15 e 16 de outubro de 2002
Acordamos cedo depois de uma noite bem dormida, muito diferente de outras ocasiões quando geralmente não conseguíamos conciliar o sono por conta da tensão e preocupação com a viagem do dia seguinte. Essa tranqüilidade credito à experiência adquirida no ano passado, pois sabia que esse dia seria longo e o seguinte também! Seriam 35 longas horas acordados, mas nada que afetasse nosso bom humor, pois as dificuldades inerentes ao Caminho forçosamente começariam a partir do momento em que apagamos as luzes de casa e fechamos a porta! Com céu nublado, me veio logo à mente que não veríamos Florianópolis lá do alto. A cidade, mesmo à noite, é linda demais, com as areias das praias iluminadas pelo luar, contornadas pelas montanhas e, adornando tudo, as luzes das avenidas, ruas e casas. As nuvens "encobririam", com toda a certeza, esse quadro!
Precisamente às 17 horas o Nélio, um velho motorista de táxi, amigo nosso, apareceu para nos levar ao aeroporto Hercílio Luz. A Claudinha, que habitualmente nos levaria, não pode nos apanhar por causa do trabalho em sua loja. Bom para o Nélio, que faturou essa! Já em pleno vôo noturno para São Paulo, Floripa foi ficando para trás. Dei uma rápida olhada pela janela mas só vi uns poucos e diminutos pontos de luz entre as nuvens! Decididamente, meus pensamentos se voltaram a partir daí para os momentos que nos aguardavam adiante! Sentia no peito uma sensação de liberdade, de despreocupação com a vida, de leveza, de sonho e aventura; acho que é por isso que gostamos tanto de viajar. Os pensamentos vagavam pelas lembranças de muitos anos atrás quando viajávamos com nossas filhas na época em que ainda eram dependentes de nós! Nesse momento, gostaria que estivessem conosco! Mas a realidade agora era outra, eu estava feliz e só com a Sônia e contente por saber que ela, ali ao meu lado, iria ser a maior beneficiária da viagem, pois penso que a rotina do dia a dia e a vida sempre foram menos generosas com ela; por isso, era merecedora, mais do que eu, de todos aqueles momentos bons! Depois de um rápido lanche no avião, pousamos em São Paulo. Ficamos andando de um lado para o outro no imenso saguão do aeroporto de Guarulhos e atentos a tudo, principalmente ao monitor que indicava a hora do vôo para Madrid. Nas mais de duas horas que ficamos aguardando, evitamos sentar por mais de uns poucos minutos, pois teríamos que ficar confinados numa poltrona apertada por um tempo que ultrapassaria a dez horas! Essa era a parte mais dura de toda a rota até Santiago, tanto na ida como na volta; não havia, por motivos óbvios, como contorná-la!
Os alto-falantes anunciaram a autorização para embarque e lá fomos nós enfrentar uma longa fila entre os mais de 300 passageiros com o mesmo destino que nós! Desta vez, deixando qualquer stress de lado e bastante calmos, não fizemos questão de sermos logo os primeiros a entrar no avião. Sabíamos que os procedimentos de acomodação dos passageiros eram algo demorados, portanto não tínhamos pressa! Não foi entre nós, sempre unânime essa postura, pois a Sônia, mais "elétrica" que eu, a toda hora se preocupava com os mais variados detalhes, como atenção com os documentos, os bilhetes das passagens, os horários, as pessoas à volta, os lugares das poltronas, etc. Mas tudo ia se acertando, cada coisa no seu tempo. Eu estava atento a tudo, só que evitava a todo custo me estressar demais. Sempre achei que é a partir de nós mesmos que se inicia o processo de cura dessa "doença" moderna, e viajar descontraído, faz parte desse processo! Deixando essas considerações de lado, pois são muito pessoais, acabamos nos acomodando nas poltronas do avião; de vez em quando dava uma olhada em volta para "avaliar" os companheiros de vôo que teria por longas horas! Temia, por mim e pela Sônia que uma criança chorona e irrequieta se sentasse ao lado ou muito próxima; acho que esse é o temor de todos que viajam!
