Livro Completo
Puente Y Hospital de Órbigo a Astorga - 17,2 km

10 de novembro de 2002


Apesar da noite mal dormida, levantei de bom humor com a Sônia já andando prá lá e prá cá pelo quarto, tentando arrumar nossas tralhas, etc. O Caminho dessa vez, era um trecho que desconhecíamos, pois em 2001 tomamos o ônibus direto de León para Astorga por causa da nevasca que caíra na véspera. Não queríamos arriscar, naquela ocasião, caminhar sobre dois a três palmos de neve, ou mais! Mas neste ano, o tempo estava completamente diferente. Fazia frio, chovia quase todos os dias, mas em apenas 3 a 4 vezes a temperatura baixou de zero grau ou perto disso! Era excitante a expectativa de trilhar por caminhos desconhecidos; eu estava super animado. A Sônia também! Aliás, de vez em quando, ela se virava para mim e dizia; " Está acabando!" Ela não queria voltar tão cedo para o Brasil, para a rotina do dia a dia! Nessas horas, eu tentava melhorar seu astral, dizendo que haveria "muitos caminhos" em nossas vidas! Notava algum brilho em seus olhos toda a vez em que eu acenava com essa possibilidade! Bem, pagamos a diária (25 euros) e fomos embora do hostal. Faltavam dez minutos para as nove horas.

A temperatura, agradável, nos brindava com nove graus! A Sônia reclamou que eu apertara demais as tiras da sua mochila e mal saímos à rua tivemos que parar para eu ajustá-las! Pegamos a direção da esquerda, na carreteira, em seguida outra vez à esquerda por uma grande avenida e uns 700 metros adiante tornamos a virar à esquerda. Tínhamos duas opções: Ou ir margeando a carreteira, em frente, com seu infernal movimento de veículos, através de um "arcén" ou seguir, à direita, pelas trilhas no meio de bosques e plantações, o que alongaria o percurso em mais um quilômetro. Escolhemos esta última. Vimos um peregrino, seguindo à nossa frente, no meio do nevoeiro, indo em direção à carreteira!

O Caminho é como a vida: Cada um de nós escolhe, ao chegar à idade adulta, o seu próprio rumo, só que nem sempre se faz a melhor opção! O nevoeiro cada vez mais denso, nos causava alguma apreensão, pois ouvimos por diversas vezes o ruído de tratores bem próximos! Alguns passaram por nós tirando fino. Nesse trecho caminhávamos, com névoa e tudo, em ritmo bom. Apesar de não estar chovendo, o cabelo da Sônia ficou todo molhado e assim permaneceu por umas 2 a 3 horas. A estradinha de barro e pequenas pedras não eram obstáculos para os nossos condicionados joelhos, pernas e pés! Já estávamos acostumados a enfrentar trilhas bem mais rústicas! Atravessamos, sem parar, a primeira vila. Em seguida, quando nos aproximamos da segunda vila, ainda no meio da névoa, ouvimos o som maravilhoso de um coral vindo da igreja. Os sinos repicavam em alto som. Como era domingo, imaginamos que estava sendo realizada ali uma missa especial. Talvez estivessem comemorando alguma boda ou coisa parecida! Desviamos um pouco da rota e fomos até lá. Estranhamos a ausência de pessoas por ali, mas resolvemos entrar no templo por pura curiosidade. E surpresa! Ele estava totalmente vazio! Era uma "broma", como disse a Sônia! O som do lindo "coral" e dos "sinos" vinham de um aparelho eletrônico instalado no "coro" da igreja! Um tanto "decepcionados", demos meia volta e seguimos adiante, atravessando a vila.

Apenas um senhor caminhava pela rua deserta. Depois, ouvimos o som insistente de uma buzina, e quando chegamos mais perto vimos tratar-se da "van do pão"! Pouco depois, começamos um sobe e desce por pequenos bosques, bem diferente da planura da região de Palencia, que atravessáramos recentemente. Mais uma vez ouvimos o barulho de armas de fogo; eram caçadores de fim de semana e seus inseparáveis cães. Os vimos em grande quantidade nesse dia, e novamente nossos sentidos ficaram alertas contra o perigo que representavam, pois tivemos que nos aproximar bem deles para seguir adiante.

