Livro Completo
Zubiri a Pamplona - 20,8 km

19 de outubro de 2002


Acordei várias vezes durante a noite anterior. Não dava para ligar a TV porque a Sônia já adormecera e não queria interromper seu sono. Liguei o abajur da mesinha de cabeceira, mas não havia nada para ler a não ser o guia de viagem. Sentia muita falta dos meus habituais jornais e revistas mas não os comprava porque se tornaria um peso a mais nas sobrecarregadas mochilas. Bem, apesar de tudo, acordei sentindo o corpo leve e descansado. A Sônia, também! Nosso desjejum dessa vez não foi aquele a que estamos acostumados (cereais integrais, frutas secas, iogurte, etc) pois o hostal oferecia, incluído no preço, o café da manhã, o que é claro, aproveitamos. Seria uma forma de economizar alguns euros, afinal ainda estávamos nos primeiros dias de nossa caminhada e não sabíamos o quanto iríamos gastar até o fim.

O dia amanhecera encoberto, com temperatura de 15 graus, surpreendentemente alta para a época e para aquela hora da manhã. Deixamos o hostal, atravessamos a carreteira, que divide a cidade em duas, passamos por uma velha ponte medieval e depois de serpentear por uma rua à direita, penetramos num pequeno bosque. Eram nesses trechos de mata os momentos mais gostosos da trilha de Santiago, mas, infelizmente, vão ficando ano a ano menos numerosos, visto que as autoridades espanholas a cada temporada vão mudando os percursos para a beira das rodovias fazendo as indesejáveis calçadas paralelas às mesmas! A Sônia detestava essas calçadas, pois além de fugirem do traçado original não eram sombreadas, nem tinham a menor graça! Eu também concordo, se bem que uma vez ou outra não me incomodava de passar por elas! Após o bosque, passamos por uma grande fábrica de magnesita, à direita. Acreditamos que ela dava emprego para toda a população da pequena Zubiri e ainda devia buscar trabalhadores de outras vilas.

O primeiro peregrino do dia passou por nós de bike e acenou com um sorriso; mas não me recordo de que nacionalidade era. O segundo peregrino a passar foi uma jovem francesa, alta, que também nos cumprimentou com um sorriso e seguiu rápido adiante. Aliás, os franceses, eram a grande maioria, entre todos que cruzavam por nós. Um pouco mais a frente, já dentro de outro bosque maior, foram passando por nós sucessivamente uma peregrina baixinha irlandesa acompanhado de um jovem canadense, um alemão alto, de voz calma e serena, que acabamos apelidando de "padre alemão", e com quem trocamos algumas palavras em inglês, e por fim um outro, francês, de olhar maroto, aparentando em torno de 35 anos, que passou por nós com um "hola". Todo esse grupo havia saído do albergue de Zubiri e já se conheciam como ficou provado mais adiante. A trilha, nesse trecho, através do bosque, corre paralela a um rio de águas verdes e muita correnteza, dando um aspecto selvagem à paisagem.

Passamos pelo povoado de Irotz, onde logo na entrada, demos uma parada prá descanso e lanche. Estávamos sentados na beira de uma calçada quando começaram a surgir alguns gatos. Tínhamos duas alternativas: Ou espantávamos com um "chô!" ou dividíamos nossa comida com eles! Esta última foi a escolhida, embora, para nosso espanto, os felinos recusassem grande parte dos alimentos q. oferecíamos! O que eles queriam? Peixe fresco....? Engraçado é que eram tão "atrevidos" que roçavam na gente a todo instante como se tentassem nos convencer a lhes dar algo diferente! Apanhei a máquina fotográfica e bati uma foto da Sônia com um deles ao lado! Ficamos ali, gostosamente relaxados, durante uns 20 minutos e nesse tempo alguns peregrinos que haviam passado por nós e tinham parado para descansar um pouco atrás, tornaram a aparecer. Em seguida, caminhamos por uma carreteira bem movimentada num trecho de pouco mais de um quilômetro; tivemos que atravessá-la e seguir à direita onde havia uma zona de descanso, alguns carros estacionados e pessoas fazendo churrasco. Logo, iniciamos uma subida por uma trilha estreita e descampada. Apesar da dureza da caminhada, a Sônia ia bem. Estava satisfeita com seu próprio desempenho, e eu também por ela!

Mal sabíamos que poucos minutos depois ela levaria um tombo feio ao tropeçar numa ponta de raiz. Caiu de frente ferindo levemente a mão direita, cotovelo esquerdo, torceu um dos tornozelos e machucando mais seriamente um dos joelhos! O tombo foi instantâneo e não tive como segurá-la. Quando a vi, ela estava já sentada no chão, chorando e com a calça rasgada e manchada de sangue. Por dentro tremi vendo-a daquele jeito. Aparentando calma, segurei um de seus braços e com carinho tentei acalmá-la e levantá-la. Por alguns instantes ela preferiu ficar ali sentada, como que se refazendo do susto! Então abri o cantil e joguei bastante água sobre o ferimento, que embora não fosse profundo, estava bem feio! Depois, avisando que ia arder um pouco, derramei iodo para desinfetar! Foi duro ver a carinha de sofrimento dela, mas tinha que fazer aquilo! Era preciso! Peguei uma atadura para enrolar em volta do joelho, mas ela própria preferiu fazer isso, e eu apenas arrematei o curativo colocando esparadrapo para não soltar! Ela chegou a pensar que não iria conseguir caminhar mais nesse dia, mas, para surpresa dela e minha, ao ajudá-la a ficar de pé, foi lentamente tomando confiança e saiu caminhando devagar. Antes, havíamos passado pelo grupo de peregrinos, todos descansando na relva e ao passar pela Sônia, ainda sentada, ficaram preocupados, mas acenei pra eles dando a entender que estava tudo sob controle. A jovem irlandesa carinhosamente acariciou a cabeça dela e gentilmente perguntou se necessitava de algum medicamento. Nessas horas, pequenos gestos se transformam em grande consolo e atenuam um pouco as dores de quem está sofrendo! Viva o Caminho de Santiago! Nesse trecho onde a Sônia caiu a trilha era na encosta do morro, de modo que, apesar do ferimento, ela teve a sorte de não cair lá embaixo!

