Livro Completo
A Peregrinação - Parte II


13 de maio - 2 de julho

Caminhamos muitas horas. Agora me encontro no imenso refúgio para peregrinos de Roncesvalles. Trata-se de um imenso salão, pouco acolhedor, onde estão espalhados muitos beliches.

Coloco meu saco-de-dormir sobre um colchão que não está ocupado. Vou ao banheiro onde mulheres e homens esperam para tomar banho nas duas duchas disponíveis e lavar a roupa suja nas pias. Tomo banho e escovo os dentes.

Ao voltar para o salão resolvo puxar papo com um peregrino francês que tem seu saco de dormir em uma cama próxima à minha. Enquanto conversamos, pergunto a ele por que está fazendo o Caminho. Antes que as luzes se apaguem ele me entrega uma explicação por escrito:

"Não "porque" mas sim "por quem"?

"O Criador nos fez homem de pé. Então, eu caminho".

"A Luz brilha em nós, em cada um de nós, sem distinção. Ela ilumina árvores e relva, oceanos e riachos. Ela é. Desde a noite dos tempos e antes disto, sem dúvida".

"Então eu caminho e me torno um pouco aquilo que Ela é, aquilo que já sou".

"Sobre o Caminho, se a sombra resolve aparecer em volta de um salgueiro, na clareira de um bosque, ela é sempre aquela que me ajuda a compreender, que me desperta".

"A Luz nasce de tudo. Ela se revela até os confins de minhas noites escuras, de minhas nuvens de passagem. Ela é este resplendor intenso, ofuscante. Mais eu me aproximo Dela mais eu me sinto arder, e quanto mais eu ardo, mais eu caminho em direção a Ela.

"Então hoje, ainda, eu me levanto e caminho. É assim. Que importa a meta? Pois, quando eu chegar lá eu beberei a água de minha própria fonte.

Thierry"

Vandi e eu vamos saindo de Pamplona, pensando em caminhar mais, quando começa a chover torrencialmente. Resolvemos dar meia-volta e passar a noite em Pamplona. Para então ao nosso lado um carro e um senhor espanhol, muito simpático, nos oferece carona. Ele diz: Sempre que posso ajudo os peregrinos. Ainda não fiz o Caminho, mas pretendo fazê-lo algum dia. Levarei vocês até o albergue.

Chegamos a um grande albergue. Saímos do carro e descobrimos que o refúgio está fechado. Paradas diante da porta há três mulheres idosas - três peregrinas muito molhadas pela chuva. Uma delas explica: Chegamos a este albergue pensando que ele estaria aberto. Descobrimos que somente o albergue do centro da cidade está funcionando.

Percebo logo que elas são brasileiras e me apresento. Com espanto, vejo a mais velha começar a chorar muito, dizendo: -Estou tão cansada! Não vou conseguir fazer este caminho!

Rapidamente Vandi e eu decidimos ceder nossa carona a elas. Elas agradecem muito e nos despedimos do senhor que nos trouxe até aqui. Vamos caminhando para o outro albergue. A chuva nos molha muito e o tempo está peculiarmente cinza. Sinto-me estranhamente emocionada pela cena que acabei de presenciar.

A vida humana é de fato muito louca e muito bela. Admiro a força destas mulheres que na idade delas saíram do país onde vivem, do calor acolhedor de suas casas e famílias, por um simples e no entanto imenso, ato de fé. Mesmo se elas realmente não conseguirem chegar até o final do Caminho, chegar até aqui já é muito corajoso. Viver aquilo que sentimos é ato de coragem e de fé. Muitas vezes não é fácil, porém sempre vale a pena. É belo ver que todos estamos buscando. Cada um à sua maneira.

Agora estou deitada na cama do refúgio. Há muitos peregrinos entrando e saindo daqui. Parece que o albergue está lotado.

César se separou de nós porque tem pouco tempo para fazer o Caminho e tem pressa. Vandi também tem o tempo limitado, motivo pelo qual ele acabou de decidir que amanhã sairá bem cedo para poder fazer mais quilômetros. Fico contente de ter tempo. A vida passa tão rápido!

Com Vandi, em apenas três dias de caminhada, nasceu uma bela amizade. Ele estuda pássaros e me explicou a respeito das aves que víamos no caminho. O mais incrível foi descobrirmos que temos aniversário no mesmo dia! Ambos geminianos do 30 de maio! Acabamos de trocar endereços.

