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CAPÍTULO I - Para a frente e para cima! - Segunda Parte

Auro Lúcio

A noite foi fria e eu acordo encorujado dentro do saco de dormir. Com a prática desenvolvida nos últimos dias, arrumar a mochila e cuidar da higiene matinal é coisa de alguns minutos. Em pouco tempo estou no refeitório para um rápido café da manhã.

Eu disse rápido café? O que encontro não é bem isso: as mesas estão arrumadas com toalhas limpas, pratinhos, taças e talheres elegantemente dispostos individualmente na frente de cada cadeira. Bules de café, leite e chá à disposição, manteiga, geléias e pães recém-saídos do forno! O que está acontecendo aqui é uma demonstração da hospitalidade dos ingleses para conosco: todos os dias eles oferecem esse supercafé, com o mesmo carinho que venho encontrando por parte de quase todos os hospitaleiros voluntários do caminho.

Sem regatear, tomei um café com leite quentinho, pão com manteiga e geléia; ao final, levanto-me e vou levando a xícara para lavar. A hospitaleira pede que eu deixe tudo na mesa.

- Por favor, deixe-me ao menos lavar o que usei! - Insisto, meio sem graça.

- Nada disso, vocês já têm muito o que fazer por hoje. Deixe tudo aí e que Deus o acompanhe!

Agradeci e fui à recepção esperar alguns companheiros. Conversei um pouco com a hospitaleira inglesa que servira o café, e ela me dá uma notícia que anuncia como desagradável:

- Não sei se você sabe, mas há uns dois dias algumas pessoas vandalizaram a Cruz de Ferro!...

Temendo não ter compreendido bem a frase (estávamos falando em inglês), pedi que repetisse a informação. Era aquilo mesmo.

- Alguns vândalos cortaram o mastro de madeira e levaram a Cruz de Ferro! Creio que estão trabalhando lá, agora, para colocar uma nova. Espero que vocês não fiquem muito frustrados quando chegarem lá em cima.

Como eu estava com o livro de Peregrinos aberto, deixei escrita uma opinião pessoal, endereçada aos amigos brasileiros (e a quem entendesse o português), sobre aquilo que acabara de ouvir; fechei o eficiente "Correio Peregrino" e fui para a frente do refúgio preparar o início da caminhada.

Ainda está meio escuro, o tempo é frio e há muita neblina. Faço os alongamentos matinais e, usando luvas, calça comprida e gorro de lã, inicio a subida em direção a Ponferrada, com passagem por Foncebadón, Manjarin e Molinaseca. Um longo trecho por campo aberto e chego a uma estreita estrada asfaltada que, sempre em regime de subida, vai penetrando na neblina. O frio aumenta bastante no nevoeiro, a temperatura agora é de cinco graus e o sol não consegue atravessar a nuvem de umidade. Depois de quase duas horas de caminhada, uma placa anuncia Foncebadón, a velha vila abandonada. Ainda pelo asfalto, vou subindo e já posso ver as primeiras casas da vila impondo-se no alto da elevação.

O visual é mesmo impressionante: são casas de pedra, todas em ruínas, e o ar de desolação é aumentado pela névoa que envolve todo o lugarejo. Na entrada, uma placa conta um pouco 9 O Caminho das pedras da história do lugar, complementando o que se lê em quase todos os guias do caminho. Foncebadón já ocupou papel de destaque como centro de acolhimento de peregrinos, desde o estabelecimento do primeiro hospital de atendimento há alguns séculos. A vila foi se desenvolvendo, principalmente graças aos incentivos e benefícios oferecidos pelos reis de Espanha, como forma de incentivar a proteção aos que peregrinavam a Santiago.

Passeio pelas ruínas, entro nas casas abandonadas, faço uma foto junto ao cruzeiro na Calle Real e, sem qualquer momento de surpresa, tensão ou mistério, fico apenas com a emoção de conhecer os monumentos abandonados do que foi outrora uma grande cidade dentro da tradição jacobéia. A magia do ambiente é quebrada pela presença dos postes e fios elétricos que acompanham a rua principal, informando que os dias de cidade-fantasma de Foncebadón estão contados. Já posso ver, do lado direito, duas casas em reformas, sendo que uma delas já ostenta o signo máximo dos nossos tempos: uma miniantena parabólica fixada nas pedras seculares da parede.

Mesmo assim, Foncebadón é um lugar que emana um tipo de magia especial. Quase ao sair, olho para trás e vejo o sol começando a surgir atrás das ruínas da velha igreja; essa igreja também está sendo reformada, mas o sol, ao aparecer por trás de suas paredes, desenha aos meus olhos o sombreado secular de seu formato; é impossível não voltar às considerações que eu fazia ontem à noite, sobre as dificuldades que temos em viver nossa dualidade corpo/alma, e o nascer do sol em Foncebadón ilustra o que penso sobre a sempre repetida luta que travamos com nossos demônios: após cada disputa ressurgimos, plenos de luz, como esse sol atrás da igreja; nossa natureza humana - após o mergulho na noite dessas batalhas contra dragões e feras ameaçadoras - emerge cada vez mais próxima do grande objetivo: alcançar o inefável a partir de nossa estrutura humana, primitiva e propensa a cair em tentações.

