Auro Lúcio
O que eu esperava encontrar aqui? Qual a representação deste local na minha expectativa de caminhante? Se fosse deixar aqui a pedra coletada em São Pedro do Turvo, isso já estaria frustrado: esqueci a dita cuja no Brasil. Uma pedra do lugar onde nasci... Olhando para o monte de pedras, todo desarrumado, vejo aquele mesmo gato da Alice, sorridente, que olha para mim e diz:
- Então pega uma!
Pegar onde? É claro, aqui! Em qualquer lugar! Aparecem duas imagens muito nítidas em minha mente, refletindo situações opostas: de um lado, uma série de atitudes violentas para que sejam reforçados limites geopolíticos entre países: o bombardeio em Kosovo, movimentos separatistas radicais, massacres étnicos e nações poderosas submetendo economicamente as mais fracas, escravizando seus povos; do outro lado, o primeiro astronauta russo olhando pela primeira vez a Terra, a partir do espaço e, iluminado pela luz de esferas superiores, vê o nosso planeta como um todo e diz:
- A Terra é azul!
Não viu países, povos, mares ou continentes; não descreveu diferenças entre brancos, pretos, amarelos; nem mesmo percebeu a existência de blocos de capitalistas e comunistas - que, na época, representavam o mais importante confronto político do mundo. Só viu uma coisa:
- A Terra é azul!
E é dessa Terra que eu recolho uma pedra, na base do monte que está à minha frente. Retenho o mineral, quase esférico e um pouco menor que a minha mão, durante alguns segundos e, agradecendo a tudo que estava ocorrendo, aos companheiros de caminhada e até aos ativistas do "León solo", deposito carinhosamente a pedra no mesmo local de onde a tinha levantado. Pronto! O débito para com o Monte de Pedras está cumprido.
- E a Cruz de Ferro? Qual é o papel dela aqui?
Esse é o ponto mais elevado do Caminho de Santiago, segundo o relato do guia; para ser mais preciso, consta que a antena de telecomunicações, localizada logo ali à frente, é apenas um pouco mais alta que este lugar. Olhando o perfil de todo o trajeto, de Saint Jean a Santiago, é nesta montanha que a Via Láctea - o caminho dos peregrinos refletido no céu, ou vice-versa - está mais próxima da Terra. Neste lugar, há centenas de anos, a Cruz de Ferro vem sendo o pára-raios que absorve a energia das estrelas e a conecta com o planeta. Através do metal no qual foi moldada, a cruz integra o Caminho das Pedras ao Caminho das Estrelas. O que está embaixo une-se ao de cima, pois ambos são manifestação da Coisa Única, como diz a Tábua de Esmeralda, onde Hermes Trimegisto gravou - em linguagem obviamente hermética - os passos e a descrição dos processos mágicos que explicam o Universo.
A simbologia da cruz (o vertical em direção ao alto e o horizontal ao nível da terra) apresenta-se como o veículo físico - moldado em ferro - para esse casamento alquímico. As etapas físicas pelas quais passamos até agora (o barro, a água, o vento, o frio e outros) são agora amalgamadas pela energia ígnea das esferas mais altas, que a nós vem trazida pela antena desenhada no símbolo da Paixão do Cristo.
Hoje, excepcionalmente, alguém retirou a cruz. O monte de pedras, ali edificado pelos peregrinos e que atua como elemento terra na absorção da energia dos astros, está descomposto. Somos nós, corpo físico de caminhantes que, do alto desta montanha, elevamos os braços para os céus, e oferecemos a via de descida para que a ligação entre as esferas terrenas e celestes seja mantida.
A Márcia me chama de volta à realidade:
- Faça uma foto minha aqui no lugar da Cruz de Ferro!
Desce até o local onde estava a base da cruz e abre os braços. Em cruz. Click!