Passado todo o susto e contratempo percorremos mais algumas centenas de metros e, de novo, entramos em um bosque, de pinus, onde paramos mais uma vez para tomarmos suco de laranja, em caixa. Antes, abrimos uma porteira e passamos para outra trilha. A sinalização era precária ali e tivemos dúvidas em que direção tomar. Paramos uns segundos para analisar o problema. Depois, tendo quase 100% de certeza de que estávamos no rumo certo, saquei um pedaço da fita amarela de meu bolso e o amarrei em uma árvore. Os próximos peregrinos que passassem por ali não teriam dúvida em seguir na direção certa! Começamos então a descer durante um tempo, acompanhando paralelamente os contornos da carreteira lá embaixo. Em seguida entramos num pequeno túnel sob ela e viramos à direita passando por uma velha estrada cimentada e sem tráfego. Nesse trecho, vimos ao longe, o mesmo grupo de peregrinos, que começavam a dar sinais de cansaço! Iniciamos outra pequena subida, de aproximadamente 400 metros. Em pouco mais de meia hora atravessamos uma ponte de pedra sobre o Rio Ulzama e chegamos a Arre. Nesta cidade, perdemos de vista o grupo. Acreditamos que tenham ficado no albergue local. Apesar do breve contato que íamos tendo com os vários peregrinos, eu, particularmente, tinha um leve sentimento de perda, quando sentia que não os veria mais! Perguntei à Sônia se acontecia o mesmo com ela e ela me disse que sentia algo parecido apenas quando o contato era mais prolongado, ou seja, quando caminhávamos juntos ou os encontrava por vários dias seguidos!

No fim da ponte, uma igreja octogonal em estilo bizantino nos chamou a atenção, não só pela beleza arquitetônica como pela época em que foi construída, em torno do século XI. Depois dessa breve parada e apreciando aquele antigo monumento, testemunha viva de acontecimentos históricos, por séculos, seguimos à esquerda, andando quilômetros e mais quilômetros através de avenidas e ruas, sem nos determos em algo que nos chamasse atenção. De fato, a cidade de Arre era a maior até então, mas não era das mais bonitas do caminho, estava longe disso! Em seguida entramos num beco, sem perder de vista as setas amarelas, atravessamos uma larga e movimentada avenida, contornamos uma floricultura e seguimos por outra avenida sem fim. Depois cruzamos uma ponte romana, atravessamos uma praça, cruzamos novamente mais uma avenida, e finalmente entramos num terreno gramado circundado por enormes muralhas. Claro, já estávamos em plena Pamplona, ex- capital do antigo reino de Navarra e cidade das mais antigas do Caminho, com sua fundação datada de quase um século A.C.! Ainda passamos por uma pequena ponte elevadiça, com correntes, engrenagens, etc; subimos suavemente uma rua calçada com pedras toscamente talhadas e nos defrontamos, mais a frente, com uma entrada em arco igualmente em pedra, para finalmente entrarmos no casco antigo da cidade. Fomos procurar o mesmo hotel em que ficamos em 2001.

A proprietária, uma velha e elegante senhora gentilmente nos atendeu. Um tanto estressada pelo grande movimento do restaurante que naquela hora (passava das 15 horas) fervilhava de gente, e que se localizava no segundo andar, nos deu a chave do quarto, solicitou meu passaporte e continuou a comandar um sem número de "elétricas" garçonetes . Subimos mais dois lances de escada até o quarto, e aí sim, aquela respirada de alívio! Afinal, depois de mais de duas dezenas de quilômetros, andando com um peso apreciável às costas, subindo e descendo morros, montanhas, etc. estávamos ali, nos sentindo cansados, mas vencedores dessa difícil etapa do Caminho! Confortava-nos saber que éramos capazes de vencer distâncias, sob frio, sol, chuva, etc. Então, chegar a um hostal, razoavelmente confortável, era a compensação pelo esforço despendido!

Descansamos uns minutos, com a mesma roupa da caminhada. Era preciso essa pausa! Deixei a Sônia no quarto e desci para fazer o pagamento adiantado, pois tínhamos receio de deixar nossos passaportes com os donos dos hostais, que invariavelmente os retinham como garantia e os colocavam em cima de algum móvel, na portaria. Temia que alguém os roubassem, pois soubemos que os passaportes brasileiros têm grande valor, coisa em torno de Us$ 7.500,00, no mercado paralelo de falsificadores! Fazendo logo o pagamento no dia da chegada nossos documentos eram imediatamente devolvidos, o que nos tranqüilizava e nos poupava tempo nas manhãs seguintes, na hora da saída! Era um sábado e a diária cobrada foi de 40 euros, mas para o dia seguinte, domingo, a dona só nos cobrou 35, dizendo que seria folga das arrumadeiras, não havendo troca das roupas, limpeza, etc. Inocentemente, pedimos para ficar num dos quartos q. dava para a rua. Resultado: Uma noite mal dormida por causa do vozerio e berros da surpreendente multidão de pessoas perambulando pelos inúmeros bares e restaurantes da Calle San Nicolás, onde estávamos.