06 de novembro de 2002
Coloquei algumas fitas amarelas no bolso da calça, apesar de não tê-las utilizado nos últimos dias, pois seguir pelo Caminho nessa região sem florestas, bosques, etc. é muito fácil e não há como o peregrino se perder, por exemplo, numa bifurcação da estrada! Um friozinho de 9 graus acompanhado de um denso nevoeiro nos esperavam lá fora, pela manhã, ao deixarmos o hostal. Nada muito sério, mas fomos obrigados a pedir informações para sair da cidade e retomar a rota! Depois de uns 12 a 15 minutos, procurando tocar de leve com o bastão no chão para não acordar as pessoas enquanto caminhávamos pelas ruas semi desertas, passamos por baixo de um enorme arco construído com blocos de pedras, parte de uma antiga edificação do século XI. Logo a seguir, cruzamos uma alta e velha ponte, seguindo pelo acostamento da carreteira. Mais a frente, reencontramos o mesmo abrigo de passageiros em igual estado ou pior de quando o vimos na outra viagem, quando constatamos, com horror, que ali houvera um trágico tiroteio entre policiais e bandido. Ainda vimos pelo chão muitos estilhaços de vidro, e lamentamos o descaso inexplicável das autoridades locais por não limparem a área! Atravessamos a carreteira e seguimos por um "andadero" entre vastos campos cultivados. Nesse trecho o Caminho era sinalizado por uma longa linha de árvores finas.
Paralelamente íamos acompanhando a "Carretera Nacional" a uma distância de 800 a 1000 metros! O nevoeiro acabou se dissipando dando lugar a um céu azul com o sol atrás e à nossa esquerda. Aos poucos a temperatura foi subindo nos obrigando a "descascar" as pesadas roupas de frio! Uns 2 a 3 quilômetros mais, passamos pelo monumento-túmulo de um peregrino alemão, falecido no local. Infelizmente, seu coração não resistira ao esforço da caminhada! Fizemos uma breve parada e aproveitei para prestar homenagem àquele companheiro anônimo , colocando uma fita sob uma pequena pedra junto à cruz! Algum tempo depois uma placa indicava a entrada no perímetro urbano da pequena Bercianos del Real Camino, um pueblo com ruas sem calçamento e muito menos qualquer atrativo, mas com a qualidade de possuir um razoável restaurante, cuja indicação foi dada por um velho morador local! Logo que entramos fomos direto ao bar perguntar se serviriam almoço àquela hora, pois ainda era cedo e passava pouco do meio-dia. Ante a resposta positiva sentamos na sala ao lado. Aguardamos uns 3 a 4 minutos até que a garçonete, que também exercia a função de cozinheira, aparecesse. Fomos atendidos com uma gentileza tão incomum que mal podíamos acreditar, pois foram raras as vezes em que não fomos tratados com alguma má vontade, rispidez, etc.
O almoço estava bom e bem servido em quantidade, então, antes de voltar ao balcão e pagar, fui até a cozinha, chamei a senhora que nos atendeu e lhe dei uma boa "propina" (gorjeta). Ela sem acreditar no que via ainda perguntou se "tudo aquilo" era para ela! Eu disse que sim por que ela tinha nos atendido tão bem e com tanta gentileza que aquilo era o mínimo que eu poderia fazer! Depois, sorriu satisfeita e, meio sem jeito, agradeceu. Finalmente, deixei a Sônia junto às mochilas na porta de saída e fui ao banheiro. Quando voltei havia um homem na frente dela falando qualquer coisa. Intrigado, perguntei do que se tratava; ele respondeu algo que não entendi e saiu "de fininho".
Quando já estávamos na estrada, a Sônia me disse que o tal homem, meio alcoolizado, fazia perguntas descabidas, ou seja, puxando conversa fiada; daí ela respondia dizendo que não estava entendendo o que ele dizia para ver se o cara se afastava, mas o indivíduo continuava ali e gracejava com outro "colega" encostado no balcão, dizendo "ela não entende!...Ela não entende!...Me deu vontade de voltar e dar uns trancos no cara. Mas de que adiantaria? Só iria deixar a Sônia nervosa e estragar nosso dia, que estava tão bom!
Daí até o final da jornada foram mais 7,8 quilômetros tranqüilos, bem diferentes da outra vez quando, por causa da contusão da Sônia, íamos tão lentamente que pareciam demorar uma eternidade! Quando estávamos bem próximos de Burgo Ranero, um senhor de bike veio em nossa direção! Reconheci pelo pequeno rádio que levava preso no guidom que era o mesmo que havíamos encontrado em 2001, no mesmo local. Ele se intitulava "auxiliar de peregrino" e falava sem parar, usando de quando em quando termos em inglês, francês, etc. ao mesmo tempo que dava dicas sobre a cidade. Pacientemente, ficamos alguns minutos ouvindo suas histórias, conselhos, etc. mas depois tivemos que delicadamente "despachá-lo" senão iríamos ficar ali não sei quanto tempo; a Sônia já olhava de lado para mim com o olhar de "vamos embora!" Alegando que ainda tínhamos que caminhar bastante naquele dia, nos despedimos do nosso "conselheiro" agradecemos as "dicas" e o saudamos com um "salud para usted!". O nosso amigo, como que voltando para sua solidão, tornou a ligar o radinho, seu fiel e talvez único companheiro, e saiu pedalando pela estrada vazia, por onde já tínhamos passado! Fiquei pensando quantas vivências, quantas experiências o Caminho nos oferecia a cada dia, a cada instante, nos obrigando a exercer virtudes um tanto "esquecidas" quando se vive numa cidade de algumas centenas de milhares de habitantes e onde, muitas vezes, o stress da vida moderna, a insegurança, o medo, fazem aflorar defesas que sufocam sentimentos naturais e mais nobres! Finalmente, meia hora mais tarde chegamos a B. Ranero.
