Livro Completo
Vega de Valcarce ao Cebreiro - 11,1 km
Cebreiro a Triacastela - 20,5 km - de táxi

14 de novembro de 2002


Subir o Cebreiro constitui para o peregrino um dos maiores desafios e um dos trechos mais difíceis do Caminho. É lá que se encontra ainda de pé algumas edificações, chamadas "pallozas", construídas pelos celtas há mais de dois mil anos. São cabanas em forma circular totalmente de pedras e teto feito com algo parecido com o nosso sapê. Há também uma pequena igreja muito antiga, que, segundo a história, fora palco de um "milagre" por causa da recusa do padre em rezar a missa para um único peregrino que chegara exausto lá no alto. Então, a hóstia se convertera em carne e o vinho em sangue!

Acordamos bem cedo, apesar de uma noite de sono um tanto conturbada pela preocupação com o tempo. Felizmente a chuva cessara, embora nuvens grossas encobrissem qualquer vestígio de sol! O termômetro, deixado na janela, marcava 5 graus! Nada mal, pior seria se registrasse zero grau pois é nessa marca que ocorre precipitação de neve, com todas a suas imprevisíveis conseqüências! Sentimos falta de uma bebida quentinha para aquela hora da manhã, mas nos lembramos do desacerto que foi a nossa tentativa nos primeiros dias de caminhada quando o "rabo quente" que trouxéramos quase queimou as instalações elétricas do hostal!

Fechamos a porta do quarto deixando a chave na fechadura e descemos os dois lances de escada sem fazer qualquer ruído que perturbasse o sono de algum hóspede; atravessamos a ponte e pegamos uma estradinha asfaltada à esquerda! Notamos que o rio ainda estava bem cheio e ficamos um tanto aliviados por sair logo dali. Pressentíamos que uma chuva mais forte o faria sair do leito, provavelmente inundando tudo à volta! A Sônia bateu uma foto minha logo adiante em frente a placa de entrada da vila de Ruitelán.

Continuávamos caminhando paralelamente ao rio e vimos em vários pontos ele saindo do leito se espraiando por entre as árvores. As vilas seguintes por onde fomos passando eram todas dentro de pequenos vales na montanha. Colhi algumas nozes na beira da estrada e aproveitamos para dar a primeira descansada. Sabíamos que em instantes a subida iria se tornar mais forte. Pouco mais de um quilômetro adiante passamos por Las Herrerías, onde bati uma foto da Sônia sob um bonito arco de pedras. Era como estivéssemos "pintando" um quadro com a máquina fotográfica tal a beleza do lugar! Em seguida tomamos a primeira grande decisão do dia: Havia uma bifurcação onde uma placa indicava a direção à esquerda para caminhantes e à direita para ciclistas. Decidimos seguir esta última por precaução. Sabíamos que a primeira era uma trilha totalmente isolada e encoberta por uma espessa floresta, além de que deveria estar totalmen-te enlameada! Sem querer havíamos tomado uma sábia decisão, como pudemos constatar alguns quilômetros acima! Iniciamos, a partir daí, uma acentuada subida.

Vimos, na beira da estrada, um homem alto e magro, dando fortes golpes com uma picareta , tirando lascas de grandes blocos de pedras. Ao passarmos por ele cumprimentei-o e disse-lhe: "Que fuerza!" Mas, infelizmente, acho que ele não gostou muito das minhas palavras e respondeu-me sério e com alguma amargura na voz, que fazia aquilo por absoluta necessidade! Dei um sorriso "amarelo" meio sem jeito e balançando positivamente a cabeça segui em frente. A Sônia ia a dois ou três passos adiante e falou que aquele era o retrato da "outra" Espanha que ainda não conhecíamos! Eu concordei com ela!

