Livro Completo
A Peregrinação - Parte I


13 de maio - 2 de julho

Barcelona. A mochila está pronta. Não sei muito bem o que levar, na verdade nem me informei muito. Duas calças, dois shorts, algumas camisetas, meias, calcinhas, um colchão isotérmico, um saco de dormir. Claro, dois suéteres de lã. Confiro a bolsinha a tiracolo, os documentos estão todos aí. E o dinheiro, dinheiro de uma semana de trabalho fazendo tradução na feira de Indústria na Alemanha. Meu Deus, será este dinheiro suficiente? Tanto faz, se eu não for agora não vou nunca mais.

Bem, agora só sobra dormir. E amanhã acordar bem cedo, pegar o metrô para ir à estação de trens. Dali, o trem para Pamplona e lá me informar qual é a melhor maneira de chegar até a fronteira.

Escovo os dentes e me olho no espelho. Antonella, você tem 26 anos, você é uma cabeça-de-vento que só pensa em viajar, namorar, escrever e sonhar coisas malucas. Pior que uma adolescente. E amanhã, que medo e que alegria, começa a aventura. Não adianta, serei eternamente criança em meu coração, ainda que o mundo só veja em mim uma adulta desregrada.

Me deito. Que bonito é este bairro de Barcelona. Barceloneta. Escuto o mar ao longe. E de um ou outro apartamento escuto tocar música flamenca. Música cigana, passional. Também eu sou cigana, pelo menos na alma. Sorrio.

Penso nos fosforescentes olhos azuis de Sandro. Nos despedimos no porto. "Vai com Deus. Te amo". Foi isso o que ele disse. E depois subiu no barco e não viu como eu estava chorando por dentro. Também te amo meu amor. Vou em busca de mim, de meus sonhos, mas sei que sempre que nos reencontrarmos será também um sonho. Hoje somos como dois pássaros livres voando no céu. Por isso e por tantas outras coisas: te amo.

E você, mar que embala meu sono, mar azul como os olhos de meu amor, também te amo. Quero mergulhar na vida como se estivesse mergulhando no mar. Um mar cheio de belezas, perigos, mistérios. Um mar no qual cada momento é o máximo. Viver é morrer e nascer em cada momento.

O mar.... o mar....

Que barulho é este? Ah, é o despertador. Só dormi duas horas. Esfrego os olhos. É hoje.

Com que sonhei mesmo? Agora me lembro, foi aquele sonho que tenho desde a infância e que volta de vez em quando: eu pequenininha em frente a uma imensa onda do mar.

Olho pela janela. Lá fora está ainda escuro. Vou caminhar rápido pelas ruas escuras, o metrô não é muito longe.

Levanto, me preparo. Arrumo a cama. Vou chamar nosso amigo Fran, o dono do apartamento, que está dormindo no quarto ao lado. Bato na porta.

Estou indo - digo.

Ele abre a porta, a cara cheia de sono. E me abraça, um abraço forte de um imenso amigo. Um quase irmão.

Coloco a mochila sobre os ombros. Não são nem seis horas da manhã e me sinto cheia de energia. Justamente eu, que sou super preguiçosa! Saio e fecho a porta do apartamentinho, desço as tantas escadas e finalmente estou na rua. Eu e minha mochila. Eu, a vida e nada mais.

A madrugada é fresca e agradável. Entro assim na madrugada, sem medo, uma andarilha em busca de seus sonhos. Na verdade somos todos, sem exceção, nada mais que andarilhos nos caminhos da Vida.

Comi um iogurte antes de sair de casa. Acho que isto resolverá minha fome por algumas horas. Caminho pelas ruas, chego até o metrô cheio de gente indo muito cedo para o trabalho. As pessoas olham com curiosidade minha mochila com a concha de peregrino costurada em cima. Fran comprou algumas conchas para cozinhar e me deu uma de presente. Suponho que isto não seja conforme a tradição do caminho, mas não importa. Meu caminho é pessoal e, assim, não tenho nem o tradicional cajado com o qual caminham os peregrinos. Por enquanto, ele me parece desnecessário. Se mais tarde sentir necessidade, suponho que acharei algum.

Vou ao Caminho sem cajado, sem um livro que sirva de guia. Tenho somente um mapa da Espanha.

Chego à estação de trens. Me informam que os passageiros para Pamplona terão que ir de ônibus, pois há algum impedimento na ferrovia.

Depois de uma viagem de ônibus e outra de trem chego a Pamplona. Pamplona é uma cidade que se encontra no Caminho; creio que aqui poderão me informar como poderei chegar até a França, pois em Barcelona não sabiam direito.