Afasto-me das últimas ruínas do povoado deserto, iniciando uma pronunciada subida em direção à neblina. Ao longe, a imagem da vila parece ainda mais ser pedaço de algum sonho passado, e ter caminhado por ela, vivenciando tudo o que me foi permitido, foi - e está sendo - uma experiência espiritual poderosa. Lembro-me de todos os mitos de ressurreição: Jonas no ventre da baleia, Dante descendo aos infernos, o próprio Cristo vagando por três dias nos campos da Morte. Todas as civilizações possuem narrativas que, em última instância, representam o ciclo do herói: o abandono da segurança em busca de aventuras que sempre colocam em risco sua existência.

Cada um de nós é um Teseu entrando no labirinto do Minotauro que, apesar de parcialmente Humano, ainda conserva a cabeça do Animal primitivo. Nós podemos tentar adiar o confronto com nossos medos e com as forças que nos causam inquietação, mas isso apenas fará com que o Monstro continue a andar do nosso lado, esperando a hora do confronto. Felizmente, o mesmo Deus, que nos coloca frente a frente com esses perigos e desafios, oferece-nos os instrumentos para que os vençamos: basta pedir e buscar em nossa própria alma, pois lá está a representação completa Daquele de Que fazemos parte.

A neblina vai se esvaindo à medida que o tempo passa, encontro alguns conhecidos a caminho da Cruz de Ferro, continuo imerso em minhas reflexões.

- O que é a Cruz de Ferro? Por que os peregrinos teriam criado essa pequena montanha de seixos?

Num flash- back momentâneo vi a gaveta da minha escrivaninha, em Águas de Lindóia, onde esqueci a pedrinha que tinha planejado trazer para deixar aqui neste local. Era um pequeno cristal, coletado pelo primo Zezito no sítio da minha tia Maria, na cidade onde nasci. Nos preparativos para a viagem, a pedrinha foi o único objeto que esqueci de trazer.

Depois de uma hora de ascensão pesada, vejo ao longe e acima a montanha de pedras imortalizada nas fotos de todos os livros sobre a Compostela. Destacando-se no alto de uma elevação, lá está o resultado do acúmulo das preces e desejos de cada peregrino que, nos últimos séculos, tem passado por aqui. Como eu já esperava - graças à informação da hospedeira de Rabanal -, o ápice do monte não exibia o coroamento que o imortalizou: o poste com a cruz de ferro no alto. Aliás, nem havia ápice, pois um trator - indecentemente estacionado ao lado do monte de pedras - havia escavado o centro do sistema e aberto um buracão bem onde fora serrado o poste original.

Subindo nas pedras, vejo uma estrutura de concreto recém-montada, onde será fixada a nova base da cruz. O núcleo da área de obras está isolado por aquelas fitas plásticas amarelas que aparecem nos filmes policiais americanos.

- Oi!...

Olho para trás e lá está a Márcia, que deve ter chegado um pouco antes de mim. Sentada e desconsolada, ela olha para o espaço vazio do que seria o esperado monumento. A pequena capela, um pouco acima do desarrumado monte de pedras, também foi "atacada" pelos vândalos: está toda suja e grafitada:"León solo! Autonomía para León!!!" Será que a luta pela "independência e autonomia" das províncias justifica esses atos de posicionamento político, atos que vão desde o ataque a patrimônios culturais - como este vandalismo estúpido - a manobras mais violentas e radicais - como seqüestros, explosões em lugares públicos e mortes?"

Nasci e vivo em um país que, embora geograficamente imenso e com diferenças culturais enormes, ainda se reconhece como um todo; da Festa do Círio de Nazaré aos churrascos das querências gaúchas, os brasileiros conseguimos criar uma identidade única no mundo, na qual nossa diversidade étnica e cultural mesclou-se de tal forma que constituímos uma nação ímpar e voltada a uma nova forma de ser.

Essa luta separatista me parece - assumindo claramente que não conheço a realidade das pessoas que a praticam - equivocada em seu mérito. Mesmo que se considere que a Espanha é um conglomerado de pequenas regiões que diferem entre si étnica e culturalmente, e que há séculos a união entre esses povos tem sido obtida - quase sempre - pelo uso de força política e militar, essas tentativas de criação de países minúsculos caminham em sentido contrário à evolução cósmica. Uma coisa, válida e meritória, é manter a luta pela autonomia cultural de um povo e sua região, exigir que se respeitem os costumes, línguas e tradições regionais; outra coisa é canalizar energia para processos que, do ponto de vista deste peregrino, baixam os pratos da balança para o lado do não.

Quanto à luta pelos direitos da pessoa, acesso igualitário ao trabalho e aos bens e produtos da sociedade, a mim parece que isso é tarefa para cidadãos de qualquer país - independente do nome que possa figurar na carta política da região. Em qualquer língua ou cultura, o acúmulo da riqueza nas mãos de uma minoria sempre foi - e é cada vez mais - agressão maior à porção humana daquilo que somos neste planeta. Se tenho algumas dúvidas sobre a legitimidade do mérito dessas batalhas pela autonomia, posso afirmar que estou sendo atingido diretamente pelo método empregado desta vez:

- Cadê minha Cruz de Ferro?! Bem na minha vez!...