Já havíamos subido bastante e víamos as vilas lá embaixo! Começava a aparecer uma névoa, ao longe e mais um pouco acima. A temperatura já baixara para 3 graus! Não podíamos ir mais rápidos, pois a Sônia, com os 9 quilos de mochila às costas e subindo o tempo todo, estava no limite de sua resistência e a cada 100 metros dávamos uma pequena parada! Mesmo assim surpreendia pela força, tirada não sei de onde! A todo instante eu me oferecia para levar seu equipamento, mas ela resistia! Chegamos a mais uma encruzilhada, com a opção de entrar em La Faba e seguir por uma trilha pedregosa e estreita com a constante passagem de gado, ou continuar seguindo pela estradinha asfaltada, num percurso um pouco mais longo (mais 2 quilômetros)! Dessa vez, sem que pudéssemos prever, escolhemos a pior opção, ou seja, a última! Depois de mais de 1 quilômetro de acentuada subida, vimos de longe e à frente um homem, à esquerda, usando farda e portando um rifle de longo alcance! De imediato, pensei tratar-se de um guarda florestal! Ao nos ver o homem começou a gesticular. Não entendemos de imediato o que ele queria nos dizer! Ao chegarmos mais perto, vimos que era um caçador e aí veio a "bomba", quando nos disse o que estava acontecendo: "Estamos encurralando um javali e peço que vocês corram lá para cima até acabarem as árvores!" Eu, imediatamente lhe disse que não podíamos correr pois minha esposa estava exausta! Então, ele voltou a insistir para que corrêssemos pois havia perigo de sermos atingidos por um disparo já que dois amigos seus estavam no meio da floresta, armados e próximos de nós, no encalço de um enorme javali! Estavam a ponto de encurralá-lo e executá-lo! A Sônia, assustada, começou a acelerar. Temendo que ela tivesse algum problema por causa do esforço, peguei sua mochila e disse para ela ficar uma pouco na minha frente à direita a fim de proteger-se! Que sufoco!

Continuamos a subir de forma acelerada e pude ver seu olhar de medo e pavor. Coitada! Era tudo que não podia acontecer, pois o Caminho estava lhe fazendo um enorme bem e aquela tensão e perigo iria empanar e prejudicar sua saúde! Felizmente o perigo maior passou quando, mais acima, entramos numa grande curva que dava acesso à Laguna de Castilla, outra diminuta a última vila que precedia o Cebreiro! Antes de entrarmos na vila passamos em frente a um pequeno galpão e vimos, no seu interior, dois grandes "jeeps"; logo deduzimos que deveriam pertencer àqueles sinistros caçadores! Não mais de 200 metros depois e já estávamos fora da zona urbana. Novo sufoco, pois dali a instantes, quando penetramos numa estreita trilha na beirada de um barranco, uma névoa pesada nos envolveu totalmente. Passamos a não enxergar nada além de 10 a 15 metros. A Sônia teve um princípio de pânico e tive que usar de todos os argumentos para tranqüilizá-la. Disse-lhe que, ao meu lado, ela não precisaria temer nada. Ela insistia dizendo que havia um abismo enorme logo ali bem aos seus pés! Suas passadas se tornaram trêmulas, hesitantes, pequenas! Eu voltava a tranqüilizá-la afirmando que faltavam menos de 500 metros para a chegada e que não tinha perigo algum, pois já conhecíamos o percurso e tínhamos a nosso favor a ausência de neve, que fora o nosso terror da outra vez que estivéramos ali! Apesar de continuar levando sua mochila, a segurava firmemente pelo braço a fim de que se sentisse mais confiante. De fato, ela conseguiu superar o pânico embora continuasse com bastante medo! Felizmente, no meio daquela neblina toda, vimos, uns vinte minutos depois, a silhueta escura de um muro alto. Estávamos na entrada do Cebreiro!