Na estação de trens me dizem que a melhor maneira de chegar até a fronteira é de ônibus. Porém eles também não sabem me informar como atravessar a fronteira, pois não há ônibus nem trem que vá de Roncesvalles até St. Jean Pied-de-Port. Fico impaciente, porém decido ir à oficina de turismo e depois à estação de ônibus para me informar melhor.

Tenho que chegar ainda hoje ao início do Caminho, pois não tenho tanto dinheiro para começar a gastá-lo em albergues pagos fora do Caminho. É o fato de saber que há albergues gratuitos no Caminho que torna esta viagem economicamente possível para mim.

Oficina de turismo. A mulher, bastante simpática como a maioria dos espanhóis que vou encontrando, me explica:

- Você pode tentar ir até a fronteira e dali pegar um táxi até a França. Sei que é caro pegar táxi, mas você pode tentar dividi-lo com outros peregrinos que talvez também queiram ir. Se não só te sobra a possibilidade de pegar um trem amanhã de manhã, que faz um imenso desvio dentro da França.

É arriscado. E se eu não encontrar outros peregrinos que queiram ir até a França? Tenho ainda uma passagem de trem que posso usar. Outra possibilidade seria começar por Roncesvalles como a maioria dos espanhóis. Mas isto eu não quero. Li em muitos prospectos que a travessia dos Pireneus é dura porém belíssima. Resolvo arriscar e pegar o ônibus.

Vou até a estação de ônibus onde compro uma passagem para o final da tarde. Há algumas pessoas estranhas na estação, inclusive um homem mal-encarado que começa a falar comigo dizendo que quer me ajudar. Não confio nele. Recuso a oferta e saio rapidamente dali.

Vou caminhando pelas ruas sem rumo. Ouvi dizer que é uma cidade bonita. A parte nova da cidade, na qual me encontro, não me agrada. A mochila já começa a pesar! Estou suada. Estou cansada. Não tenho vontade de conhecer a cidade hoje; conhecerei quando estiver fazendo o Caminho.

Vejo então a entrada de um parque e decido entrar. Isto. Vou procurar uma bela árvore que dê bastante sombra e vou descansar debaixo dela.

Encontro a árvore, me desfaço do peso já irritante da mochila e me deito. Como um sanduíche que comprei numa lanchonete.

Está fazendo calor. Sinto-me, pela primeira vez, um pouco sozinha. Estranho como são as emoções. Quando saí de Barcelona esta madrugada eu estava feliz por estar só. Estar só era sensação de aventura. E agora, que loucura...

Por que será que estou aqui? Sou uma estrangeira, uma mulher viajando sozinha num país estranho, com uma mochila super pesada nos ombros. Que absurdo! Acho que sou realmente meio estranha. Este negócio de não querer cursar uma universidade, de ter só vontade de viajar e escrever, de não saber como eu vou fazer para sobreviver o mês que vem... É verdade que muitas vezes minha mãe me ajudou, mas muitas vezes também me virei sozinha sem ajuda nenhuma. Não foi sempre fácil.

Mas... Valeu a pena? Valeu sim, sem dúvida. Hoje posso dizer que vivi mais coisas que a maioria das mulheres de minha idade viveram. Morei em diferentes países e consigo me comunicar em seis idiomas. Aos 26 anos, tenho amigos em muitos diferentes lugares e uma vida cheia de aventuras e sensações. Não tenho nada, mas e daí? Há muitos que têm muito e perdem tudo. Há muitos que vivem para ter e não têm nunca. Eu quero viver para viver. Sei que amanhã posso morrer, então tenho que aproveitar ao máximo este momento. Cada um tem seu caminho. Se hoje tivesse que escolher, faria tudo de novo, exatamente igual. Talvez eu fosse um pouco mais "maluca", mais aventureira.

Leio um pouco do livro "O Profeta" de Khalil Gibran. Começa a despertar em mim um estranho sentimento, talvez seja o espírito da peregrinação. Choro. Choro e passo a mão pelo rosto e deito minha mão molhada de lágrimas sobre a terra. Tenho feito isto algumas vezes desde um dia no qual, uma das tantas vezes em minha vida, chorei por amor. Algo me fez pensar, naquele dia, que oferecer lágrimas de amor à terra poderia fazer brotar flores em minha vida, como a oferta de sementes faz brotar verdadeiras flores do coração da terra. E, de fato, desde então, maravilhosas "flores" brotaram em meu caminho, compensando os riscos que corri e as dores que vivi.

