Livro Completo
A Peregrinação - Parte VI

LOS ARCOS.

À tarde, em uma das minhas explorações de vilarejo, vou visitar a cooperativa de vinhos Férnandez de Arcaya. Ali, graças a notável hospitalidade espanhola, sou novamente muito bem recebida pelos proprietários e acabo ganhando uma garrafa de vinho tinto de presente.

refúgio conheço Alberto, um jovem espanhol muito aberto e comunicativo. A maneira cuidadosa de pronunciar as palavras e a empolgação dele, ao discorrer sobre as belezas que avistou desde que começou a caminhar, chamam a minha atenção. Logo nos vemos submersos em uma fluida conversa sobre a vida e uma afinidade súbita se manifesta entre nós.

Pressinto que seremos amigos, pois temos o mesmo senso de humor e rimos muito juntos. Curiosamente, trata-se do segundo geminiano que encontro depois de Vandi. Alberto tem seu aniversário quatro dias antes de mim.

Faço a ele a inevitável pergunta:

- Alberto, por que você está fazendo o caminho?

- Para te falar a verdade, não sei.

Olho para ele, um tanto surpreendida. É a primeira vez que me respondem isto. Vejo nesta resposta espontaneidade e simplicidade.

- Você não sabe???

- Não. Claro que há algumas razões óbvias como o fato de que gosto de caminhar, de que quero conhecer melhor meu país... Mas por que justamente o Caminho de Santiago? Se sei que se trata de um caminho religioso e pessoalmente não tenho nenhuma crença. Por que tive cada vez maior vontade de fazê-lo? Não sei ! Suponho que eu "tenha que" fazê-lo...

Juntos, um simpaticíssimo japonês com quem desenvolvemos uma rica comunicação gesticulada, Alberto e eu preparamos um jantar muito gostoso na cozinha do albergue.

Durante o jantar há muitos motivos para celebrar: o encontro com pessoas interessantes, o fato de ter uma boa comida e uma garrafa de um delicioso vinho, o belíssimo vilarejo onde nos encontramos e o Caminho que nos trouxe até aqui com seus mistérios e suas belezas... A Vida em si e sua arte de se mostrar mágica para quem quiser ver sua magia, sua maneira de nos seduzir constantemente, convidando-nos a participar de sua dança.

Como se para completar a intensidade do momento, uma tempestade invade brutalmente a noite. A natureza, sempre mutante, fala às vezes a mesma língua que meu coração.

Atravessando a praça de um vilarejo, Alberto me expressa seu forte desejo de aprender idiomas, especialmente o inglês. Digo a ele:

-Você pode ter certeza disto, Alberto, a melhor maneira de aprender inglês é namorar uma inglesa! Ou uma.... irlandesa talvez?

Como tem sido desde o momento em que nos conhecemos, ambos caímos no riso. Animado, ele responde:

- Claro! Uma irlandesa! .... Eu adoraria conhecer a Irlanda!

- Eu também! Nunca estive por mais de um dia em nenhum país anglofone e creio que a Irlanda ou a Escócia devem ser países muito interessantes...

De repente Alberto me pára. Ele faz um gesto em direção a um passarinho que pousou no chão à nossa frente. Imóveis, observamos a agilidade e a graça dos movimentos do pequeno pássaro.

Então, ao nosso lado escutamos alguém exclamando alegremente em um castelhano embrulhado:

- Muito bem!

Nos viramos e vemos dois homens sentados num banco da praça. Um deles têm um longo bigode e pômulos bastante corados, ambos têm cabelos claros, longos e lisos. A aparência um tanto descuidada sugere que ambos estão levando uma vida "boêmia" . As mochilas, ao lado, confirmam a impressão - trata-se de peregrinos.

Aos pés deles uma garrafa vazia e uma segunda garrafa de vinho tinto pela metade explica a alegria que eles demonstram efusivamente. Entre os dedos amarelados por excesso de fumo, o homem de bigode segura com displicência um cigarro enrolado com esmero. Ele o estende para nós:

- Vocês querem fumar um "joint"?

Ele pergunta isto em uma mescla de castelhano com inglês. Resolvo responder com meu limitado inglês:

- Não, muito obrigada.

- Ah ! Você fala inglês!

- A little bit ... - respondo sorrindo.

O outro levanta então a garrafa de vinho e insiste:

- Bebam pelo menos um trago conosco!

Para agradecer a gentileza, Alberto aceita e bebe da garrafa. Bebo também um gole. É um vinho barato como muitos dos que já bebi desde que comecei o Caminho. Embora não sejam bons, estes vinhos esquentam no frio e levantam o ânimo. O bigodudo se desculpa para Alberto, o que traduzo:

- Sinto muito por não falar castelhano ! Somos irlandeses e estamos apenas há pouco tempo na Espanha.

À proveniência deles faz com que Alberto e eu troquemos um olhar admirado. Eu me empolgo:

- Que curiosa coincidência ! Agora mesmo falávamos na Irlanda ! É um país que me encantaria conhecer !

Irlanda é um país muito bonito.... Yes, muito bonito mesmo ! Se vocês puderem, não deixem de conhecê-lo!

Ele nos fita com simpatia e logo continua:

- Antes eu abordei vocês porque vi como seu amigo lhe parou para admirar o pássaro. Apenas um bom observador faria isto, alguém que se dá o tempo de ver aquilo que MERECE ser visto. Achei que valia a pena falar com duas pessoas que dão valor a estes pequenos detalhes, que são simples mas são tão importantes ! Realmente, isto é raro hoje em dia. As pessoas têm tanta pressa!

Os irlandeses nos contam, então, que estão fazendo o Caminho com pouquíssimo dinheiro, mas ajudados pelo vinho e pelo entusiasmo que sentem ao conhecer a Espanha. Eles vibram ao dizer que se trata de um "wonderful", um maravilhoso país.

Contentes, nós dois nos despedimos deles e seguimos caminho. Temos ambos a feliz impressão de ter cruzado com verdadeiros boêmios.