29 de outubro de 2002
Pela manhã, ao abrir a janela do nosso quarto, que dava para o pátio interno, pude ver no parapeito da outra janela do quarto da Maryse e Roger suas botas secando. Era sinal de que ainda não haviam partido. Pensei em ir até eles para me despedir mais uma vez! Não fui, claro, só iria incomodá-los àquela hora! Desejei mentalmente boa viagem de volta para os dois. Foram poucos dias de convívio, mas tanto a Sônia como eu gostamos muito deles. Houve mesmo uma certa sintonia entre nós! O tempo lá fora era um convite para a caminhada, pois o céu azul e a temperatura de 12 graus era tudo que queríamos! Atravessamos um enorme corredor, passamos sem fazer barulho em frente ao quarto dos nossos amigos e tomamos o elevador. Ao chegar lá embaixo na portaria não encontramos ninguém para fazer o pagamento. Tivemos que aguardar alguns minutos até que aparecesse a freira responsável. Logo que ela apareceu perguntei pelo desconto que davam aos peregrinos e obtive como resposta, que o abatimento era só para a refeição. Quando lhe afirmei que em 2001 estivera ali e o benefício tinha sido inclusive sobre os pernoites ela argumentou que aquela regalia havia acabado visto que os preços tinham sido mantidos ao não fazerem, como a maioria, que se aproveitou da troca da moeda para majorá-los! Tive que engolir a seco aquelas palavras! Era o dinheiro, como sempre, falando mais alto! Como estávamos na parte moderna da cidade, a retomada do Caminho era pela antiga; entramos numa extensa rua ou avenida, sei lá, seguindo na direção, mais uma vez, da torre da igreja.
Quando se entra em uma cidade de porte médio ou grande (padrões espanhóis, claro!), a coisa mais comum é perdermos de vista as setas amarelas. E, para encontrá-las, só mesmo perguntando aos moradores locais! Não pelas setas, mas pela direção da próxima cidade do Caminho. Foi o que fizemos. Quase no fim da extensa avenida, nosso desconfiômetro acendeu uma luz amarela. Daí, meio perdido, pedi informações a um homem que estava passando naquele momento por nós. Para nossa grata surpresa ele deu meia volta e pediu que o seguíssemos! Estávamos fora de rota por uns bons 500 metros! Com um muchas gracias, de verdade agradecemos-lhe efusivamente.
Uma lição importante no Caminho: Muitas vezes, por trás de um rosto pouco simpático e acessível, encontramos pessoas desprendidas e dispostas a ajudar-nos. Já no rumo certo, bem descontraídos, atravessamos uma enorme ponte sobre um leito de rio praticamente seco. Mais uma vez constatamos esse fenômeno negativo nas regiões por onde passamos, ou seja, a derrubada de florestas por centenas de anos, agora sendo agravada pela agricultura intensiva , acarretando a diminuição acentuada dos índices pluviométricos e reduzindo, assim, drasticamente a vazão dos rios! Não gostamos de ver esse quadro em que a natureza, agredida, vai paulatinamente sendo degradada até o desfecho que todos conhecemos: A desertificação de grandes extensões de terra! Foram esses os meus pensamentos enquanto atravessava aquela ponte e olhava o fio d´água lá embaixo! Andamos mais algumas centenas de metros pelo acostamento da carreteira, mas logo em seguida entrarmos por um arcén (caminho, geralmente de terra, que segue paralelo e junto à carreteira) durante pouco mais de quatro quilômetros.
Então, tivemos que fazer uma opção: Ou seguíamos perigosa-mente pelo acostamento da carreteira, pois havia um trecho do arcén interrompido, ou daríamos uma volta de mais 1300 metros entrando parcialmente em Granón e tomando o arcén mais adiante. Optamos por esta última! A Sônia não queria correr riscos! Ainda, quando estávamos nesse desvio, vimos um peregrino, ao longe, indo pelo acostamento. Julgamos ser nosso já conhecido alemão por causa da altura e das roupas escuras! Ao passarmos, depois, em frente à enorme igreja da cidade, aproveitamos para bater uma foto da Sônia. Ainda demos uma rápida expiada no interior do templo. Como acontece na maioria das igrejas da rota, quase todas mal iluminadas, o aspecto do seu interior era muito lúgubre não nos animando, assim, a ficar ali senão por uns breves segundos! Rapidamente deixamos a cidade, retornamos para o arcén, e, menos de 1 quilômetro adiante, entramos numa estradinha de saibro, com a carreteira se afastando do Caminho. Recordamos, com saudades, do nosso encontro com a Renée, a amiga canadense, em 2001, exatamente nesse trecho. Recordamos também, que estávamos nos sentindo um pouco solitários, quando ela surgiu atrás de nós assobiando e cantando. Durante todo o ano de 2002 trocamos algumas correspondências com ela e me lembro de que, na véspera de nossa viagem para a Espanha, nos enviou e-mail pedindo para irmos contando tudo que fosse acontecendo durante nossa aventura! Embora não pudesse estar presente, queria fazer o caminho novamente! Esses pensamentos nos acompanharam durante algum tempo, nos ajudando a atravessar esse trecho árido e um tanto monótono!
