22 de outubro de 2002
Um dos grandes achados do Caminho foi a nossa descoberta de como evitar as temíveis bolhas, que nove em dez peregrinos têm, principalmente nos primeiros dias de caminhada. Consiste em colar generosos pedaços de esparadrapos em pontos sensíveis dos pés, antes que qualquer bolha apareça. Fizemos isso desde o primeiro dia, em Roncesvalles e nenhum de nós teve sequer um probleminha nesse sentido. Gastamos, é verdade, uns três rolos de tamanho razoável, mas valeu à pena! É preciso ter paciência e despender todos os dias em torno de cinco minutos ou um pouquinho mais com essa rotina, mas é melhor isso do que ver nascer no pés as ditas bolhas e ficar furando-as mais de uma vez e seguindo conselhos duvidosos que é a tal costura, recomendada pelos entendidos e que são mencionados em praticamente todos os livros que lemos sobre Santiago.
Iniciamos a jornada com mais um dia de chuva. O índice pluviométrico desses primeiros dias já superava o de todos os da caminhada do ano anterior. Preferíamos andar sem chuva, claro, até por questão de comodidade e conforto, pois tirar alguma coisa de dentro da mochila com a capa envolvendo-a era mais trabalhoso; depois, a lama grudada nas botas sujava os corredores e quartos dos hostais; tínhamos que gastar algum tempo limpado-as e no meu caso, engraxando-as. Confesso que esse era um capricho um tanto raro e excêntrico entre os peregrinos, mas eu gostava de sair pela manhã e iniciar as trilhas com as botas brilhando! Chegava ao fim da jornada, parecia que não tinha caminhado, pois a água não penetrava no couro e bastava passar um papel macio (higiênico) para ficarem como novas! As botas da Sônia eu não engraxava porque eram confeccionadas com um couro crespo, daí, durante muitas noites tínhamos que deixá-las junto ao aquecedor do quarto para secá-las. Aliás o aquecedor era pau pra toda obra pois secávamos também as roupas, meias, esquentávamos o leite para a Sônia, descongelávamos a manteiga dura que comprávamos nas tiendas e também servia para secar as amêndoas e castanhas que colhíamos pelo Caminho!
Bem, nesse dia andamos uns oito quilômetros acompanhados de um peregrino espanhol, falador, jovem, de nome Gabriel. Era morador da cidade de Málaga e estudava História Medieval. Lutava com alguma dificuldade, pois ganhava relativamente pouco como empregado da limpeza urbana em sua cidade. Por suas palavras, demonstrava uma certa antipatia com a monarquia do país, pois achava que a realeza era sustentada com parte de seu minguado salário! Mas não traduzia esse descontentamento em amargura nem em qualquer traço de revolta em seu rosto, que estampava sempre um sorriso por menor que fosse! Lamentamos nosso esquecimento de pedir-lhe o endereço para enviar a foto que a Sônia bateu dele e de mim juntos!
Durante esse percurso, de novo, apareceu o grupo de peregrinas faladoras, e mais uma vez, ao passarem por nós, saudaram com o já repetido adios! Eu respondia educadamente com um buenos dias e nada mais, mas a Sônia se irritava com as mulheres pois elas ficavam animadas demais ao passarem por mim! Com razão, pensei, mas fazer o quê? A caminhada nesse dia foi dura, com muito sobe e desce, terreno muito acidentado e de quando em quando muita lama. Em Cirauqui, passamos por uma ponte romana em ruínas e por uma estrada também romana calçada com largos pedaços de pedra já desgastados e lisos pelo uso e pelo tempo! São freqüentes os traços e influência das culturas romanas, mourisca e francesa no povo espanhol, em seu modo de falar, em sua aparência física, na sua arquitetura, etc. Chegamos a Estella ao entardecer, mas sem chuva. Lembrávamos que tínhamos que passar também por cima de uma ponte em arco. A sua curvatura era tão pronunciada que de ambos os lados havia uma escada para os pedestres. Ficamos na dúvida em que direção tomar para o centro da cidade, então pedimos informações a um habitante local. Logo ele reconheceu nosso sotaque e foi dizendo: Alô, brasileiros? Eu perguntei como ele havia tão rapidamente descoberto nossa nacionalidade, e ele com um sorriso maroto e simpático foi logo dizendo que era português e que já tinha ido várias vezes ao Brasil!
Agradecemos pela informação e rumamos logo para o hostal Cristina, que já conhecíamos também! Como da vez anterior a proprietária, uma senhora viúva, nos atendeu com a mesma simpatia; ao entrarmos no quarto vimos alguns sinais de decadência: As portas das varandas emperradas, uma lâmpada ou outra queimada, aplique de luz do banheiro meio solto da parede, a pintura descascando, etc. Deduzimos que estava tendo dificuldades em manter em bom estado o seu hotel e ficamos com um pouco de pena dela, pois sabíamos onde isso tudo iria dar. Num futuro próximo teria que passar o negócio adiante para pessoas com talvez mais energia e cabeça que ela! Essas considerações foram logo esquecidas, pois tínhamos que abrir as mochilas, tomar uma boa ducha, procurar uma roupa mais fashion (risos) para andar pela cidade, e outras pequenas providências.
Depois de quase uma hora, descemos e fomos procurar um lugar para jantar. Atravessamos uma praça repleta de mães empurrado carrinhos com seus bebês, fato pouco comum nas cidades menores por onde passamos, e em seguida entramos num restaurante. Sentamos numa mesa de canto, perto da porta de entrada e de uma vidraça que dava para a rua lateral. No meio do jantar, a Sônia me chamou atenção ao ver passarem na rua a Maryse e o Roger! Tentei fazer sinal para eles, mas não nos viram. Gostaria que eles sentassem de novo conosco para conversarmos! Eles tinham uma coisa em comum com a gente: Não gostavam de ficar em albergues, pois estes não ofereciam, de uma maneira geral, o mínimo conforto e privacidade! Ficamos curtindo aquele momento gostoso, tranqüilo, com a Sônia sorrindo e eu sorrindo com seu sorriso. Ela disse que desta vez estava adorando muito mais o Caminho, em todos os sentidos! Que bom, pensei! Estávamos, os dois, fazendo pela segunda vez, algo que adorávamos e que nos enchia de satisfação, alegria e realização! O Caminho tinha isso de bom: Acordávamos cada dia com um objetivo, longe da rotina às vezes um pouco pesada do dia a dia no Brasil; conhecíamos pessoas diferentes à toda hora; havia sempre uma atmosfera de aventura em praticamente todos os momentos; os problemas eram apenas os que apareciam no dia e eram sempre muito resumidos e fáceis de resolver; era constante o contato mais íntimo com a natureza e suas nuances! Ficamos, cúmplices, conversando durante um bom tempo ali, naquela pequena mesa, o que nos deixaria uma grande e inesquecível lembrança daquele momento único! A Sônia estava feliz, eu também!