Auro Lúcio
Moeda na caixinha de donativos e vou para o lado de fora me preparar para a continuação da marcha. Enquanto arrumo a mochila, converso com Tomás e o assunto - como teria que ser - era o ataque vândalo e roubo da Cruz de Ferro.
- Não é a primeira vez que a Cruz é atacada - esclarece o albergueiro -, em julho do ano passado eles serraram o mastro, mas deixaram a cruz tombada no local. Nós erguemos e fixamos a cruz. Agora eles fizeram o trabalho completo.
- Por que estariam fazendo isso, Tomás? - pergunto, curioso para conhecer a opinião daquele que praticamente mora naquele lugar há vários anos.
- São mudanças dos tempos - responde-me o espanhol, como se estivesse falando de um assunto já muito conhecido. O Caminho de Santiago é sempre o mesmo, mas a sociedade vai mudando ao redor dele. O caminho geográfico representa o caminho individual de cada homem, e nosso dever é garantir que ele continue disponível a quem queira percorrê-lo!
- Deve ser difícil manter a tradição, pois eu, que faço a caminhada pela primeira vez, venho encontrando vários exemplos de interesses econômicos e políticos interferindo e modificando as características do Caminho...
- E você nem imagina o que tentaram fazer no ano passado!
Tomás me contou das tentativas feitas para abertura de licitação e instalação de uma lanchonete ao lado da Cruz de Ferro.
- Nós não permitimos, e - é claro - não vamos permitir!
Antes que eu me fosse, Tomás ainda me mostrou cópias de jornais denunciando um falso peregrino que se infiltrava nos refúgios, equipado com todos os acessórios usuais da marcha, em busca de graças bem mais terrenas que as indulgências oferecidas pelas autoridades eclesiásticas.
- É preciso tomar cuidado!...
Um abraço, uma foto e deixo Tomás sorridente, a cruz vermelha destacando-se na bandeira que ornamenta a entrada do albergue, acenando-me um adeus.
- Bom caminho, e Deus te acompanhe, peregrino!
A trilha agora desce quase abruptamente. Ainda faz muito frio, talvez abaixo dos três graus. Outros peregrinos seguem à minha frente e vamos nós morro abaixo. Imagino o Tomás, lá de cima, vendo nosso grupo se afastando e preparando a cabana para a chegada de novos caminhantes, ansiosos pelo ambiente cálido e café com leite idem. É fantástica sua dedicação ao atendimento dos caminhantes: no inverno, a cabana fica quase coberta pela neve e só se mantém graças à ajuda da brigada do Exército alojada ali perto. É um hospitaleiro especial, não apenas acolhe e incentiva, mas protege o Caminho e os caminhantes, cumprindo a missão que aceitou para si.
O cavaleiro templário de hoje não precisa mais defender os peregrinos contra os mouros e salteadores da Idade Média: homens de terno e gravata, reunidos em salas climatizadas, ao redor de mesas executivas, formam um exército muito mais devastador ao espírito da peregrinação do que centenas de adagas muçulmanas. O arroubo de ativistas políticos pode apenas fazer alguns arranhões no meio físico do Caminho, mas o perigo real vem da própria estrutura do mundo atual, da desqualificação dos valores éticos e da priorização absoluta da riqueza e do poder em detrimento dos direitos básicos das pessoas à vida, à paz e à felicidade. Essas conversas, com Tomás e Ramón, lembram-me um trecho do Apocalipse de São João, algo sobre a decadência da sociedade, mas cujas palavras exatas não consigo lembrar. Vou procurar na minha Bíblia, à noite.
Do alto do morro começa a aparecer um conjunto de telhados de ardósia, de cor cinza-chumbo: é a cidade de El Acebo, a primeira da Província do Bierzo. Agora deveremos entrar em um vale fértil, famoso pela qualidade de seu vinho, e que termina de supetão, cortado pela súbita elevação das cadeias do Cantábrico. A beleza dessa região prepara o corpo e o espírito para a tradicional e temida subida do Cebreiro, um dos lugares mais significativos desta caminhada.
Uma quente e reconfortante sopa de alho, na Meson El Acebo, e sigo em frente. Em pouco tempo de caminhada, tenho um vale incrível à minha frente! A silhueta de Ponferrada destaca-se contra a imagem dos Montes do Cantábrico; a digestão da sopa convidou-me a uma siesta à sombra de uns enormes carvalhos: aceitei. Um pouco antes de Ponferrada, encontro todo o grupo dos amigos gaúchos e formamos um vultoso exército Brancaleone em direção ao castelo templário que dá fama àquela cidade. Branca, Branca, Branca! León, León, León! Só não soltamos esse magnífico grito de guerra com medo que os ativistas serradores-de-cruz-de-ferro, atraídos pelo final do brado, nos seguissem para demolir o castelo ou sabe-se lá mais o quê. Esses caras não querem deixar pedra sobre pedra...
