
Como em todas as manhãs desta primavera, a temperatura é baixa quando saio do albergue. O objetivo hoje é alcançar Rabanal del Camino, localizada a mais de 35 quilômetros de Hospital de Órbigo; aquela proposta de pernoitar em Astorga foi, é claro, eliminada pela estadia em Hospital.
Por que tentar direto Rabanal? Talvez para compensar a parada festiva em Hospital e ter caminhado tão pouco em um só dia. Talvez para chegar mais rapidamente à cidade imediatamente anterior a dois pontos muito conhecidos no Caminho de Santiago: as ruínas de Foncebadón e a Cruz de Ferro. Seja como for, o importante é que eu farei o possível. Apenas o possível.
A partir de Astorga, terminam as planícies que têm predominado na paisagem dos últimos duzentos ou mais quilômetros e começam as primeiras subidas em direção às elevações do Cantábrico. Essa cadeia de montanhas vem bordejando o litoral norte da Espanha e faz uma curva para o sul à altura da divisa com a província da Galícia, "fechando" a passagem aos peregrinos que insistem no rumo leste-oeste.
Campos floridos, estradinhas cascalhadas, céu azul e limpo. Chego a um vilarejo onde encontro um grande grupo tomando café, inclusive vários dos gaúchos que conheci ontem; saímos juntos e continuo a caminhar com eles.
Há alguns peregrinos na minha frente e outros mais atrás; volto àquela reflexão de que formamos uma enorme fila indiana que se estende de Roncesvalles a Santiago de Compostela. É apenas uma questão de se observar da altura certa, e mesmo o peregrino que se julga solitário na jornada faz parte do carreirão de formiguinhas nesse infindável caminhar leste-oeste.
Passamos por Astorga quase sem parar, pois todos querem chegar a Rabanal. Os gaúchos (Carol, Márcio, Cynthia, Mário, Hedy e Solange) e o Reinaldo andam rápido, e preciso forçar um pouco para acompanhá-los. Desta vez, porém, não sinto qualquer cansaço, dor, ou outro incômodo físico.
O andadero de peregrinos, em direção a Rabanal, é confortável à marcha, e quase não percebo que nosso caminho está, aos poucos, começando a subir, lenta e constantemente; o regime de ascensão é sutil, de modo que não sinto sinais de cansaço, dores ou qualquer desconforto. Chegamos a Rabanal del Camino antes das cinco da tarde, ainda com um sol talvez suficiente para secar as roupas que serão lavadas: nada mal como desempenho, considerando-se a distância e o ritmo tranqüilo que seguimos durante o trajeto.
Há dois albergues em Rabanal, e nós optamos pelo Refúgio Gaucelmo, cuidado por voluntários da Confraria de Santiago (ou Saint James, uma vez que a sociedade é inglesa).
Demos sorte: o refúgio é fantástico, o acolhimento é cálido e respeitoso. Um casal de hospitaleiros ingleses faz as honras da casa, explicam a cada um as normas de convivência e nos encaminham ao dormitório. Banho quente, perfeito. Tudo arrumado, vou passear na cidade. Como o refúgio tem uma bela e bem-aparelhada cozinha, resolvemos fazer um jantar.
Encontro mais brasileiros, inclusive alguns daqueles com quem caminhei após o "descaminho" de Carrión de los Condes.
Desço até a praça da cidade e dou de cara com um espetáculo encantador: homens e mulheres, todos na faixa dos sessenta ou mais anos, fazem a dança maragata, espécie de quadrilha acompanhada de acordeão, caixas e castanholas. Não é a primeira vez, durante essa caminhada, que o calendário de festas e tradições espanholas me faz um presente; esses homens e mulheres cantam e dançam com alegria, divertem-se e riem bastante; a luminosidade de todo o conjunto que está em frente aos meus olhos alegra o ambiente e vai se incorporando suavemente ao espírito deste peregrino.
Procuro uma tienda, onde compro coisas para o jantar e lanches. À noite, fui para a cozinha e rolou um prato de macarrão, com molho de tudo que pude achar no mercadinho, e mais o tomilho foi que colhido antes de Villar de Mazarife. Ficou bom, ainda mais acompanhado de muita conversa sobre o dia que nos espera amanhã - Foncebadón e a Cruz de Ferro - e do vinho do Bierzo, um dos melhores da Espanha.
A cozinha parecia um mercado persa, vários grupos preparando seus jantares e ocupando sucessivamente as mesas. O Clermont está fazendo um panelão de cozido de legumes; dois alemães assam salsichas; uns franceses preparam um rango que mistura feijão e omelete com presunto, e por aí vai. No final, a cozinha acabou se transformando num ambiente de conversas altas e cantoria, até que chegou a sagrada hora do silêncio.
No dormitório, espaçoso e muito bem-arrumado, com lençóis e cobertores nas camas, ainda pude ver e ouvir - ao lado do meu beliche - o grupo dos franceses divertindo-se com um concurso de arrotos e outros sinais evidentes de uma re-adolescência aguda. Enfim, ao contrário do nome do primeiro filme dos Beatles, foi a noite de um dia divertido.
Como venho fazendo todos os dias, aproveito o quase silêncio do dormitório para refletir sobre o dia de hoje, e pensar no que me espera amanhã.
O primeiro livro que li sobre o Caminho de Santiago foi - como deve ter sido para muitos dos que estão aqui - o Diário de um Mago. Dos relatos fantásticos de Paulo Coelho, foi a luta com o cachorro Legião o que mais me impressionou, pela dramaticidade da narrativa. Li esse livro há quase dez anos, mas ainda tenho na memória as informações básicas do trecho que se refere a esse lugar: Foncebadón é uma vila em ruínas, e diz a tradição (e o medo dos peregrinos) que há cães ferozes por lá. Mesmo no livro do Máqui, que li um pouco antes de vir para cá, é possível sentir sua expectativa e ansiedade antes da passagem pela aldeia abandonada.
