Livro Completo
Pamplona a Puente la Reina - 23,5 km

21 de outubro de 2002


Às 8h:02 fechamos a porta do quarto, descemos dois lances de escadas e depositamos as chaves numa caixinha presa à porta que dava acesso ao restaurante no segundo andar. Ninguém da direção do hostal nos instruiu a fazer isso, mas observamos que outros hóspedes agiam assim! Bem, estávamos prontos para iniciar a longa e dura caminhada do dia. O tempo encoberto e a temperatura na casa dos 14 graus não estavam de todo ruim, embora o nosso desejo era que estivesse um pouquinho mais frio. A Sônia, que não suporta calor, torcia para que a temperatura nunca ultrapassasse os 10 graus, pois após essa marca ela se sentia desconfortável e logo ia tirando o anorak e o casaco de lã! Eu só começava a me incomodar quando estava se aproximando dos 15 graus. As mochilas serviam como agasalho para as costas, pois invariavelmente ficávamos com mesmas suadas com qualquer temperatura por mais baixa que fosse.

Saímos da parte velha da cidade pela Calle Mayor ; íamos prestando bastante atenção às setas amarelas, que nas cidades maiores constantemente desapareciam de nossas vistas; por causa disso, era comum vermos companheiros indo de um lado para o outro, sem rumo, com mapas na mão, parecendo seres indefesos! Também, nesse dia, não vimos, de início, aquele sinal amarelo. Não queríamos perder tempo, pois sabíamos que a saída da cidade era meio complicada. Então, deixamos de lado nosso ego inchado de peregrinos experientes, e pedimos auxílio ao primeiro guarda que encontramos. Solícito e educado ele indicou a direção que deveríamos tomar. Acompanhou-nos, para nossa surpresa, por algumas dezenas de metros até a esquina próxima para ter certeza de que havíamos entendido sua explicação! Percorremos ainda várias ruas e avenidas, atravessamos o monumental campus universitário e ainda tivemos uma pequena dificuldade nesse trecho, pois, ao pedirmos mais uma informação a um jovem universitário, não entendemos bem sua explicação e seguimos na direção errada; mas logo adiante retomamos o Caminho depois que uma senhora nos deu uma dica mais clara! Com isso, acabamos de atravessar toda a parte nova de Pamplona, que é maior do que imaginávamos e deixamos o perímetro urbano através de uma avenida movimentada. Saímos dessa via, descemos uma escadaria, caminhando, em seguida por uma estradinha de terra paralela e mais abaixo. Então, mais descontraídos, já com o ressurgimento das setas amarelas, seguimos por uma estrada em aclive, em direção a Cizur Menor.

Pouco adiante paramos uns breves minutos para descansar e beber água. Reparamos que a uns 300 metros atrás vinha um peregrino. É fácil reconhecer um peregrino de longe pelo conjunto que faz com a mochila e pela característica das passadas que são realizadas por impulsos do tronco para a frente e ligeiramente curvado! Dessa vez se tratava de um peregrino alemão, alto e calmo, com um meio sorriso fleumático. Foi difícil nossa comunicação pois falava inglês sofrível e com forte sotaque alemão! Contudo, era simpático e ansioso por se fazer entender! Acabamos batendo uma foto com ele, aliás, minha com ele, e a Sônia foi a fotógrafa da vez. Depois disso nos despedimos, mas durante um bom tempo ainda o vimos lá na frente, pois suas passadas eram ligeiramente mais rápidas. Mesmo sendo um casal, sentíamos alegria no encontro com outros peregrinos. Era reconfortante saber que outras pessoas estavam curtindo e fazendo a mesma coisa que nós, que não estávamos totalmente isolados. Sentíamos que havia, nessas ocasiões, uma espécie de elo sentimental entre todos, algo fraterno que inundava nossos corações com otimismo na capacidade humana de ver no outro um irmão, independente de qualquer outra condição!