Guiados pelo Márcio, chegamos rapidamente ao refúgio. Como gentileza do albergueiro, em deferência ao número de pessoas de nosso grupo, recebemos um quarto exclusivo para nós, brasileiros. Um dos hospitaleiros me diz que eles estão acostumados com a presença de alemães, belgas, franceses, suíços e outros europeus nesse trajeto, mas não compreendem o que leva um brasileiro a voar dez mil quilômetros para caminhar oitocentos, aqui na Espanha. Pois é, nós também não...
À tardinha, o Rescala - mouro baiano - convida-me para irmos visitar o castelo dos Templários, enquanto esperamos abrir o restaurante para o jantar. E lá vamos nós, roupa de passeio, marcha lenta e tranqüila, subindo a rampa que leva à entrada da fantástica edificação. É uma visita que vale a pena, mesmo se você, peregrino, não estiver interessado nas histórias e no papel dos templários na formação do Caminho de Santiago. A construção é imponente, e é muito interessante apreciar as técnicas de construção usadas na Idade Média. Olhando a cidade, através das seteiras das torres do castelo, é fácil perceber o quão estratégica é sua posição: de cima podemos ver - e alcançar com flechas e lanças - a entrada da cidade e o curso do rio Boeza. Seria difícil a passagem de viajantes à revelia dos fiéis escudeiros templários, que tomavam como missão de vida a proteção dos peregrinos e do próprio Caminho.
É esse o espírito da cavalaria provençal a que me referi em Hospital de Órbigo: é a luta por um ideal sublime, pela defesa do que - para eles - era o direito de se chegar à cidade sagrada do Ocidente (uma vez que os caminhos a Roma e Jerusalém eram ainda mais complicados e perigosos). Essa profissão de fé teria que ser sustentada por uma estrutura física e econômica consistente, e assim foi com os templários: seu poder militar e econômico cresceu muito, assustando nobres franceses e espanhóis, colocando incômodas pulgas atrás da orelha dos representantes da Igreja Católica.
Não que esses cavaleiros fossem exatamente anticlericais (está bem, eles o eram...), mas sua concepção espiritual não seguia à risca todos os dogmas da Igreja Romana, e seus rituais e objetivos espirituais não coadunavam com a tradição eclesiástica da época. Somando-se a preocupação dos bispos com o surgimento de novas "heresias" (como a dos Cátaros, que tinham ocupado grande parte do sudoeste da França, nos séculos XI e XII) ao medo que o poder militar dos cavaleiros causou nos nobres espanhóis e franceses, a Igreja colocou a Ordem fora-da-lei. Após excomunhões, perseguições, torturas e confisco de bens, a Ordem dos Templários deixou de existir, e seus membros pulverizaram-se em outras formas de organização, espalhados pelo mundo medieval, moderno e contemporâneo.
No castelo, ao cair da tarde, ficamos curtindo a cidade e conversando sobre civilizações clássicas, religiões, história de povos, e por aí afora. Depois da visita, Rescala e eu fomos a um bom restaurante, onde degustei - prima volta! - um prato típico da região, o pulpo à gallega. Um cozido de polpudos pedaços de polvo, temperado com páprica picante - e põe picante nisso (e chega de pês!).
Antes de dormir, abro a minha pequena Bíblia e procuro a passagem do Apocalipse que me veio à mente quando Ramón me falou sobre as "mudanças", e Tomás e eu conversamos sobre os problemas atualmente trazidos pelo crescimento desmedido do poder econômico. É esse aqui: E sobre ela (Babilônia) choram e lamentam os mercadores da terra; porque ninguém mais compra as suas mercadorias; mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpuras, e de seda, e de escarlate; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore, e (...) cavalos e carros, e corpos e almas de homens (...) Os mercadores destas coisas, que com elas se enriqueceram, estarão longe, pelo temor do teu tormento, chorando e lamentando...
Meus colegas de caminhada conversam e riem alto, em nosso quarto exclusivo, e isso afasta as imagens nostradâmicas da minha cabeça: agora o Márcio põe o colchão no chão e o arrasta para perto da porta, porque o estrado da sua cama é mole demais; quando o barulho diminui, leio para os companheiros de quarto um trecho da "Investidura do Peregrino", para embalar o sono dos ouvintes compulsórios. Fez efeito até em mim: aos poucos entro num sono leve, incrementado pela ação do antigripal que me obriguei a tomar: prefiro uma pequena ajuda farmacológica descongestionante a acordar de madrugada com nariz tapado e boca seca.
Bom, não adiantaram as precauções para garantir a continuidade do sono que se iniciava tranqüilo: todos acordamos de madrugada, por causa do grito do Márcio. O Carol levantou-se para ir ao banheiro e, como não sabia que o nosso companheiro tinha se deitado em frente à porta, pisou com tudo no pescoço do guia. Foi um grito seco e curto, porém suficiente para mais meia hora de risadas abafadas e conversas na madrugada. Ao final, o cansaço arrastou todos os bravos caminhantes para o que se costuma chamar de braços de Morfeu. Por via das dúvidas, tapones nos ouvidos.