Livro Completo
Ponferrada a Cacabelos - 15,3 km
Cacabelos a Villafranca del Bierzo - 7,1 km - de ônibus
Villafranca del Bierzo a Vega de Valcarce - 18,8km - de táxi

13 de novembro de 2002


O conforto do hotel, em todos os sentidos, aliado às emoções e à caminhada dura da véspera nos fez dormir profundamente. Uma chuva persistente e fina continuava a cair. Acredito que durante toda a noite ela não deu trégua. Teríamos que caminhar debaixo de chuva mesmo. Eu não estava gostando nada disso, pois nos últimos dias, salvo raras exceções, o tempo não estivera a nossa favor. Mas, tínhamos que seguir em frente, pois peregrino que se preza não pode dar muita importância às dificuldades que a natureza vai lhe impondo durante sua longa caminhada à Santiago. Claro, que há limites que o bom senso de cada um estipula, como por exemplo, caminhar sobre neve espessa, sob temporal ou furacão, etc. Mas nesse dia, não era esse o caso, apenas mais um dia de chuva, nada de especial que nossos agasalhos e capas não resolvessem!

Ainda não eram 8h00 quando começamos a caminhar. Ao sairmos do hotel dobramos à esquerda pela avenida em frente e em seguida novamente à esquerda pela Avenida das Huertas. Dessa vez quem se lembrava mais do lugar por onde deveríamos sair da cidade era eu; a Sônia tentava recordar de um detalhe ou outro mas encontrava dificuldade. Engraçado como alternávamos as nossas capacidades de procurar no fundo da memória a lembrança do mesmo itinerário seguido um ano antes! Ora era a Sônia, ora era eu que tínhamos esse privilégio. Muitas vezes os dois se lembravam igualmente de tudo! Dois quilômetros adiante, já em Compostilla, cidade grudada a Ponferrada, pudemos observar a mesma situação de 2001, ao passarmos por ruas desertas e repletas de mansões fechadas. Deduzimos se tratar de residências de veraneio de ricos moradores das cidades vizinhas! As setas amarelas, nossas eternas guias, estavam em todos os lugares e assim fomos passando por Columbrianos através de uma estradinha de asfalto esburacada, com casas de um lado e hortas do outro. Em seguida chegamos a Fuentes Nuevas onde paramos para descansar num bar.

Pedimos um café e um pedaço de bolo ou torta, não me lembro, e ficamos ali conversando com a simpática proprietária, durante uns 20 minutos. Ela nos disse que tinha saído de Barcelona e se instalado ali com o marido e filhos. Estava gostando da vida tranqüila que levava, mas tinha algumas queixas do Governo, que entre outras coisas, não custeava os livros escolares de seus filhos, diferentemente como fazem na vizinha França! Não pude deixar de fazer um paralelo com a nossa realidade no Brasil, quando em muitas escolas as crianças iam apenas para comer a única refeição do dia. E livros eram artigo de luxo que em grande parte das cidades do interior as crianças jamais tinham manuseado e lido! Ela ficou espantada com o que sabíamos sobre seu país e explicamos que devia ser pelo fato de que aquela era a segunda vez que fazíamos o Caminho e por causa disso tivéramos oportunidade maior de assimilar alguns costumes e saber de alguns fatos da vida espanhola! Ela também nos disse que seu bar ficava repleto de peregrinos no verão e que muitos brasileiros já tinham passado por ali e que uma vez um lhe dera uma fita do Senhor do Bonfim! Bem, pedimos desculpas por não ficar mais tempo conversando pois ainda tínhamos uma boa caminhada pela frente.

A chuva fina que havia cessado voltara a cair, então, descansados, apertamos o passo e logo chegamos em Camponaraya, uma cidade um pouco maior do que as que tínhamos atravessado nesse dia; a única coisa que nos chamou atenção foi uma estátua toda em madeira de uma camponesa com a neta. Ficamos admirados como uma obra de arte daquela estava ali, numa pequena praça e ao tempo! Nessa hora avistamos dois peregrinos, a uns 150 metros à frente. Estavam se dirigindo a um bar e já um pouco fora da rota. Entramos pouco depois numa carreteira que atravessa toda a cidade. Vimos poucas casas antigas; a maioria era moderna e com alguns prédios baixos! Na saída, ficamos surpresos ao passarmos em frente a uma moderníssima e grande fábrica de vidros planos! Adiante, passamos por um viaduto sobre a Carretera Nacional, dobramos à esquerda e pegamos uma estradinha um tanto enlameada, com antigos vinhedos em ambos os lados. Um forte vento começou a soprar. Não me recordo da temperatura, mas esfriara bastante desde que saímos do hotel. Mais um peregrino espanhol, de bike, passou por nós e nos surpreendeu pois não fazia barulho ao pedalar. Trocamos algumas palavras durante uns breves minutos e logo depois seguiu em frente!