Mas, para variar, faltava a "porrada final do Santo": Uma enorme boiada vindo em nossa direção. Rapidamente olhei à volta e reparei que havia uma espécie de nicho naquele muro. Era nossa única proteção e, rapidamente, nos enfiamos ali, meio espremidos. Alguns segundos se passaram e, logo, para espanto nosso, a boiada tomou um atalho bem à nossa frente! Nessas horas, cansados, tensos pelos momentos vividos pouco tempo atrás, tudo nos parecia pior! Felizmente, tudo não passara de um susto! Saímos do nosso "abrigo" e finalmente chegamos ao pequeno largo do Cebreiro. Entramos no único hostal, deixamos nossas mochilas no pequeno hall de entrada, sobre um banco e relaxamos um pouco. Não havia nenhum turista, nenhum hóspede. Vimos apenas um homem arrumando as mesas do restaurante junto ao bar. Nesse momento entra um peregrino baixinho com uma enorme mochila. Parecia que tinha surgido do nada. Falava um francês que eu não entendia quase nada. A Sônia ainda "pegava" uma palavra ou outra. Ficamos sabendo que ele havia sido obrigado a sair, naquela manhã, do albergue pois chegara na véspera. Pelas normas, nenhum peregrino pode ficar mais de um pernoite nos albergues e tem que deixar suas instalações até as dez horas do dia seguinte! Ele tinha um ar assustado e fazia perguntas, pois não queria descer a montanha por causa das condições do tempo Eu lhe disse que dali a pouco um táxi iria chegar e nos levar a Triacastela. Ele me olhou ansioso e entendi que queria ir conosco. Fiz sinal com a mão, dando a entender que poderíamos rachar a despesa do táxi. A Sônia, com sua sensibilidade e por se comunicar melhor em francês, me alertou que o peregrino era "duro" pelo que observara das suas roupas e botas, um tanto surradas! Eu me senti um troglodita! Assim, disse-lhe, meio sem jeito, que poderia ir com a gente e que não precisaria se preocupar em pagar! Ele pareceu mais aliviado!

Em seguida nos dirigimos ao bar a pedi café e leite quente para nós três. Ele recusou um tanto envergonhado mas eu insisti e ele acabou aceitando. Depois, como ainda faltava no mínimo meia hora para a chegada do táxi, ficamos conversando com o homem que nos atendera e soubemos que era sobrinho do dono do hostal. Falamos sobre os caçadores que encontramos e ele disse, com toda a calma, que no lugar por onde passamos era comum a caça aos javalis e aos lobos. Os próprios moradores pediam aos caçadores para abaterem aqueles animais porque os primeiros danificavam suas plantações e os lobos comiam suas galinhas! Era comum os javalis ferirem de morte, com seus enormes chifres, um ou outro cão que acompanhava os caçadores. Perguntamos se não era perigoso para os peregrinos a presença daqueles animais selvagens. Ele sorriu, dizendo que o javali só era perigoso quando ferido, e os lobos, eram poucos e ariscos! Fiquei pensando o quanto os peregrinos são inocentes a respeito dos perigos que há pelo Caminho! Muitos acham que Santiago os protege, portanto caminham na ilusão de que estão absolutamente seguros!

Felizmente o nosso táxi chegou pontualmente. Era o mesmo motorista que em 2001 nos levara de La Portela a Vega de Valcarce! Na descida, fomos conversando e ele nos disse que era atleta e que tinha bons índices, anos atrás, em maratona, algo como 2h24! Agora, tinha completado 40 anos e corria apenas por prazer. No inverno, por causa das constantes nevascas, era obrigado a interromper, às vezes, os treinamentos, por semanas inteiras. Falei também de minhas corridas e que havia contornado, correndo, revezando com um amigo, a Ilha de Santa Catarina, num percurso de 155 km, onde morávamos, no sul do Brasil! O francês sentado no banco da frente apenas ouvia a conversa sem fazer qualquer comentário! Enfim, chegamos em frente ao hostal. Paguei o táxi(30 euros) e nós três saltamos! O motorista, percebendo que nosso amigo tinha ainda que caminhar para procurar o albergue da cidade, se prontificou a levá-lo até lá! Era o dia de sorte daquele pobre peregrino, pensei!

Antes de entrar no hostal, dei uma olhada para o alto da montanha, onde estávamos há poucos instantes, e a vi coberta de espessas nuvens nas partes mais altas! Já estávamos na Galícia, montanhosa, cheia de bosques, florestas, nada parecida com a planura da nossa conhecida região de Palencia! Depois de descansarmos um pouco, almoçamos no próprio hostal, onde fomos atendidos com a costumeira gentileza galega! Depois, enquanto a Sônia ficara descansando no quarto, fui à procura de uma "tienda". Na volta, tive que apertar o passo pois a chuva começara a cair! O frio gelava meu rosto, embora a temperatura estivesse levemente acima da que pegamos no alto do Cebreiro!