Amanhã ou depois haverá uma nova Cruz de Ferro e certamente as pedras voltarão a formar um cone (ou pirâmide?) ao redor do novo mastro, e o símbolo maior do cristianismo estará novamente no ápice do Caminho de Santiago. Outros peregrinos depositarão, com suas pedras, seus pedidos, ofertas e expectativas relativas a esta viagem, além de sonhos pessoais tão ou mais complicados do que este que estou vivendo agora.
A Cruz de Ferro dos peregrinos não foi e nem poderia ser seqüestrada daqui, pois não se pode tomar o símbolo pelo objeto que o representa; a verdadeira cruz, a antena que liga o humano ao divino, está plantada em cada ser humano, imediatamente antes do ponto onde, no corpo da alma de umapessoa se produz a palavra Eu. E o divino - ainda que simbolizado pela estrelas acima de nós - está verdadeiramente no interior de cada um.
E deixando mais um pouquinho do meu Eu junto daquelas pedras, passo um pouco abaixo da tal antena de comunicações, onde uma casinhola das Forças Armadas faz manutenção e evita qualquer vandalismo por arroubos separatistas. Mexer na antena simbólica do Caminho tudo bem, mas atrapalhar comunicações entre militares, empresas e consumidores, aí também é demais, não é verdade?...
Continuo subindo e confirmando que continuamos em fila, com alguns companheiros atrás de mim e outros mais à frente. Em cada lado da trilha, arbustos floridos em violeta esfregam-se com força contra as coxas e pernas dos caminhantes. Felizmente, apesar do frio imenso, não há umidade na folhas e minha roupa não fica encharcada por esse "lava-rápido" natural.
Um pouco mais de sobe-e-desce e estou em um lugar que eu já conhecia por fotografias: o refúgio de Manjarin. É inconfundível - e imperdível: logo na chegada estão bem visíveis as placas de madeira onde, em letras coloridas, estão nomes de centros mundiais de peregrinação e suas respectivas distâncias, em quilômetros, a partir daqui.
- Machu Picchu, 9435... Jerusalém, 5000... Roma, 7475... e SANTIAGO, 222 quilômetros! Santiago, olha aí eu chegando!
Passando por um bando de gansos, fiéis guardiães do local, chego à choupana onde Tomás - por pura convicção pessoal - recebe e aloja os que querem pernoitar aqui. Entro, com os que chegaram comigo, para tomar um café e carimbar a credencial; alguns peregrinos, que dormiram aqui, ainda estão se arrumando para levantar acampamento. Um toca-fitas (funcionando a pilha, pois não há eletricidade) enche o ambiente de música barroca, aumentando a sensação de que estou de volta aos meus tempos de "hipongo", nas viagens para Trindade e afins: vários colchões e mantas espalhados pelo cômodo rústico, objetos diversos pendurados nas paredes, símbolos, artesanato. A lareira acesa ameniza o frio, e tomo um bom copo de café com leite quentinho e disponível sobre o fogão.
Apresento a credencial ao Ramón, hospitaleiro voluntário que faz companhia ao Tomás.
- Você viu o que fizeram à Cruz de Ferro? - perguntou-me enquanto abria meu documento.
- Sim, e eu fiquei frustrado quando passei por lá. Afinal, aquilo pertence um pouco a todos nós!
Ramón interrompeu o gesto de carimbar a credencial, ficou um tempo parado e olhando para um ponto à sua frente. Depois voltou os olhos para mim e disse:
- Os que fizeram aquilo cumprem ordens do demônio! Mas nós vamos continuar a fazer nosso papel, garantindo que a peregrinação não seja prejudicada; vocês, peregrinos, têm um papel muito importante: levar, para o mundo novo que vai surgir, os valores elevados que Deus colocou em nós; é por isso que vocês todos, mesmo sem se dar conta, estão fazendo essa caminhada até Santiago! E - pof! - carimbou a credencial. Apenas consegui ruminar algo como "... sim, claro, de acordo...", e saí, impressionado com sua segurança e com o clima que - pelo que pude entender e sentir - estava presente em suas palavras.