Já estávamos com pouco mais de 3 horas de vôo, e nessa altura, a maioria dos passageiros já cochilava, outros simplesmente ressonavam com alguns decibéis a mais, e ainda outros como nós, não conseguiam dormir e conversavam em voz baixa. Eu sempre gosto de observar, nas viagens longas, o comportamento das pessoas e é nessas ocasiões, quando estão desarmadas, que vejo como, no fundo, somos todos muito parecidos, humanos, sem máscaras, e ali, vencidos pelo cansaço e o sono, todos éramos iguais! Tentamos por diversas vezes dormir, mas não encontramos sequer uma posição favorável. Já estava cansado de ler o jornal do dia, a "manjada" revista de bordo, etc. O jeito era relaxar o corpo e deixar os pensamentos soltos, vagando! Chegamos a Madrid sem termos dormido um minutinho, mas, o processo de desembarque e as providências que teríamos que tomar dali prá frente nos deixaram bem espertos. Permanecemos por mais de uma hora e meia na fila da alfândega. Era preciso carimbar os passaportes, depois, ainda tínhamos que pegar as mochilas na esteira e, em seguida, procurar o guichê da Ibéria para comprar as passagens para Pamplona. Já eram quase 16 horas (12 h no Brasil) do dia seguinte quando o nosso avião decolou, num vôo de quase 1 hora até aquela cidade. Logo que chegamos, telefonei para o Sr. Jesus, o mesmo que, no ano passado, nos levou a Saint Jean(França). Acertamos o preço ( 28 euros), que achamos caro, mas justo. Estávamos chegando cada vez mais próximo do ponto de partida do Caminho e a sensação de estarmos ali novamente revivendo as mesmas emoções era algo difícil de descrever, e essas emoções ainda iriam se multiplicar pelas semanas seguintes ao pisarmos outra vez por caminhos, trilhas, florestas, pueblos, cidades, que de forma efêmera havíamos conhecido.
Roncesvalles, está situada no Baixo Pirineus, na Região da Navarra, no chamado País Basco. Chegamos lá já anoitecendo e famintos. Procuramos o pequeno hostal já nosso conhecido. Havia vaga e não tivemos problemas para pernoitar, apenas tínhamos que ir nos acostumando novamente com o jeito de ser de parte do seguimento de comerciantes ou donos de hotéis, que por alguma razão, seja cultural ou outra qualquer atendem de forma um tanto seca e ríspida os hóspedes e turistas. Muitas vezes durante as caminhadas fomos confundidos como se fôssemos peregrinos franceses. Desconheço qualquer animosidade que possa existir entre estes e os espanhóis. A forma estranha de nos tratar por parte dos anfitriões penso que seja por puro preconceito contra os estrangeiros! Ou então é o jeito deles, ou seja, uma questão cultural e ponto final. Temos que aceitar, afinal estamos no seu país!
É comum os escritores, talvez por questões de marketing, omitirem, em seus livros, detalhes negativos sobre o Caminho de Santiago(ou qualquer outro, sempre há!), mas, na minha opinião, não é uma atitude eticamente correta, pois pode redundar sempre em desinformação e perigo para com o leitor interessado em percorrê-lo, como terei oportunidade, mais adiante, de narrar um episódio que aconteceu conosco quando subíamos o Cebreiro.
O cansaço tomou conta de nossos corpos depois das longas horas sem descanso, contudo, paradoxalmente, continuávamos "acesos", de modo que deixamos as mochilas no quarto do hostal e descemos até o bar. Lá fizemos nossa primeira refeição depois de muitas horas; comemos bocadilhos acompanhados de cerveja de pressão (chope, para nós, brasileiros) e refrigerante. Antes, quando chegamos com as mochilas, fomos alvo da curiosidade por parte de um grupo de jovens sentadas em volta de uma mesa redonda. Ao nos verem, vimos que começaram a cochichar entre si e a nos olhar sem discrição alguma. Fingimos não perceber! Mas continuaram, assim, também quando descemos para fazer o lanche e sentamos na única mesa vaga, ao lado. Será que nunca tinham visto peregrinos fazendo a trilha? Ou será porque éramos simplesmente um casal e, acredito, isso, lá, sempre suscita curiosidade...? Subimos em seguida para o quarto e ficamos os dois fazendo um balanço da viagem até ali; comentamos como em algumas horas tínhamos deixando nosso país, tão distante, para trás, e, agora, o único elo com ele era a imagem que tínhamos na mente, de nossos familiares, amigos e da cidade que adotamos de coração - Floripa!. Esvaziamos as mochilas para rearrumarmos as mesmas com os pertences de cada um separadamente. Pouco tempo depois já estávamos dormindo. Lá fora, uma chuva fina começara a cair!