Após subirmos uma ladeira avistamos a placa indicativa do limite de duas províncias: La Rioja e Burgos. Íamos avançando pelo caminho, com o entusiasmo igual de quando começamos em Roncesvalles, mas, ao cumprir mais essa etapa, quando acabamos de deixar as terras planas e suas imensas parreiras para trás, uma sensação de finitude me invadiu. Sabia que aqueles momentos singulares de paz, felicidade e emoção não iriam durar para sempre! Claro que não sentia nenhuma tristeza, era só mesmo uma constatação de que a vida é feita de momentos e o que estávamos vivendo agora era simplesmente maravilhoso! Prosseguimos, mais adiante, por uma estrada plana e retilínea, quando aproveitamos para descansar junto à mureta de uma pequena ponte sobre um riacho. Havia ali uma placa de cimento pintada de branco que deveria servir para colocar algum aviso, sei lá, mas no lugar, apenas inscrições, recados dos peregrinos, etc. A Sônia escreveu uma saudação para a Claudinha e o Marco. Em cima da placa, deixei algumas nozes e amêndoas, sinalizadas com um pedaço de fita amarela, para os que passassem por ali e estivessem com fome vissem! Ao longe, os carros voavam pela carreteira como se fossem protótipos de fórmula um! Aliás, esse exagero nas estradas é um problema nacional por causa do elevado número de óbitos nos acidentes de trânsito! As estradas espanholas de um modo geral são bem construídas, conservadas e com traçado de poucas curvas o que induz muitos motoristas a dirigirem cada vez mais rápido! Depois dessa pausa, logo que reiniciamos, um pai com os dois filhos em suas bikes passaram, nos dando a certeza de que a cidade seguinte estava próxima! A Sônia, parou um instante e começou a escrever no chão, com a ponta do bastão a frase: Obrigado aos nossos amigos por sua amizade - Sônia e Zé.
Uma carreteira com movimento quase que exclusivo de caminhões corta Redecilla del Camiño. O restaurante da cidade fica do outro lado e ao tentarmos atravessar, um motorista com seu enorme veículo gentilmente parou para passarmos! Agradeci, levantando o bastão e balançando positivamente a cabeça! Afinal não é comum um caminhão parar na estrada para pedestre passar. Entramos no restaurante, onde havia uns dois a três homens bebendo junto ao balcão. Perguntamos ao proprietário se ainda dava para almoçar, pois já passava das 15 horas. Ante a resposta positiva e sisuda , mandou que a esposa nos servisse. Sentamos a uma mesa um pouco afastada. Enquanto esperávamos reparamos que havia uma foto enorme pendurada na parede em que aparecia uma roda de caçadores olhando para inúmeras e infelizes aves abatidas, no chão! Ao lado, também na parede, a cabeça empalhada de um javali; era o troféu mudo e triste coroando o final de uma bem sucedida caçada! Almoçamos rapidamente e saímos logo dali, ainda mais que enquanto almoçávamos os caminhões passavam em alta velocidade parecendo que iam entrar pela parede a qualquer momento!
Tornamos a atravessar a rodovia e prosseguimos por uma estrada de barro. No campo à volta, todo arado, onde recentemente havia plantações de batatas, um casal de velhos, colhia, provavelmente para sua subsistência, em duas grandes caixas, o que restou da colheita! Era o lado oposto da riqueza dos que possuíam aquelas terras intensivamente cultivadas! Às 17h10 chegamos a Castildelgado. O hostal, único da vila, fica a beira da carreteira e também é um parador de caminhoneiros. Fomos atendidos da mesma forma cordial como da outra vez em que estivemos lá! A vantagem é que além do restaurante e do bar no térreo, podia-se comprar mantimentos que normalmente os peregrinos precisam! Mesmo assim, ainda tivemos que perambular pelas ruas desertas à procura de uma padaria. Encontramos uma, mas fechada. Dei algumas batidas na porta até que apareceu o dono, um senhor gordo, meio mal humorado. Compramos alguns pães , esperando que ele fosse nos cobrar mais caro por termos perturbado seu sossego. Surpreendentemente isso não aconteceu! Mais uma vez o Caminho nos ensinava a não tirar conclusões precipitadas! Embora estivéssemos com sobra de energia, voltamos direto para o hostal, tendo cruzado somente por duas velhas senhoras e ninguém mais. Durante o dia a temperatura não passara dos 17 graus e nesse final de tarde um friozinho gostoso nos convidava para entrarmos debaixo das cobertas mais cedo! À noite, a TV local noticiava a esmagadora vitória de Lula nas eleições presidenciais, com o povo brasileiro saindo em massa às ruas para comemorar!