Neste dia cruzamos com 7 peregrinos e mais um trilheiro excêntrico. Este último passou por nós puxando nada mais nada menos que um camelo. Esfreguei os olhos para me certificar de que era real aquela visão. Jamais tinha conhecimento de alguém fazendo o Caminho ou uma simples trilha puxando um bicho daqueles. Acrescente-se ainda que no lombo do animal ia uma pequena mochila! Nada de carga pesada, muita bagagem, etc. Quando passou por nós mal balbuciou um cumprimento, contrariando um hábito simples mas sempre amistoso e comumente efusivo do verdadeiro peregrino. Chegamos à conclusão de que se tratava de pessoa que buscara na excentricidade colorir seus dias. Bem, cada qual escolhe sua maneira de viver e nós não tínhamos que ficar analisando nada, mas, uma velha mania nossa, fazia com que pensássemos como dois psiquiatras em permanente plantão! Mais adiante, um casal de franceses de meia-idade nos alcançou. A senhora, que mais tarde soubemos se chamar Maryse respondeu risonha ao nosso cumprimento mas o marido apenas esboçou um leve sorriso. Chamava-se Roger e tinha 72 anos. A Maryse com seus 65 anos tinha disposição de causar inveja a muitos peregrinos bem mais jovens. Quanto ao Roger, a mesma disposição ou talvez ainda mais que a esposa. Após trocarmos algumas palavras, com a Sônia sempre mantendo a iniciativa de gastar seu francês, me surpreendendo até, seguiram adiante e aos poucos foram se tornando dois pequenos vultos na estrada. Em seguida, mais um casal de jovens também franceses, passaram sorridentes por nós. Levavam enormes mochilas coloridas; faziam o Caminho de forma bem descontraída e conversando animadamente. Alguns minutos mais tarde surgiu um outro peregrino também jovem; com passadas largas e rápidas, cumprimentou-nos, sem nos olhar, e seguiu em frente. Não ficamos sabendo sua nacionalidade, mas notamos que seu equipamento era bem usado, demonstrando que devia ser um experiente andarilho. Em menos de cinco minutos desapareceu nas curvas da estrada.

Já havíamos andado perto de 10 quilômetros quando o sol, que havia aparecido timidamente, sumiu de vez e algumas nuvens cinzentas começaram a surgir por cima do Morro do Perdón. A paisagem em volta se alternava entre campos arados e alguma vegetação mais densa. Ainda antes de chegarmos a Cizur Menor a estrada passou entre dois castelos, que, como sempre eram edificados no cume de elevações montanhosas. Enquanto subíamos o Morro do Perdón, vimos, ainda distante, lá no alto, enormes cata-ventos com pás gigantescas instaladas sobre torres de mais de 30 metros. Eram centenas deles a gerar energia eólica, limpa, ecologicamente corretos, provavelmente para a cidade de Pamplona! Não pude deixar de pensar no Brasil, com imensas regiões montanhosas e um vastíssimo litoral onde sopra um permanente vento marinho, mas sem explorar economicamente esse potencial! Li vários artigos em que o autor dizia estarmos chegando próximos da saturação no uso de rios para a construção de mais hidrelétricas! E, invariavelmente, afirmava que teríamos problemas futuros para produção de energia. Quando via aquelas centenas de gigantescos aparelhos utilizando o vento para produzir eletricidade não podia esconder, no íntimo, uma ponta de tristeza com nossos governantes pela omissão em proporcionar ou incentivar o uso, ou, ainda, pelo improvável desconhecimento desse nosso potencial. Mas, ali, fazendo o que amávamos, ou seja, caminhar, caminhar, curtir a natureza junto com minha companheira, fiz um esforço para esquecer aquele sentimento momentâneo de frustração.