Desde o início do caminho, em Saint Jean, estamos recebendo sempre informações tranqüilizadoras sobre a ausência desse tipo de risco à nossa integridade física; de fato, como já escrevi antes, a maioria dos cães de guarda vive presa no interior das casas, e os viralatas soltos têm sempre mostrado, à minha passagem, mais curiosidade do que agressividade.
No caso da luta com o cachorro Legião, pelo que compreendi no livro de Coelho, houve a simbolização da disputa de poder entre o autor daquele livro e o que - pare ele - era a representação das forças demoníacas. Entendo que aquilo é a descrição de uma luta pessoal, por motivos pessoais, e que cada um de nós enfrenta seus demônios conforme sua realidade interior. As formas que representam o poder da Matéria apresentam-se a nós e apelam para que renunciemos à busca do espiritual superior e assumamos nossa forma orgânica e o mundo físico como únicas realidades. Demônios que convidam o Homem a viver apenas para o mundo terreno - Maya - existem em todas as formas de mitos e religiões. Lembro-me do relato evangélico sobre as tentações a que Cristo foi submetido, no deserto, e do mito do Paraíso, onde Adão e Eva cederam aos convites tentadores da serpente para que adquirissem a capacidade humana do juízo. Conforme todas essas histórias e mitos, o demônio - ou seja, aquilo que, em nós, nos quer apenas seres materiais - toma todas as formas possíveis para tentar convencer o homem que sua verdadeira natureza é o barro, e que é no plano da matéria que ele deve buscar sua realização. A beleza dramática e inigualável da disputa de Fausto com seu Príncipe das Trevas, ou o acordo feito por Dorian Gray para permanecer sempre jovem, bonito e poderoso, são alguns exemplos de batalhas que ocorrem entre nossa natureza humana e a nossa vocação para o sublime, para a busca do Absoluto.
Agora que o concurso de arrotos terminou, e que um dos franceses veio de cama em cama simulando beijinhos de boa noite para todos, repasso na memória as cenas finais do romance A última tentação de Cristo, que li em 1974: mesmo na agonia da cruz, o demônio - apresentando-se na forma de uma criança angelical - ainda tentou oferecer ao Cristo a opção por uma vida familiar, serena e cheia de encantos.
Mostrou-lhe como poderia ser bom e agradável assumir seu papel humano, ter uma mulher e filhos, resistindo do sacrifício cósmico pelo qual sublimaria o peso da matéria humana na criação do Homem. Poucas vezes um livro tocou-me tão fundo. Essa obra de Nikos Kazantzaki tem me ajudado a viver, e a compreender melhor, muitos momentos inicialmente confusos e obscuros de minha vida.
É assim que penso ser a relação com o demônio: não uma luta de vida e morte, onde um será vitorioso e o outro projetado em abismos eternos, mas uma convivência a ser estabelecida com atenção e cuidado contínuos. Em Foncebadón ou Caraguatatuba sempre haverá momentos em que minha porção carnal tentará se mostrar como meu verdadeiro Eu, no qual existiria uma "idéia" mental de Deus e do Absoluto. Com a mesma disposição que tive quando arrancava minha bota do barro de Zubiri, no início do caminho, estarei atento para a certeza de que meu Eu - parte do espírito divino - é que está se capacidade humana do juízo. Conforme todas essas histórias e mitos, o demônio - ou seja, aquilo que, em nós, nos quer apenas seres materiais - toma todas as formas possíveis para tentar convencer o homem que sua verdadeira natureza é o barro, e que é no plano da matéria que ele deve buscar sua realização. A beleza dramática e inigualável da disputa de Fausto com seu Príncipe das Trevas, ou o acordo feito por Dorian Gray para permanecer sempre jovem, bonito e poderoso, são alguns exemplos de batalhas que ocorrem entre nossa natureza humana e a nossa vocação para o sublime, para a busca do Absoluto.
Agora que o concurso de arrotos terminou, e que um dos franceses veio de cama em cama simulando beijinhos de boa noite para todos, repasso na memória as cenas finais do romance A última tentação de Cristo, que li em 1974: mesmo na agonia da cruz, o demônio - apresentando-se na forma de uma criança angelical - ainda tentou oferecer ao Cristo a opção por uma vida familiar, serena e cheia de encantos. Mostrou-lhe como poderia ser bom e agradável assumir seu papel humano, ter uma mulher e filhos, desistindo do sacrifício cósmico pelo qual sublimaria o peso da matéria humana na criação do Homem. Poucas vezes um livro tocou-me tão fundo. Essa obra de Nikos Kazantzaki tem me ajudado a viver, e a compreender melhor, muitos momentos inicialmente confusos e obscuros de minha vida. É assim que penso ser a relação com o demônio: não uma luta de vida e morte, onde um será vitorioso e o outro projetado em abismos eternos, mas uma convivência a ser estabelecida com atenção e cuidado contínuos. Em Foncebadón ou Caraguatatuba sempre haverá momentos em que minha porção carnal tentará se mostrar como meu verdadeiro Eu, no qual existiria uma "idéia" mental de Deus e do Absoluto. Com a mesma disposição que tive quando arrancava minha bota do barro de Zubiri, no início do caminho, estarei atento para a certeza de que meu Eu - parte do espírito divino - é que está se apresentando, neste momento e neste lugar, moldado em um recipiente de átomos de carbono, oxigênio e outros, concentrado em uma forma transitória, imperfeita e efêmera, muito efêmera.