao refúgio. Meu quarto ficava no terceiro andar, onde havia seis beliches, uma sala de espera e uma de jantar, que na Espanha chamam de comedor, e um banheiro com dois chuveiros e dois vasos sanitários. Tudo espartano, mas limpo.

Às 20:00 foi rezada a missa do peregrino, uma cerimônia emocionante. Senti como se a benção tivesse sido especialmente para mim. Rezei por Marília, Mariana, Manuela e Patrícia. Pedi à Deus que me desse força nos pés, nas pernas, nas costas e no espírito. Precisava, e queria, terminar o Caminho.

Conheci diversos peregrinos, entre eles um casal espanhol, José Luiz e Luiza, com 75 e 72 anos, respectivamente, fazendo o Caminho pela sétima vez consecutiva; o Julian, que mora perto de Larrasoana; O Raul, um argentino artesão de bijuterias, que pretendia vendê-las pelo Caminho para custear a viagem; José, de Burgos; um casal holandês; Lupe e Txupe, mãe e filha bascas, e muitos outros.

Fui dormir às 22:00. Acordei umas cinco vezes durante a noite. A excitação não me permitia relaxar.