- Antonella, lembra-se que eu disse que não sabia por que exatamente estou fazendo o Caminho?
- Claro. Claro que lembro... - respondi à pergunta de Alberto, enquanto admirava a paisagem.
O Sol do fim da tarde iluminava tudo delicadamente, as cores perdiam a agressividade e se tornavam quentes e agradáveis ao olhar. Uma trilha plana estendia-se em frente a nós, entre um longo muro cinza-claro à esquerda e campos à direita.
- Pois leia a poesia que está escrita neste muro. Quando a li pela primeira vez em um desses livros nos quais os peregrinos escrevem nos refúgios, pensei que ela descreve bem aquilo que o peregrino sente.
Olhei para o muro e li a poesia da qual Alberto falava. Comecei a lê-la lentamente. Arrepios atravessaram a minha espinha e eu soube que estava sendo tocada pela mesma "força oculta" da Vida que um dia tocou este peregrino anônimo e fez dele um poeta.
Nós os peregrinos, nós os seres humanos, passamos por tudo e tudo passa por nós. Somos os observadores que admiram a dança dos momentos efêmeros enquanto os vivemos, ou enquanto eles nos vivem, até que se acabem. E seguimos em frente, observando, observando, nos perdendo e nos achando, nos encontrando e nos desencontrando, seguimos em frente sem saber por que. Qual é a força que nos faz continuar caminhando?
Polvo, barro, sol y Lluvia
Es Caminho de Santiago
Millares de peregrinos
Y más de um millón de años
Peregrino, ¿ quién te llama?
¿Qué fuerza oculta te atrae?
Ni es un campo de estrellas,
Ni grandes catedrales
No es la bravura navarra
Ni el vino de los riojanos
ni los mariscos gallegos
ni los campos castellanos
Peregrino, ¿ quién te llama?
¿Qué fuerza oculta te atrae?
Ni las gentes del Camino
ni las costumbres rurales
No es la historia y la cultura,
ni el gallo de la Calzad,
ni el Palacio de Gaudi,
ni el Castillo de Ponferrada.
Todo lo veo pasar,
y es un gozo verlo todo.
Mas la voz que a mi me llama
La siento mucho más profundo.
La fuerza que me empuja
La fuerza que me atrae
no sé explicarlo ni yo,
¡Solo El de arriba lo sabe!
Alberto e eu íamos caminhando, conversando e rindo. Por um momento ele se tornou sério e me perguntou:
-Você não tem medo do futuro, vivendo como você vive?
Eu respondi a ele, em meu castelhano que ai melhorando um pouco à medida que eu ia avançando no Caminho:
- Claro que tenho! Já tive muitos momentos de ansiedade pelo fato de minha vida não me oferecer a segurança material que todo mundo diz tão importante de se conseguir. No início de minha vida com Sandro, quando começamos a viajar e querer fazer da vida uma aventura, eu tive bastante dificuldade com isto. Eu SABIA o que eu queria: viajar muito, não ficar presa pelas obrigações de uma carreira, aprender constantemente na escola da vida, fazer muitas amizades... Enfim ter TEMPO para viver e para amar. E eu sabia que sonhos não são coisas fáceis de se realizar. O curioso é que nenhum de nós dois tinha a sensação de poder esperar até a aposentadoria para viver nossos sonhos. Sentíamos e continuamos a sentir ainda hoje, algo assim como uma urgência de viver plenamente cada momento.
Quando nos jogamos nesta aventura, não tínhamos a mínima idéia daquilo que nos esperava no dia seguinte, e assim tem sido até hoje. E, apesar das dificuldades que enfrentamos, vivemos em diferentes países e conhecemos muita gente incrível. Sabe, Alberto, eu nunca me arrependi da escolha que fiz. Embora seja difícil, é muito bonito ser livre para se fazer aquilo que se quer. Todas as coisas importantes da vida não são fáceis!
Uma criança também tem medo de cair quando aprende a andar, porém o desejo de andar é mais importante que o medo de cair.
Falei, então, para Alberto sobre minha fé que se tinha tornado mais forte com o passar do tempo.
- É uma fé muito forte na vida, uma convicção íntima que nada é por acaso, que até nosso encontro, com certeza, tem um sentido. E que se acreditamos de fato em nossos sonhos, se fazemos tudo por eles com persistência e paciência, eles podem se concretizar. O Caminho foi durante muito tempo um sonho para mim, e hoje estou aqui caminhando!
A tarde de nosso terceiro dia de caminhada foi belíssima. Alberto era um grande companheiro de caminhada. Seu entusiasmo, sua percepção da beleza, sua alegria e comunicabilidade eram contagiantes.
Como era o terceiro dia que nos fazemos companhia, sabíamOs, ambos, que no dia seguinte, cada um seguiria seu caminho pessoal novamente.
Ao chegar num albergue muito bonito em Najera encontramos Lázaro, um "hospitalero"que está recebendo os peregrinos neste refúgio. "Hospitaleros" são ex-peregrinos que por um período de duas semanas, ou às vezes mais, resolvem, voluntariamente, tomar conta de um refúgio. Eles recebem os peregrinos e os orientam com a experiência que têm do Caminho
Lázaro era muito receptivo, ele conversava animadamente conosco e com outro grupo de pessoas que se encontravam perto de nós. Alberto e eu de repente ficamos muito surpresos ao escutar que eles falavam sobre o mesmo tema sobre o qual falávamos durante a caminhada. Lázaro disse ao grupo:
- É verdade, desde que passei a acreditar nos meus sonhos, minha vida se transformou completamente. Comecei a entender e sentir que a vida é de fato mágica! Coisas incríveis têm me acontecido. Eu diria que, de certa maneira, é verdade que a "fé move montanhas". É, claro, que o acaso não existe.
Alberto olhou para mim, depois para Lázaro, depois voltou a olhar para mim. Ele ria:
- Vocês por acaso "combinaram" isto? - ele se vira para Lázaro - Antonella estava me dizendo exatamente a mesma coisa que você está nos dizendo agora!
Os três começamos a rir. Senti que Alberto começava a perceber o quanto a vida pode ser bela e misteriosa.