Lembro-me então do enorme amigo, Daniel. Daniel conseguiu realizar seu sonho e tornar-se mergulhador. Exemplos como o dele mostram que quando desejamos de fato algo, isto se torna possível.

Lembro-me também daquilo que pensei a respeito do mar ontem à noite. Mergulhar na vida ou mergulhar no amor é como mergulhar no mar. Há de se ter coragem. Há de entender que no mar há o desconhecido. Aquilo que fere e aquilo que exalta, fluxo e refluxo, maré baixa e maré alta. Vida vibrante. Crescimento, morte, renascimento. Eternidade...

Este é meu sonho. Mergulhar na Vida. Viajar muito, com o corpo e com a cabeça.

Abro os olhos. Acho que adormeci. Como me sinto bem! Lembro-me de ter tido um momento de medo e fraqueza, mas agora me sinto completamente renovada. Levanto, pego a mochila e vou para a estação de ônibus. Somente chegando à estação penso, com pena, que nem "agradeci" à árvore que me abrigou do sol e me curou da tristeza.

Começo a me sentir animada porque vejo outras pessoas com mochila. Vou até cada uma delas e começo a conversar, perguntando de onde elas vêm, por onde vão começar o Caminho. As pessoas são receptivas. Creio que elas sabem todas tão pouco como eu sobre aquilo que as espera. Tenho certeza que mesmo se eu tivesse lido os muitos livros que há sobre o Caminho não conseguiria avaliar aquilo que me espera.

É interessante. Entre os poucos peregrinos que há na estação já vejo uma americana, alguns franceses, espanhóis e seguramente há outras nacionalidades que ainda não descobri.

O mais bonito é observar aquilo que já intuo ser uma realidade do Caminho: peregrinos se reconhecem entre si . Homens e mulheres, jovens e idosos, pessoas de diferentes raças e diferentes crenças, todos falam com todos, pois são apenas peregrinos!

Agora estou num quarto de uma hospedaria em St. Jean Pied-de-Port. É um belo quartinho no qual há uma cama de casal e uma cama de solteiro. Na cama de casal estão os dois peregrinos que dividiram o táxi de Roncesvalles até aqui comigo. Um deles é brasileiro, eu o abordei no ônibus pois vi que estava vestido com uma camiseta escrita em português. O outro é espanhol. Ele ouviu que iríamos até a França e decidiu que viria conosco. Eles se chamam Cesar e Vandi e são muito simpáticos. Amanhã começaremos a caminhar juntos. Por isto, e para economizar, resolvemos dividir o quarto na hospedaria.

A viagem de ônibus foi muito bonita, passamos por paisagens incrivelmente verdes. Em Roncesvalles comemos algo, esperando pelo táxi que nos traria até aqui. Vandi me fez provar um típico licor chamado "Pacharán".

Ao chegarmos à França tive que conseguir uma credencial de peregrina e um carimbo - o primeiro carimbo da viagem. A credencial com os carimbos dos vilarejos pelos quais o peregrino passa, permite pernoitar nos albergues gratuitos. Os outros dois já tinham credenciais, porém necessitavam de carimbos. Como eu era a única a falar francês, tive que acalmar a senhora que nos atendeu. Ela estava um pouco impaciente porque interrompemos seu programa de televisão a respeito da família real francesa. Conversei com ela perguntando-lhe as mais recentes novidades sobre a família real e ela acabou sendo bastante gentil.

Me sinto empolgada com a viagem que inicia, e tenho ao mesmo tempo um pouco de medo. Meus camaradas de início de viagem parecem ser boas pessoas.

Durante a noite acordo. Um dos dois peregrinos está escutando uma espécie de rock no walkman. O escuro, estar num lugar desconhecido com pessoas estranhas e a música nervosa no meio da noite me assustam. Começo a imaginar coisas ruins e me forço a parar. Me acalmo me dizendo que é normal ter um pouco de medo na primeira noite.

A travessia dos Pireneus de fato foi dura, porém, sem dúvida, belíssima. As vezes eu caminhava com Vandi e César, às vezes acompanhava um ou outro peregrino que passava e com quem eu puxava conversa. Às vezes eu simplesmente procurava meu próprio ritmo e caminhava sozinha.

É interessante que, fazendo o Caminho sozinha, posso ir, pouco a pouco, encontrando meu ritmo, minha maneira pessoal de fazer o Caminho. É um estar sozinha sem estar solitária. Quando quero, caminho sozinha e, quando vale a pena, caminho ao lado de pessoas que me interessem. Assim tenho a plena escolha tanto da velocidade quanto do ritmo de cada dia.