Livro Completo
Pamplona - Descanso

20 de outubro de 2002


Acordamos bem tarde em se tratando de peregrinos, mas tínhamos esse direito, afinal vínhamos desempenhando bem nosso papel nos dias anteriores, caminhando todos os dias, subindo por bosques, montanhas, debaixo de chuvas constantes e ventos gelados. Sem nenhum sentimento de culpa, fiquei preguiçosamente na cama até as 9h30. Entre nós dois, a Sônia é que conseguiu dormir melhor, por isso levantou mais cedo e ficou arrumando as coisas que deixamos espalhadas pelo quarto. Ela não consegue ficar como eu, acordada e simplesmente deitada descansando. Se não tem sono logo se levanta e vai fazer algo. Bem, nesse dia, domingo, as ruas da cidade estavam desertas pela manhã, então, tomamos nossa tradicional mistura de cereais, uma fruta ou outra, suco de laranja, iogurte, pão pecado, apelido que a Sônia arranjou pois não era nada parecido com o pão integral que faço em casa. Tratava-se de um pão de farinha branca cheio de deliciosos recheios e cremes doces! Pura fantasia para o paladar, claro! Os espanhóis conseguem fazer pães realmente deliciosos! Ah! Tinha também o tradicional café com leite, frio, pois o rabo quente que levamos não prestou para esquentar o leite, pois todas as vezes que o usávamos, invariavelmente ficava com uma crosta escura nas hastes metálicas.

Aqui, merece uma explicação: Rabo quente é simplesmente um pequeno aparelho com uma resistência elétrica no interior de umas hastes metálicas e que serve para esquentar ou ferver água, mergulhando-o no líquido! Só que a Sônia gosta de tomar leite quente, daí algumas vezes o usamos para isso, mas com duvidoso sucesso! Tínhamos que escondê-lo sempre pois se as arrumadeiras o vissem iriam reclamar junto à direção do hotel. Como o aparelho era de fabricação meio grosseira, pois foi comprado num um e noventa e nove, (loja no Brasil que vende artigos baratíssimos a esse preço,), quase nos causou um problema maior, pois no momento em que o mergulhamos na água e o ligamos, as luzes do quarto começaram a piscar fortemente e em seguida apagaram. Desliguei rapidamente aquele treco e o escondemos! (parecíamos crianças fazendo travessura). Liguei para a portaria do hostal e inocente perguntei se estava faltando energia, pois acho que o prédio ficou inteiramente sem ela. Disseram que iam tomar providencias para sanar o problema; minutos depois, tudo voltava ao normal.

Para evitar maiores problemas, resolvemos jogar fora o causador do curto! Descemos as escadarias e no primeiro latão de lixo encontrado na rua o deixamos lá. Mal nos afastamos dali, um senhor de aparência humilde se aproximou para pegá-lo. Depressa, fomos embora, receosos de que ele fosse nos delatar a um guarda de rua, sei lá, dizendo que éramos suspeitos de ter colocado um artefato de bomba no lixo e que deveríamos ser investigados, pois poderíamos fazer parte do ETA! Ficamos rindo do fato, depois, ao fazer um sem número de hipóteses sobre se realmente alguma autoridade viesse atrás de nós para explicações! Continuamos a andar pelas ruas sossegadas (àquela hora, é claro!) da cidade. Fomos, para variar, a uma Internet enviar e receber notícias de nosso pessoal no Brasil, e saber a quantas iam as prévias da eleição para presidente. Lula estava disparando nas pesquisas e somente um acidente de percurso o tiraria da vitória! Segundo as notícias, o Brasil exultava com a possibilidade de mudança na política econômica e social do próximo governo. Realmente muitas coisas teriam que mudar em nosso país. A esperança do nosso sofrido povo é grande! Nós concordamos inteiramente! O resto do dia foi de andanças e mais andanças pela parte antiga da cidade, acompanhadas de sol e temperatura suave o que nos deixaram de excelente humor!