Definitivamente e a cada dia que passava, víamos menos peregrinos! Acreditamos que a chuva constante dos últimos dias os afugentaram. Chegamos enfim, em Cacabelos. Quando já estávamos na entrada da cidade voltou a chover mais forte e a ventar. Apressamos o passo pela calçada da "Calle Mayor" e entramos num restaurante para almoçar! Avistamos numa das mesas, na outra ponta do salão, um peregrino que conhecemos poucos dias atrás. Cumprimentamos-nos de longe, mas ficamos intrigados por não vê-lo caminhando nesse dia! Nosso destino era Vega de Valcarce. Sabíamos que não havia ônibus para lá. Tínhamos que ir primeiro a Villafranca e em seguida tomar um táxi. Saímos do restaurante a procura da "rodoviária" local, mas não lembrávamos do percurso. Cacabelos não era igual a muitas outras vilas da rota. Havia um sem número de ruas e avenidas extensas e sinuosas, daí teríamos que pedir informações à primeira pessoa que víssemos. A Sônia acabou pedindo ajuda a uma mulher que empurrava um carrinho de criança e que gentilmente atravessou a rua para nos informar. A "rodoviária" era nada mais que uma calçada em frente a um supermercado e a uns 500 metros dali; logo que chegamos lá, poucos minutos depois "nosso" ônibus apareceu.

Já em Villafranca del Bierzo, cidade ainda maior que Cacabelos, novamente pedindo informações, nos dirigimos ao único ponto de táxi da cidade. Dessa vez coube a mim pedir auxílio a um policial que prontamente nos indicou o local: Em frente ao "Bar do Peregrino", a uns 300 metros do ponto onde saltamos do ônibus! A espera pelo táxi, que levou bem uma hora, foi de pé, na calçada, sob chuva e vento frio. Já estávamos "gelados" e eu temia pela gripe da Sônia que já dera sinais de querer derrubá-la há vários dias. Por 12 Euros o motorista nos deixaria na porta da única pensão de Vega de Valcarce. Durante o trajeto, sob uma chuva torrencial, ainda pudemos notar que a carreteira por onde caminhamos em 2001 e que fora um dos nossos piores momentos naquela ocasião, estava completamente deserta. Uma outra, bem mais moderna e paralela, acabara de ser construída recentemente absorvendo todo o tráfego da região!

Alguns quilômetros antes de chegarmos, infelizmente tivemos que passar por um cortejo fúnebre. Não houve como distrair a atenção da Sônia e evitar que ela visse aquilo! Era algo que só de ver lhe fazia muito mal psicologicamente! Enfim, já na pensão (24 Euros) sem nenhum conforto, nos desvencilhamos das mochilas e rapidamente, aproveitando que a chuva dera uma trégua, fomos à "tienda". Para ir até lá foi necessário atravessarmos uma ponte baixa e notamos que o rio estava bem cheio e com forte correnteza! Perguntamos a algumas pessoas que estavam na "tienda" sobre a possibilidade de o rio transbordar. Todas foram unânimes em dizer que não havia essa possibilidade! Um pouco desconfiados daquela "certeza", retornamos à pensão. Mal passamos pela porta da entrada, a chuva voltou a cair com força! Ficamos um pouco apreensivos, pois do nosso quarto víamos uma enorme quantidade de água descer do morro e passar sobre a rua em frente. Ficamos um pouco aliviados quando a chuva cessou depois de uns 40 minutos, mas durante toda a noite tanto eu como a Sônia levantamos várias vezes para olhar pela janela as condições do tempo e se o rio que passava rente às paredes do fundo da pensão não havia transbordado. Estávamos a ponto de abortar a subida ao Cebreiro, um dos nossos maiores desafios e um dos mais belos trechos do Caminho. Felizmente, a chuva não voltou a cair durante toda a noite!

Antes de deitarmos desci até o andar de baixo onde ficava a administração e pedi à proprietária que contratasse uma táxi para nos apanhar no dia seguinte, às 13 horas, no alto do Cebreiro. Iríamos de lá até Triacastela, pois decidíramos, na última hora, não descer a montanha a pé por causa da instabilidade do tempo e da provável precipitação de neve para as próximas horas!