05 de novembro de 2002
A Sônia, como sempre, acordou mais cedo que eu. Mal abre os olhos já "pula" da cama. Eu, ao contrário, acordo, permaneço deitado por algum tempo não muito longo, faço alguns abdominais ainda na cama, depois me levanto, faço uns alongamentos e, por último, duas dezenas de agachamentos. Assim me sinto melhor, mais desperto para começar o dia. O meu "motor" esquenta lentamente, enquanto o dela parece já estar a todo o vapor no exato instante em que desperta! E assim, ali na frente da janela, já praticamente pronta para sair, só faltando pequenos ajustes nas roupas, etc. ela olha pela vidraça e constata que a chuvinha persistente dos últimos dias resolvera dar uma trégua.
A temperatura continuava fria: 7 graus! Cada um preparou seu desjejum, e enfiando os últimos objetos nas mochilas e depois, colocando o equipamento nas costas, descemos até o bar do hostal. Fiz o pagamento da diária acrescido de 10 euros, que foi o preço cobrado pelo dono para nos levar de carro até Terradillos! Achamos caro, mas não havia outra alternativa, pois era a única pessoa que podia nos conduzir até lá! Fomos conversando durante a curta viagem, quando ele se mostrou bem mais falador e simpático. Disse-nos que conhecia um pouco o Brasil, principalmente as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Santos, e que já tinha cruzado o Atlântico duas vezes.
Em poucos minutos chegamos; paramos na saída da cidade e, agradecendo pela prestação do serviço e pela gentileza de nos ajudar a retirar as mochilas da mala do carro, iniciamos a caminhada, ali, isolados, sem ninguém à volta, mas com a sensação gostosa de aventura, mesclada de tranqüilidade, paz e realização pessoal! O Caminho, diferentemente da véspera, seguia não por estradinha pedregosa, mas pelo "arcén" junto a uma carreteira paralela e pouco movimentada. Fomos batendo, de quando em quando, fotos perto das placas de sinalização e de alguns monumentos ou paisagens que gostaríamos de rever quando estivéssemos no Brasil!
Passamos por San Nicolás del Real Camino e recordamos que quando passamos por ela em 2001 levamos uma pedrinha da estrada como recordação! Contudo, neste ano de 2002, houve mudança de trajeto, quando, ao invés de seguirmos por entre as fazendas, fomos obrigados a continuar seguindo paralelamente à carreteira. Não nos agradava as constantes mudanças que o Caminho vinha sofrendo ultimamente. A poesia da caminhada pelas estradinhas, plantações , bosques, florestas, trilhas, se ressentia inexoravelmente e mais uma vez, com essas alterações. Na saída da cidade, curiosamente, a rua passa dentro de um riacho. Não tivemos dificuldades na travessia pois não havia chovido forte nos últimos dias e a manilha que passava por baixo dava conta da vazão, deixando apenas um filete de água correndo por cima. Fiquei imaginando como seria complicado se o riacho estivesse mais cheio! Quando, algum tempo depois, já havíamos retornado para o "arcén" e estávamos descansando sentados num bloco de cimento, vendo máquinas enormes recapeando a carreteira, um peregrino espanhol, aparentando 25 anos, trajando vestes simples e surradas passou; antes, conversou uns minutos conosco e disse que ia fazer todo o Caminho, por isso andava em média 33 a 34 quilômetros por dia! De fato, suas passadas eram firmes e rápidas e pouco depois que se despediu de nós sumiu de nossas vistas! A Sônia reconheceu-o como o mesmo que vira na véspera, às 6horas da tarde, saindo de Calzadilla!
Mais para frente, quando estávamos próximos a Sahagún, atravessamos a carreteira, (como opção) e, continuando por uma estreita trilha descampada, fomos visitar uma antiga ermida erigida no século XI. Para chegar lá, passamos sobre uma pequena ponte construída com pequenas pedras brancas sobre dois arcos, onde a Sônia bateu uma foto minha empunhando o bastão sobre o peito! Ela também bateu outra foto ao lado da ermida, para vermos depois os detalhes da construção. Nesse dia, só vimos três peregrinos e confirmamos mais uma vez duas coisas: Que à medida que os dias vão se sucedendo eles vão rareando e que definitiva-mente os brasileiros, neste ano, sumiram da rota, bem diferente de 2001.
Com temperatura de 17 graus chegamos a Sahagún. Atravessamos um pequeno viaduto sobre a linha férrea (a primeira que vimos até esse dia), dobramos à esquerda e, lembrando dos lugares por onde passamos da outra vez, não tivemos maiores dificuldades em encontrar o nosso conhecido Hostal La Codorniz, numa rua bem próxima dali. Sem problemas de vagas ficamos num bom quarto. Dessa vez, não tivemos que subir lances de escadas pois o prédio era moderno e dispunha de "ascensor". Chegamos bem antes da hora do almoço, a ser servido no restaurante do próprio hostal, e assim, com toda a calma, pudemos relaxar um pouco, pendurar algumas peças de roupas nos cabides para arejar, tomar uma ducha quentinha e espiar por instantes, pela janela, o movimento de carros e alguns poucos pedestres na rua em frente. Aliás, bem em frente também, fica o albergue de peregrinos, ostentando uma curiosa estátua em bronze de peregrino, na calçada. Dessa vez, mais tarde, fui eu quem ficou ao lado dela para a Sônia bater uma foto!
Depois do almoço, saímos para dar umas voltas. Encontramos a "internet" fechada, mas quando íamos embora o dono apareceu. Logo o reconhecemos. Os monitores ficavam numa pequena sala repleta de livros espalhados nas prateleiras, nas mesas, misturados a peças de computador, tudo muito apertado. Por 3 euros à hora, ficamos ali durante esse tempo enviando e lendo mensagens por e-mail. Recebi de minha irmã a notícia de que vagou o apartamento da Ordem Terceira, na Tijuca, que minha mãe tanto queria; escrevi para a Gabi, combinando mais uma vez nosso encontro em Barcelona, dando o telefone e o nome do hotel de lá, a localização, etc.e, ainda, o que fazer caso houvesse um desencontro! Da Claudinha e Marco recebemos a notícia de que caíra em Floripa um verdadeiro "dilúvio" por quatro dias e que a obra da casa deles atrasara um pouco por causa disso!
Depois fomos a uma "panadería" comprar "pão pecado", iogurtes, leite, etc. Sahagún, como toda cidade medieval, possui muitas ruas sinuosas e estreitas, principalmente na parte mais antiga. Vimos um único vestígio da época do domínio mouro: Uma torre bem alta construída em arcadas superpostas, bonita, rivalizando em altura com a torre da igreja local! Retornamos ao hostal no final da tarde, já um pouco cansados e sem mais nada para ver que nos interessasse. Engraçado, como tudo nos parecia familiar, apesar de, há um ano atrás, termos permanecido ali não mais que 15 horas!