À noite jantamos juntos. Lázaro, Alberto e eu. Conversamos sobre muitos temas. Lázaro me falou bastante a respeito dos Templários, uma ordem religiosa muito interessante que construiu algumas das igrejas do Caminho. Ele me falou também a respeito do Valle del Silencio, um lugar de grande beleza natural, que é possível conhecer fazendo um desvio do Caminho:
- Antonella, você deveria ir conhecer este lugar, já que você não tem pressa para acabar o Caminho.
"Aconteceram coincidências curiosas que me fizeram vir trabalhar no Caminho por duas semanas. Eu estava no aeroporto esperando o avião que me levaria de volta para casa. Enquanto esperava adormeci. Quando acordei, vi que perto de mim havia um papel no qual estava escrito "Valle del Silencio" que eu sabia ser um desvio do Caminho de Santiago, pois já havia feito o Caminho. Neste momento, devido a tudo que já me havia acontecido antes, eu entendi que tinha que vir para o Caminho antes de voltar para minha casa nas Islas Canarias. Infelizmente não conseguir ir até o Valle. Faça-o se você puder!"
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De manhã Alberto partiu bem cedo.
Fui passear por Najera para conhecer melhor a cidadezinha. Alegre, senti como se Alberto tivesse deixado em mim algo de seu entusiasmo. Torci para ele ter levado um pouco de minha fé na magia da vida.
Da mesma maneira que caminhar nos faz avançar no Caminho de Santiago, encontros sinceros nos fazem progredir no Caminho da Vida.
À tarde voltei para o refúgio para pegar minha mochila e fazer uma pequena etapa caminhando.
Antes de partir, resolvi ler as páginas de um guia, referentes à próxima etapa que Alberto insistiu em deixar para mim. Para minha grande surpresa, encontro dinheiro entre as páginas. Entendo de repente que Alberto quis fazer por mim o mesmo que eu quis fazer por Pierrot, ou seja, tentar me ajudar a terminar o Caminho! Sabendo que eu dificilmente aceitaria o dinheiro da mão dele, ele o escondeu entre as páginas do guia!
Senti novamente uma inexplicável emoção, como se tudo o que me acontecesse no Caminho me ajudasse e incentivasse a seguir em frente. Em silêncio pedi à Vida para, se possível, reencontrar Alberto, para um dia para agradecer.
De repente vi Lázaro que se aproximava.
- "Hola" , Antonella, você vai caminhar agora?
- Vou. Acho que hoje farei apenas uma pequena etapa de cinco quilômetros mais ou menos...
- Posso então te acompanhar? Faz tempo que não ando mais no Caminho e estou com saudades...
- É uma ótima idéia, Lázaro! Que tal você levar seu violão junto? Gostaria de te ouvir tocar antes que nos despedíssemos!
- Claro ! Vou buscar o violão e em seguida saímos.
Nossos passos levantaram a poeira e fizeram rolar as pedrinhas do caminho dourado pelo sol do final da tarde. Lázaro comentou, bem humorado:
- Uma vez conheci um homem que estava fazendo o Caminho sem mochila, levando apenas uma bolsinha com o essencial. Sempre quis saber o que ele sentia e sonhava em fazê-lo assim: sem mochila e com meu violão! Hoje, de maneira inesperada, estou realizando meu sonho por alguns quilômetros com você!
Nossa conversa fluiu como nossos passos, até chegarmos quase ao final da etapa onde nos despedimos. Lázaro apontou para uma colina à esquerda do caminho:
- Creio que ali é um bom lugar para tocar e ver o entardecer...
Subimos a colina de onde admiramos os campos. Nos sentamos. Lázaro começou a tocar e cantar e a tarde foi caindo como se embalada pela música. Sei que quando nos deixarmos será esta a lembrança que levarei de Lázaro: um peregrino sem mochila que acredita nos sonhos e canta sobre colinas ao entardecer.