É de manhã. Me levanto, arrumo as coisas dentro da mochila. Saio ao encontro do dia. Me sinto cheia de disposição para um novo dia de caminhada. Que belo sentir esta disposição que tenho sentido desde o início do Caminho com freqüência, e que difere muito da minha habitual sensação de peso físico e mental!
Antes de partir do vilarejo lembro-me de escrever uma cartinha de agradecimento à tão simpática senhora que me ajudou. Desenho uma flor para ela e anoto num pedaço de papel o versinho do poeta E. J. Malinowski:
Dichosa la flor
Que además de ser flor
Tiene agradable perfume,
Y dichosos aquellos
Que son como esa flor.
Estella. Hoje os poucos quilômetros da manhã foram duros por causa da chuva e do barro. Eu escorregava muito e então andava devagar, tomando cuidado para não me machucar. Cheguei a me perder por um tempo, indo na direção errada por não ver uma flecha. Logo me dei conta disto e voltei ao Caminho, onde encontrei um gentil e tímido francês com quem fiz o resto do percurso até aqui. A presença dele me deu força.
Cheguei ao refúgio bastante molhada, com as mãos quase sem conseguir se mexer por causa do frio. Tomei uma ducha quente e me deitei na cama onde demorei um bom tempo para me esquentar. Dormi mais ou menos três horas.
Agora me levanto, e sinto ainda sobre meu corpo o cansaço físico. Me sinto um pouco fraca. Converso um pouco com outros peregrinos que estão no quarto.
Um deles me mostra o livro que está lendo: O Diário de um Mago" de Paulo coelho, a respeito do Caminho de Santiago. Ele diz:
- Conheci muitos brasileiros que estão fazendo o Caminho por causa deste livro. Você também o leu?
Vendo minha resposta afirmativa ele pergunta:
- Você, também esta fazendo o Caminho por causa deste livro?
- Bem , claro que ele também influenciou minha decisão de querer fazer o Caminho.
Não é a primeira vez que me perguntam isto. Como hoje, geralmente outras pessoas se juntam então à conversa e falamos sobre os livros escritos por Paulo Coelho, que têm sido lidos no mundo inteiro. Com carinho, cito partes do "ALQUIMISTA", que é para mim um livro maravilhoso que fala com a criança que há dentro de todos nós.
Enquanto falo, não consigo deixar de pensar que este escritor conseguiu fazer algo de muito importante. Seus livros TOCAM as pessoas a ponto de elas decidirem transformar suas vidas, fazer peregrinações, arriscar novas aventuras, ir em busca de seus sonhos. Não creio que os livros sejam o motivo da transformação; muitas pessoas PRECISAM transformar suas vidas e as mensagens em um livro podem ser uma grande ajuda neste processo. Um escritor que consegue transmitir mensagens VIVAS que, tocam e transformam a percepção e abrem novos universos ao ser humano, é, sem dúvida, alguém que merece respeito e admiração.
Vou fazer compras no supermercado. Andar pela cidadezinha hoje não me rejubila. Entro no mercado e me sinto, como em outras ocasiões, estranhamente agredida pelas placas de publicidade, pelos preços dos alimentos, enfim pela realidade material que me rodeia. Sei que não é necessariamente a "realidade" que é assustadora; é meu modo de olhá-la que faz com que ela se torne negativa. Respiro fundo e peço à Vida para conseguir VER o mundo de uma forma menos triste. Conheço este estado de fraqueza física e psicológica. Da mesma maneira que posso me perder no Caminho por não enxergar uma flecha, às vezes acontece de me perder nos caminhos de minhas emoções. No caminho de Santiago, "voltar" à trilha sinalizada permite chegar onde desejamos. No caminho da Vida, creio que é indispensável "voltar" ao entusiasmo para poder avançar.
