13 de maio - 2 de julho
Vamos caminhando juntos. Percebo que Pierrot tem uma pressa que não tenho hoje. Isto faz com que ele queira passar pelo lado de fora dos vilarejos. Digo a ele:
- Pierrot, me desculpe mas adoro passar por dentro dos vilarejos medievais. Eles são tão bonitos! Vamos fazer assim, você passa por fora, eu passo por dentro, talvez nos reencontramos depois.
Dou um abraço nele, agradeço por tudo no caso de não nos vermos mais. Deixo um pouco de dinheiro para ele, pois sei que lhe será útil. Ele de fato fica feliz e diz que aquilo fará com que não tenha que se preocupar com a comida por uns dois dias. Assim nos afastamos.
Pierrot e eu nos reencontramos na entrada de um vilarejo. Ele decide entrar comigo. Sentamos em uma praça e fazemos um lanche juntos. Quando recomeçamos a caminhar começa uma verdadeira tempestade. A chuva é tão torrencial que Pierrot começa a correr pelas ruelas do vilarejo. Eu tento acompanhá-lo, porém a chuva quase me impede de andar. Perco Pierrot de vista.
Vejo então uma farmácia com a luz acesa. Estou encharcada, tenho medo de ficar doente. Vou até a porta da farmácia e uma mulher abre a porta para mim. Ela pergunta:
- Posso ajudá-la?
- Sim... Estou muito molhada como a senhora pode ver. Sei que não há nenhum refúgio no vilarejo, porém gostaria de saber se há alguma possibilidade de encontrar um abrigo para a noite. Hoje não conseguirei mais continuar a caminhar.
Ela me observa com um olhar gentil e me diz:
- Olha, se você quiser pode assistir a missa hoje à noite e eu te apresento ao padre. Ele te ajudará. Muitas vezes ele aloja peregrinos num salão que pertence à igreja. Enquanto isto, venha até minha casa para trocar de roupa e colocar uma roupa seca senão você ficará doente.
Fico contente e acompanho a senhora. Após trocar de roupa na casa dela, me sento na praça do vilarejo e estendo as roupas molhadas ao sol que começa a reaparecer. A senhora se senta comigo e começa a me contar as histórias do vilarejo e de sua vida pessoal. Sinto que ela está feliz por ter alguém com quem conversar.
No final da tarde faço um passeio pelo vilarejo e descubro que é muito bonito. Vou a uma lojinha e compro queijo de ovelha - uma especialidade segundo a vendedora que também conversa comigo animadamente. Me informo com ela e decido ir visitar uma cooperativa onde é feito o vinho do vilarejo.
Os donos da cooperativa me recebem bem e me explicam de forma empolgada a produção do vinho. Compro então meio litro de vinho tinto e peço a eles que coloquem na garrafinha de plástico que comprei para que não pesasse na mochila.
Começa a anoitecer. Entro na bela igreja onde há somente as pessoas que moram no vilarejo. Me parece que sou a única pessoa de fora que dormirá no vilarejo esta noite. A senhora me apresenta ao padre que oferece levar-me ao salão onde poderei dormir após a missa. Me sinto tranquila pois tudo corre bem.
Penso "graças a Deus" e sorrio, pois me dou conta que estou sentada em uma igreja prestes a assistir a uma missa. Não é a primeira igreja na qual entro, afinal o Caminho está cheio de belíssimas igrejas. Embora eu não tenha religião, sempre me agradou entrar em igrejas pois são lugares de recolhimento, abrigos silenciosos do incessante movimento do mundo exterior.
Lembro-me que quando criança sempre ia até a capelinha da escola que eu frequentava e "conversava" com Deus. Ou então à noite, antes de dormir, falava com Ele, sem me importar muito com quem eu estava falando ou se este alguém de fato existia ou não. Eram momentos muito puros e sinto um pouco de tristeza por ter me afastado daquela pureza da infância por tanto tempo.
Agora faz algum tempo que recomecei a ter fé em algo sem ter vergonha de acreditar. Sem tampouco sentir necessidade de dar a forma de religião a este "algo". Eu poderia chamá-lo "Vida", "Tao", "Deus", e saberia que não importa o nome. Sinto que a Vida é muito maior do que qualquer descrição que possamos fazer Dela.
Aproveito então que estou na igreja e converso com a vida em silêncio:
"Obrigada por toda a ajuda que Você tem me dado. Vou tentar fazer o Caminho da melhor maneira possível.... Por favor, me guia. Sinto que é bom estar mais ou menos três dias com pessoas ou grupos que me interessam. Isto será o tempo suficiente para trocar idéias, começar eventuais amizades e me permitirá manter meu próprio ritmo, sem deixar de conhecer o ritmo de outras pessoas. Obrigada também por esta idéia."
Começo a prestar atenção às palavras do padre que já começou a celebrar a missa. Ele fala que cada um de nós tem uma missão para cumprir em sua vida. Diz também que às vezes é necessário abandonar certas coisas, pessoas ou lugares para cumprir esta missão que sentimos em nós, e que isto pode ser doloroso.
Estou no grande salão onde passarei a noite. Amontoados em volta de mim móveis, duas geladeiras desligadas e outros objetos. Há um banheirinho onde posso usar o vaso e lavar o rosto. Coloquei no chão meu colchãozinho e o saco-de-dormir por cima, estou sentada em cima deles.
Bebo lentamente o vinho enquanto como meu sanduíche de queijo de ovelha. Maravilhoso. É a primeira noite que dormirei sozinha no Caminho. Gosto da aventura embora o lugar seja um pouco sombrio e grande demais. Evito pensar em coisas bobas. Faço como as criancinhas, deixo a luz do banheiro acesa para evitar a escuridão total, que hoje me parece incômoda. O cansaço começa a pesar sobre meu corpo...
É um desafio este momento noturno. Aliás todos os momentos têm sido desafios desde que comecei o Caminho. Talvez, na vida, todos os momentos devessem ser encarados como desafios. Tenho que tentar dar sempre o máximo de mim em cada situação, por mais difícil que a situação seja.
Este momento solitário, este estranho lugar.
Na missa pedi para a Vida vir até a mim, para eu senti-La em mim. Eu Nela, Ela em mim.