Livro Completo

Carta Aberta ao Caminho

Arraial D'Ajuda, 1º de janeiro de 2000

Meu querido Caminho de Santiago

Te amo.

Hoje entendo que somente assim posso escrever-te.

Hoje te escrevo como amante e como mulher, exatamente da mesma forma que percorri tuas árduas e belas trilhas cheias de poeira, lama, sol e chuva.

Você para mim é o Caminho de Santiago, porém é também o Caminho da Vida. Você é vida em seu estado puro e destilado. Você é dor, é paixão, e é muito mais como somente um grande amor pode ser. Te amo tanto! Com tua permissão, com tua generosidade, penetrei teus bosques, teus vales, teus campos, teus longos caminhos. E fui sentindo como pouco a pouco, com sensibilidade e arte você penetrou minas veias, meus ossos, meu sangue, as cavernas mágicas do meu ser. Hoje somos amantes e nosso amor é eterno, como todo verdadeiro amor.

Meu querido, andar por você foi fonte de emoção constante, e teria que recorrer a um dicionário para procurar as palavras que descrevessem esta emoção; e as palavras não bastariam. Teria que decorticá-las, conhecer suas raízes, voltar às origens e ainda assim não conseguiria. Hoje posso somente explicar um pouquinho do imenso que você provocou em mim. Com ardor e com espanto, com humildade e com loucura, por você eu; e, no entanto, sem voz e em silêncio te ofereço todo meu riso e todo o meu pranto e toda a força de um amor que Você me ajudou a descobrir em mim.

Da mesma forma que quando nos apaixonamos por alguém, nos lembramos que o mundo é mágico e, em nossa infinita preguiça de seres humanos, logo depois nos esquecemos. Da mesma forma, apaixonar-me por você, lembrou-me, ensinou-me, cravou em minha carne e assinou em minha alma aquilo que não quero nunca mais esquecer. Que o mundo, que a vida, que cada encontro, cada sensação, cada flor e cada pedra são divinos, são mágicos, são pura arte de existir.

Você me fez entender que a relação de amor com a Existência é a relação por excelência. É a única cuja reciprocidade é absolutamente incontestável e permanente. Amo a Vida e Ela me ama, é assim, é tão puro e tão óbvio e no entanto difícil de entender, como todas as coisas simples. Do amor nasce amor. O amor é o inesperado, o Desconhecido, a Beleza do fluxo incessante do viver que traz todo tipo de sensações e experiências e que assim nos faz vibrar, nos faz crescer.

Quanto mais nos abrimos à vida, quanto mais entendemos que se pode aprender tanto do prazer quanto da dor, mais Ela se abre a nós. E assim nos tornamos viajantes na eterna viagem que o existir. E assim nos tornamos peregrinos.

Um espanhol, chamado Eduardo Chamorro, escreveu:

"O peregrino é um ser sem domicílio, um espírito errante em busca do espírito maior a cuja manifestação abraçar-se onde quer que dê com ela, em um espaço que será sagrado precisamente por isso".

Ser peregrino é entender que nossa casa, a única coisa que realmente temos é a vida. Todo o resto vem e vai, porém a vida é um mistério permanente, o caminho escuro e luminoso que temos a sorte de percorrer. Ser peregrino é amar o caminho da vida mais do que qualquer outra coisa. Viver é caminhar e descobrir.

E assim, meu querido Caminho, hoje te escrevo pois sou tua peregrina. Graças a Você pude percorrer os 800 quilômetros que separam St. Jean Pie-de-Port de Santiago de Compostela. Como escreveu Paulo Coelho: todo o Universo "conspirou" para que eu pudesse te percorrer e te amar.

Hoje te sinto dentro de mim. Todos os dias penso em Você e sei que nunca mais poderei te esquecer.

Assim, por favor, aceita esta carta que nasce do fundo do meu coração. Já que hoje somos amantes, tenho que te contar tudo o que senti caminhando por Você, a grande aventura que foi estar em você.

A grande aventura que foi sentir como pouco a pouco você entrou e começou a fazer parte de mim.

Se posso me permitir uma interpretação feminina: Você se chama "Caminhas das Estrelas" por que amar-te é pouco a pouco começar a arder e tornar-se luz, amar-te é tornar-se estrela, é percorrer-te como percorre uma minúscula e brilhante estrela o negro e imenso firmamento.