Anoiteceu. Estou de volta ao refúgio. Preparo uma comida para mim na grande cozinha comunitária onde todos se encontram. Sento-me à mesa onde muitos outros estão sentados e converso com meus vizinhos de refeição. Dividimos um pouco daquilo que temos e lembro-me do que me disse Pierrot a respeito da sensação de "estar em família".
Começamos a conversar sobre assuntos típicos entre peregrinos: sobre roncos sonoros que atrapalham o sono de muitos durante a noite, sobre bolhas nos pés e dores no corpo. Um simpático senhor francês me pergunta:
- E você, onde tem dores?
Reflito por um momento e respondo:
- Nos ombros.
Embora eu tenha deixado parte do peso graças à ajuda de Pierrot, a mochila voltou a me pesar hoje. Levo ainda peso desnecessário mais sei também que minha mochila não é de boa qualidade. Hoje entendo que uma boa mochila que se adapte à anatomia do corpo é essencial, e não é o caso da minha. Como no momento não tenho a possibilidade de trocar de mochila, continuo com esta. O senhor me diz:
- Com certeza a tua mochila está pesada demais como as mochilas de todos nós quando começamos o Caminho.
Balanço a cabeça afirmativamente. Temos a cumplicidade que têm todos os verdadeiros peregrinos entre si; sabemos que temos ainda muito para aprender.
- Outro dia - continua ele - eu estava conversando com um peregrino e chegamos à conclusão que nossas mochilas pesam tanto porque levamos nelas nossos MEDOS. Medo de ter frio, medo de ter forme, medo de não ter.. Para termos a mochila mais leve temos que nos libertar primeiro de nossos medos, depois jogamos naturalmente o peso fora. Na verdade, caminhando nos damos conta de que precisamos de muito pouco para viver.
O que ele me diz me toca. Uma mulher, acompanhando a conversa, completa:
- Também penso que as dores no corpo refletem uma mensagem. Você tem dores nos ombros, ou seja, como ele diz, pode estar carregando medos ou dores interiores que te pesem. Outra pessoa que como eu tem um grande problema com os pés pode estar recebendo um aviso da "base" emocional. Como os pés são a base que sustenta o corpo, ter problemas com eles me força a diminuir o ritmo e a pensar onde estou errando. Sei, por exemplo, que tenho tendência a fazer as coisas muito rapidamente, a querer ser perfeita demais em tudo que faço, e sinto que tenho que mudar isto.
Lembro-me de meu mal-estar no supermercado. Talvez um dos motivos para este mal-estar fosse o medo de não ter suficiente dinheiro para acabar a viagem. Lembro-me também da costumeira sensação de peso e desânimo que no dia a dia muitas vezes me desmotiva, fazendo-me acreditar que a vida não tem sentido, deixando-me triste. De repente me dou conta que tenho que combater meus medos e que esta viagem está me ajudando nisto!
Me despeço revigorada dos peregrinos com quem estou conversando e começo a lavar a louça que sujei.
Quando me deito na cama esta noite, minha mente começa como sempre a viajar e a sonhar. Sou uma sonhadora irremediável! Penso na holandesa que veio caminhando sozinha desde a Holanda. Que força incrível deve ter esta mulher!
Penso na história que me contaram a respeito de uma mulher que está fazendo o Caminho em uma cadeira de rodas, empurrada pelo marido. Ela tem câncer terminal nos ossos. De vez em quando ela se levanta e caminha um pouco até se cansar e ter que sentar novamente. Os médicos disseram que ela é louca de fazer esta viagem. No entanto, segundo as pessoas que a conheceram, ela diz estar muito feliz de enfrentar esta aventura, que será, talvez, a última para ela. E ela afirma que se sente melhor desde que começou a viagem!
Abraço Pimpa, meu travesseirinho que levo sempre comigo, um presente feito por minha avó que me acompanha desde a infância. Me sinto novamente como uma menina diante da grandeza de tudo aquilo que vivo. Aperto os olhos com força para não sentir a dor da saudade daqueles que amo e que hoje estão tão distantes.