Não queríamos ficar no mesmo hostal do ano passado, pois os quartos eram terríveis, o banheiro pior ainda e as centenas de moscas que nos perturbaram, além da dona, uma senhora rude e mal educada! Vimos o letreiro de uma pensão localizada num prédio recém construído mas a porta de entrada estava fechada. Perguntamos à moradora da casa ao lado se ela (a pensão) estava recebendo hóspedes, então, para nossa decepção, nos disse que a proprietária havia sofrido uma cirurgia e estava "de molho", por isso, tinha desativado temporariamente o estabelecimento.
Seguimos adiante, já conformados de que iríamos para o indesejável hostal pois era a única opção. No caminho, vimos uma velha senhora levando um carrinho de mão cheio de pesados vasos de plantas. Entreguei meu bastão para a Sônia e delicadamente pedi licença e tomei o carrinho de suas mãos. Estava bem pesado e fiquei surpreso como ela agüentava empurrá-lo! A Senhora ainda tentou pegá-lo de volta dizendo que fazia aquilo todos os dias, mas eu sorri para ela e perguntei para onde deveria levá-lo. Apontando para uma casa no final da rua, foi logo dizendo que era ali que morava e que agora vivia sozinha, pois seu único filho fora embora para uma cidade maior pois o bar que instalara na casa não foi prá frente! Havia algo estranho naquela pobre senhora, pois todos os dias levava algumas plantas para "tomar sol e pegar ar" num terreno baldio e distante, embora tivesse o seu próprio e de bom tamanho junto à sua casa! No interior do ex-bar havia dezenas de vasos com plantas e ela, numa prosa interminável, fazia longos comentários sobre cada uma. Aquela era sua "família" com toda a certeza!
Estávamos ansiosos para chegar logo ao hostal, tomar uma ducha e descansar, então, mais uma vez, tivemos que abreviar a conversa! Chegamos enfim, ao hostal "El Peregrino". Dirigimo-nos ao balcão do bar onde reconhecemos o marido da proprietária. Ao dizer-lhe que queríamos um quarto (habitación) ele pediu que aguardássemos um pouco pois ia falar com a esposa para tratar do assunto. O bar, todo enfumaçado, estava repleto de habitantes locais, que não nos deixavam muito à vontade, pois a toda a hora cochichavam e nos olhavam. Ficamos esperando ali uns 15 minutos. Sabíamos, por experiência, que a dona estava limpando o quarto para nós e o abastecendo de toalhas, etc. Cansados de esperar, fizemos um sinal para o marido e saímos para a calçada a fim de respirarmos um pouco de ar puro! Depois de mais alguns minutos de espera resolvi entrar, e lá estava a dona, varrendo o chão. Perguntei-lhe se já podíamos subir e ela disse que sim! Chamei a Sônia que ficara na calçada ,e, ao passar novamente pela senhora, indaguei o preço: 35 euros!! Quase gritei "que roubo!" Mas me contive e solicitei um "descuento", já que aquela era a segunda vez que nos hospedávamos ali. Ela secamente disse um sonoro "NÃO!" e, se estivéssemos achando caro, do outro lado da rua havia um albergue de peregrinos, que não dispunha de calefação, água quente, etc. Engoli a seco o desaforo e lhe respondi apenas que não estávamos a fim de ir para um albergue e sim para um hostal e que ficaríamos ali por ser o único da cidade. Solicitei as chaves e subimos. Surpreendentemente e felizmente ela não nos deu o terrível e diminuto quarto do sótão como no ano passado, e sim um mais amplo e reformado. Claro, tudo muito aquém do preço cobrado, inclusive com todas as toalhas ainda úmidas, um box sem cortina e apenas um minúsculo sabonete! Daí percebemos porque demorou tanto para nos atender. No corredor, ao passarmos pelos quartos, vimos através de algumas portas entreabertas a desarrumação total em que se encontravam.
Tomamos um banho razoável, descansamos um pouco e algum tempo depois fomos à única "tienda" existente. Compramos as coisas de sempre para o lanche da noite e para complementar desjejum do dia seguinte. Até que fomos bem atendidos pela proprietária, com sorrisos, paciência e gentileza, ufff! Voltamos para o hostal em seguida, mas antes de subirmos para o quarto fui até o balcão do bar fiz o pagamento antecipado e pedi que carimbassem nossas credenciais.