Colinas e mais colinas foram se sucedendo numa beleza ímpar, mas a mão do homem, dessa vez, ajudou a embelezar a natureza com o cultivo de imensos pomares. Houve um momento em que passamos por chão coberto de maçãs. Eram tantas que se tornava impossível não pisoteá-las! Resultado: Minha mochila ficou 2 quilos mais pesada com a "colheita"! Mais adiante, havia um trecho da estradinha alagado e encharcar as botas era tudo que não queríamos! Por sorte havia um pequeno tronco parcialmente mergulhado e atravessado. Dei um pequeno salto até ele, depois mais outro e atingi o outro lado. Pedi para a Sônia fazer o mesmo, mas segurando na minha mão logo que desse o primeiro pulo e depois a mesma coisa quando fosse dar o outro! Tudo acabou bem e pudemos seguir, felizmente, com as botas secas. Passamos antes por algumas vilas sem nos determos, a não ser para batermos uma foto ou outra. Villares de Orbigo e Santibañez de Valdeiglesias eram duas delas. As setas amarelas, como sempre, continuavam nos indicando a direção a seguir! Minhas fitas amarelas também faziam um pouco esse papel, principalmente quando havia uma distância maior entre uma sinalização e outra! Já as tinha colocado em boa quantidade, mas lamentei não possuir o suficiente até chegarmos a Santiago!

Algum tempo depois chegamos ao alto de uma colina onde pudemos ver um pouco abaixo a vila de San Justo de la Vega, e 3 quilômetros mais distante, no meio do vale a cidade de Astorga, com sua imponente catedral! Na descida para San Justo, um senhor de idade avançada nos cumprimentou de forma bastante simpática. A Sônia falou qualquer coisa em espanhol e ele, sorrindo, afirmou que ela era brasileira. A Sônia perguntou como ele descobrira sua nacionalidade se praticamente todos que nos encontravam pensavam sermos franceses! Ele simplesmente respondeu que o sotaque dela era inconfundível! Sorrimos e depois de elogiarmos seu espírito observador completamos a descida entrando na cidade. Percorremos uma grande avenida que atravessa a cidade de uma ponta à outra.

Já estávamos com fome e decidimos almoçar por ali, mas não encontramos nenhum restaurante. O jeito era prosseguir e procurar um restaurante em Astorga, uma cidade bem maior. Saímos de San Justo através de uma ponte ou viaduto, não me recordo. Durante aproximadamente uma hora caminhamos por uma trilha paralela à carreteira, (dica de uma senhora que cruzou conosco e que gentilmente parou para responder à nossa indagação) até atingirmos uma extensa avenida já dentro de Astorga. Por sorte vimos logo um restaurante, ainda bem longe do centro da cidade e lá almoçamos. Felizmente fomos atendidos com a maior cordialidade tanto pelo garçom como pelo dono do estabelecimento. A pausa foi boa, pois a Sônia já estava se "arrastando" conforme ela sempre dizia todas as vezes em que estava muito cansada!

A cidade fica no alto de uma colina encravada no vale, e assim, após o almoço, andamos até o final da avenida, dobramos à esquerda, em seguida, à direita, iniciando a subida de uma ladeira íngreme ("porrada final do santo"). Já no alto, passamos por escavações arqueológicas, protegida com perfis de aço e vidro. Ficamos espantados ao lermos, numa placa, que se tratava de uma casa romana datada do ano 80(século um) da era cristã! Eu já estava meio perdido e não me lembrava como chegar ao hostal San Izidro, que já conhecíamos. Atravessamos uma praça, que a Sônia reconheceu, mas, mesmo assim, resolvi perguntar a umas jovens que conversavam sentadas num banco, a direção da outra saída da cidade, onde sabíamos, se localizava o hostal. Elas indicaram, rindo, a direção oposta da que íamos! A Sônia, ficou um pouco contrariada, pois tinha certeza de que se lembrava de como chegar até lá, e, porque estávamos indo na direção certa. Tive que "tirar meu chapéu" prá ela, e desculpar-me por duvidar por instantes de sua memória! Ela foi inclusive dizendo sem hesitar : "Vamos agora por aqui, depois vamos dobrar ali, e em seguida vamos seguir em frente até o final, etc."

Ao chegarmos ao hostal, como na maioria das vezes, tivemos que entrar pelo bar e indagar se havia vaga. Depois de recebermos as chaves do quarto, sem que precisássemos exibir os passaportes, subimos dois lances de escadas e literalmente tiramos os pesos das costas! Bem mais tarde, e depois de um bom descanso, desci ao bar e comprei algo para comermos à noite; aproveitei também para carimbar nossas credenciais. Sem calefação e debaixo de grossos cobertores, adormecemos mais cedo que de costume, pois além de não haver televisão no quarto a Sônia estava "moída"!