À medida que subíamos, a brisa suave foi se transformando em ventos fortes. Sabíamos que lá no alto iríamos encontrar fatores climáticos adversos, portanto quanto mais rápido chegarmos melhor. A Sônia de vez em quando se queixava do tornozelo que torceu ligeiramente quando levou o tombo, mas estava agüentando firme. O ferimento no joelho não inflamou, ainda bem! Os curativos funcionaram! Mas a descida do outro lado do Morro do Perdão me preocupava, afinal era perigosa e exigiria extraordinário esforço e atenção! Sabíamos que muitos peregrinos encerram prematuramente ali a caminhada a Santiago. Bem, mais uns 45 minutos, já com ventos fortes, chegamos ao topo. A chuva começara a cair há alguns minutos e um pouco antes já tínhamos colocado os anoraks e as capas nas mochilas. A vista lá do alto era linda, mas só demos uma pequena parada de alguns segundos para ver Pamplona lá embaixo, 13 quilômetros distantes e rapidamente atravessamos um platô de aproximadamente 200 metros, iniciando logo a descida. Pensamos que haviam aplainado mais a estradinha, pois o trecho inicial nos pareceu bem melhor que da outra vez. Nossa alegria durou pouco, pois uma chuva torrencial começou a cair piorando rapidamente as condições da estrada; logo estávamos caminhando sobre seixos de pedra dos mais variados tamanhos, como se fossem cocos melões e laranjas misturados. A chuva continuava a nos fustigar o rosto e pela primeira vez sentimos frio realmente, pois o vento forte penetrava através dos espaços entre o corpo e o anorak. Íamos descendo com todo o cuidado quando a Sônia escorregou numa pedra solta e, coitada, caiu de joelhos. Mais uma queda, não! Quase gritei! O joelho ainda ferido da queda anterior, sofreu novo golpe. Ela sentada sobre as pedras não conseguia levantar-se então a segurei pelos braços e a ergui. Era como se eu estivesse sentindo toda a dor dela! Tentei pegar sua mochila, mas ela se recusou a entregá-la. Compreendo esse lado teimoso da Sônia, pois afinal, queria provar pra ela mesma de que seria capaz de sozinha fazer o Caminho. Claro que todos nós temos nossos limites mas ela ia corajosamente ultrapassando os seus! Mostrava força, quando eu pensava que ia esmorecer; se recuperava quando parecia não ter mais energia para prosseguir! Depois da queda vi que aparentemente ela estava bem, se é que se poderia dizer isso! Continuamos a descer e, de repente, vimos na margem da estradinha, sob uns arbustos e debaixo de um guarda-chuva, um peregrino acocorado. Deveria ter entre 45 e 50 anos. Perguntei-lhe se tudo estava bem, e ele com uma calma invejável, respondeu afirmativamente. Ainda hesitei um pouco em prosseguir sem insistir mais uma vez, mas ele acenou me tranqüilizando e agradecendo, não sem antes dar a entender que estava fazendo o Caminho em sentido contrário! Estava claro que ele pacientemente estava esperando a chuva passar para tornar a subir por aquelas pedras! Pouco mais abaixo a estrada melhorou consideravelmente e julgamos estar livres daquelas malditas pedras. Outro engano! Mais adiante elas ressurgiram o que nos obrigou a redobrar os cuidados; os músculos já cansados, não davam mais suporte para se caminhar com absoluta segurança. Felizmente, esse trecho pior acabou e entramos num terreno mais plano e com a chuva ficando para trás! Ufa! Que sufoco! Esse seria o que consideraríamos, mais tarde, o segundo pior trecho de toda a Rota.

Ainda restavam quase 3 horas de caminhada, mas, com a melhora do tempo a tensão diminuiu bem, embora a Sônia já demonstrasse cansaço! A cada meia hora seguinte parávamos para descansar. Isso se mostrou acertado, pois recuperamos um pouco nossas energias! Depois da descida nos deparamos com uma plantação de amendoeiras, não a que estamos acostumados a ver no Brasil, mas as que dão amêndoas que geralmente se come em época de Natal. Fui colhendo pelo chão as maiores e as que não estavam sujas de lama. Foram quase um quilo. Elas seriam de muita utilidade nas semanas seguintes! E como eram gostosas! Pouco mais a frente colhi também algumas maçãs, mas não eram tão bonitas como as que se compram em supermercado! Assim, fomos passando por várias vilas pequenas.