Vou observando as pessoas que encontro e vejo que, embora estejamos todos fazendo o mesmo Caminho, cada um é um caminho diferente. Cada pessoa tem seu modo e seu ritmo de fazer o Caminho, modo que reflete a maneira que encara e vive a própria vida.

O Caminho, inevitavelmente, leva à reflexão. Os encontros com as pessoas são intensos e reveladores. Às vezes caminhando por uma hora com uma pessoa e já acontece uma grande comunicação.

A caminhada estes dias passou por densos e magníficos bosques. De vez em quando chovia, e as trilhas estavam cheias de água escura e lama. Muitas vezes tive meus tênis e minhas meias ensopados, o que me deu medo, pois é o único par de sapatos que tenho para caminhar.

Até agora não tenho bolhas, o que me dá alívio. Perto de mim há um espanhol de mais ou menos 20 anos que terá que abandonar o Caminho amanhã. Ele tem tantas bolhas que seus pés estão em carne-viva! É claro que ele está bastante triste.

Acaba de acontecer uma incrível coincidência: encontrei neste albergue a tia de meu vizinho! É realmente incrível se penso que moro num vilarejo no Brasil que possui apenas cinco mil habitantes!

Sinto-me bem. Feliz pelo prato quente de comida que tive ao chegar em Pamplona. Feliz pela roupa seca que estou vestindo agora. Feliz por ter um abrigo da chuva e uma cama para passar a noite, pela simpatia dos peregrinos que encontro, pela chuva que me molhou e me faz dar ainda mais valor a este momento. Feliz porque existo.

É gostoso pensar e sonhar antes de adormecer. Deixar aflorar as imagens dos dias que passaram.

- As paisagens de sonho...

- O divertido senhor francês caminhando com sua égua.

- Outro senhor, um filósofo e poeta que, após um seríssimo acidente, resolveu fazer o Caminho, pois descobriu que a vida é de - fato muito curta para não aproveitá-la plenamente.

- O belo e sincero olhar de Vandi ao entregar-me a cruzinha vermelha de Santiago, um presentinho que me acompanhará e me lembrará um feliz início de viagem. Me dará forças nos desafios que me esperam.

- A francesa que conheci aqui e que me disse coisas que eu precisava escutar. Que é importante fazer aquilo que se sente. Que eu não deveria me preocupar com dinheiro. Que cada um é um caminho individual e que não há regras nem fórmulas para o viver.

- A égua que estava deitada no meio do caminho, que tentava parir e não conseguia porque o potro estava morto. Todos os peregrinos que passavam ajudaram a puxar o potro morto e assim a salvar a vida da égua.

Penso nos amores de minha vida, nas dores, alegrias, em tudo que aprendi com eles. Penso na luta e na dor da égua. Na luta, na dor e na alegria de cada peregrino. Na luta de cada ser humano para conseguir viver dignamente cada novo instante. Na luta para entender a vida. Na importância de ter solidariedade e compaixão para com o caminho do próximo, mesmo se muitas vezes não os entendermos. Penso e dou graças à Vida por poder pensar e presenciar tudo isto. O Caminho é a Vida. A Vida é o Caminho.

Vou caminhando lentamente, saindo pouco a pouco da cidade de Pamplona. Curiosamente é a terceira vez que parto desta cidadezinha. A primeira vez havia sido antes de começar o Caminho, quando parti de ônibus após repousar num parque debaixo de uma árvore que eu encontrara caminhando ao acaso. A segunda vez foi ontem, ao lado de Vandi, antes que a chuva nos surpreendesse e nos forçasse a voltar.

Hoje vou caminhando e observando com atenção os lugares por onde passo, pois creio que não voltarei a passar por aqui tão cedo.

De repente paro. Estou diante de uma imagem que me parece incrível. Em pleno Caminho de Compostela, saindo de Pamplona a pé, vejo algo que eu não havia visto no dia anterior. À minha esquerda vejo o parque e, muito próxima, a árvore sob a qual me deitei antes de começar o Caminho! Pintada sobre esta mesma árvore, vejo uma das tantas flechas amarelas que guiam os peregrinos e os ajudam a não se perder!