Em Obanos, depois de mais de 20 quilômetros de caminhada, demos uma parada mais demorada. Faltavam pouco mais de 2 quilômetros para Puente la Reina. Logo que recomeçamos a andar, escutamos vozes femininas um pouco mais atrás. Olhamos para a direção de onde vinham e vimos que se tratava de um grupo de peregrinas, todas bem vestidas, penteadas, etc. Calculei que deveriam ser em número de 10 a 12. Não levavam mochilas, dessas pesadas, que todo peregrino costuma carregar, mas sim umas bem pequenas que deveriam caber somente estojo de maquiagem, de toalete, etc. Eram peregrinas espanholas fazendo o Caminho com apoio, ou seja, suas mochilas mais pesadas iam num ônibus que as acompanhava paralelamente. Em pouco tempo passaram por nós e algumas nos saudaram com um adios! Pareciam bem descontraídas e alegres e caminhavam em pequenos grupos, próximos uns dos outros! E como falavam! Passavam das 17 horas quando chegamos a Puente la Reina. Fomos direto procurar o hostal que conhecíamos. Os proprietários eram um casal que morava no próprio prédio e fazia dele um autêntico antiquário, pois os corredores e quartos eram repletos de móveis e objetos decorativos e antigos. Foi um dos poucos hostais que ofereciam café da manhã! Mas o preço era um pouco elevado - 50 euros -!

Descansamos um pouco, depois de esvaziarmos as mochilas, tomamos uma boa ducha e, surpreendentemente ainda com energia sobrando, descemos e fomos dar umas voltas pela cidade. Inicialmente nos dirigimos à famosa ponte sobre o rio Arga construída há mais de mil anos por uma rainha de nome Munia, para que os peregrinos pudessem atravessá-lo sãos e salvos! Quando estávamos sobre a ponte vimos o jovem casal de franceses namorando e sorriram ao nos verem! Depois, fomos a uma praça onde, pra nosso espanto, havia um bando de crianças fazendo algazarra! Não é comum nas cidades do Caminho haver crianças pelas ruas, só habitantes bem mais velhos, pois os jovens na sua quase totalidade migraram para as cidades grandes, em busca de escolas, emprego e lazer! Em seguida, fomos a uma tienda para comprar alguns cereais que já estavam chegando ao fim, assim como frutas, iogurte, o famoso pão pecado, etc. Depois de percorrer mais algumas ruas retornamos ao hostal, pois somente às 20 horas o restaurante abriria. Não tínhamos almoçado nesse dia, só feito lanches esporádicos, de forma que estávamos com bastante fome.

Já terminávamos o jantar, comendo a sobremesa, quando entram a Maryse e o Roger. Ao nos verem ali, nos cumprimentaram e sentaram à mesa ao lado. Acabamos de comer e perguntamos a eles se podíamos sentar à mesa deles para batermos um papo. Sorridentes, responderam oui! oui! Ficamos sabendo que eles estavam aposentados. Ela era professora de línguas, provavelmente espanhol, pois falava muito bem o idioma! O Roger apenas sorria, pois não entendia uma só palavra de português ou do próprio espanhol. Eles moravam na cidade francesa de Charly e estavam percorrendo apenas um trecho do Caminho, que ia de Roncesvalles a Burgos. Pretendiam em 2003 ou 2004 fazer o resto! Ficamos de nos corresponder quando retornássemos aos nossos países, inclusive dando algumas dicas de sites em que eles poderiam obter a lista de todos os hotéis e outras informações sobre a rota ! Ficamos conversando durante algum tempo, principalmente sobre curiosidades e peculiaridades do Caminho. A Maryse ia traduzindo nossa conversa para o marido mas o cansaço foi chegando devagarzinho e nos despedimos com um au revoir!