Livro Completo
Astorga a Rabanal del Camino - 20,6 km

11 de novembro de 2002


Descemos as escadarias que dava acesso ao bar, entregamos a chave do quarto e pagamos a diária do hostal: 27 euros! Na maioria das ocasiões quando descíamos do quarto éramos alvos da curiosidade dos freqüentadores locais e não raro a Sônia se sentia constrangida com a rudeza dos olhares muitas vezes maldosos e indiscretos! Eu evitava encarar certos tipos, pois a última coisa que eu desejava era me indispor com algum morador local! Daí a pressa com que sempre saíamos desses ambientes! A temperatura ligeiramente acima dos 10 graus e o céu azul eram o prenúncio de um dia esplêndido para a caminhada.

Tomamos a direção da esquerda, passamos em frente a uma "gasolinera" e seguimos em frente. Íamos atravessar a avenida quando alguém gritou: "Peregrinos brasileños, el Camino es por aquí...!" Um tanto sem jeito, agradecemos aquele homem que era nada mais nada menos que o dono do hostal. Acostumado com a permanente ausência de sinalização da rota naquele lugar, ele seguia os passos iniciais de todo o peregrino na saída do seu estabelecimento. Como já sabia que fatalmente iríamos seguir na direção errada, sentia prazer ou quem sabe, dever, de dar sua colaboração! Talvez fosse uma forma singular de ele "fazer" o Caminho, ou ainda, o desejo de receber em contrapartida a gratidão do caminhante sob a forma de um sorriso! Seria esse o combustível diário que necessitava para ir levando a vida naquele ambiente um tanto carregado? A Sônia e eu continuávamos sendo os incorrigíveis "psicólogos de plantão", mas a resposta verdadeira a essas indagações estava tão somente com aquele senhor! Demos meia volta, seguindo dessa vez por um trecho da carreteira e pegando adiante, do outro lado, uma extensa calçada (literalmente).

Em seguida atravessamos um viaduto sobre a "Carretera Nacional" e, a partir daí, a caminhada prosseguiu por um "andadero" cujo marco inicial era uma cruz de cimento, já escurecida pelo tempo! Poucos quilômetros depois, chegamos a Murias de Rechivaldo, uma vila pequena, pobre, com suas casas de pedra e onde demos uma parada para comermos algo e descansar. Ficamos por uns 20 minutos numa diminuta praça gramada com alguns arbustos e pequenos bancos de madeira. Uma cruz também de madeira completava aquele cenário tranqüilo e acolhedor! Já descansados e alimentados seguimos adiante por uma estreita estrada asfaltada. Logo na saída da cidade paramos para cumprimentar um senhor que calmamente esculpia cajados! Perguntamos a ele se as nuvens que começavam a encobrir as montanhas ao longe ,e por onde iríamos passar, era sinal de que iria nevar proximamente. Ele, apontou para a montanha mais alta e respondeu: "O Teleno ( pico culminante local) está descoberto e sem sinal de neve portanto não há perspectiva de neve na região para os próximos dias!".

Um peregrino espanhol de bike vindo da distante Barcelona também parou por uns instantes para conversar. Ele já tinha pedalado mais mil quilômetros. Ao ver que éramos brasileiros, disse que tinha muita vontade de conhecer o Brasil, principalmente o Rio de Janeiro e a Bahia. Também lhe dissemos que conhecíamos sua cidade e que havíamos gostado muito. Era o quarto peregrino que víamos nesse dia até aquele momento. Antes de chegarmos a Murias, um grupo extrovertido de três peregrinos espanhóis nos ultrapassou. Falavam em tom alto e riam muito quando nos cumprimentaram! A Sônia não gostou muito deles! Eu sempre respeitei muito sua forte intuição feminina! Acabei aprendendo, com o tempo, que na maioria das vezes ela tinha razão quando desconfiava de alguém! Nesse trecho, encontramos pelo chão muitas mensagens escritas e cujas letras eram formadas com pedras retiradas da estradinha que corria paralela. Alguns instantes depois um peregrino excêntrico e de bike passou, nos cumpri-mentou, disse algo que não entendemos, e sem parar, seguiu adiante. Rebocava um carrinho, provavelmente feito por ele, onde levava a mochila e uma haste comprida com a bandeira espanhola! Apesar de a temperatura estar a 17 graus sentíamos frio por causa do vento que soprava contra!

Havíamos saído de Astorga às 8h35 e caminhávamos há quase 5 horas quando passamos, sem parar, por Santa Catalina de Somoza e depois por El Ganso onde chegamos depois de enfrentarmos uma boa subida. Demos duas paradas para bater fotos e logo retornamos à estradinha asfaltada e deserta. Só que próximo de Rabanal del Camino tivemos que andar compartilhando o espaço com um movimento um pouco maior de veículos, que sem contrariar o hábito dos espanhóis, passavam por nós "voando", o que nos obrigava, muitas vezes, a sair para o mato para nos proteger! Iniciamos, então, uma nova e extensa subida para chegarmos à cidade. A Sônia já cansada pediu para pararmos várias vezes, afinal já estávamos caminhando por quase 7 horas e os 9 quilos de sua mochila "pareciam" ter 20! Lembramos do velho peregrino de feições nipônicas que encontramos nesse trecho em 2001 e que simplesmente havia feito o Caminho dez vezes! Gostaríamos de tê-lo encontrado de novo nesse ano! Mais um peregrino, também espanhol, um tanto apressado, passou por nós; depois de trocarmos algumas saudações seguiu adiante.

Chegamos a Rabanal pouco depois das 15 horas. Notamos que inauguraram mais hostais na cidade, coisa rara na rota, pois notamos, na maioria das vilas por onde passamos, um despovoamento . Rabanal, ao contrário, estava tendo um surto de turistas por causa da singeleza do lugar e da sua altitude, acima dos 1.100 metros; com isso havia mais pessoas trabalhando e morando na cidade, principalmente no verão! Fomos direto para o Hostal El Refúgio e, ao entrarmos, encontramos o proprietário almoçando com a família. Pedi licença e perguntei se ainda havia almoço àquela hora e ante a resposta positiva subimos ao primeiro andar, deixamos as mochilas no quarto, e retornamos para o restaurante. Quando estávamos no meio da refeição, entraram 3 peregrinos, sendo que duas peregrinas do grupo já conhecíamos. Ao nos verem ali sentados, vieram nos cumprimentar e saber como estávamos "indo" no Caminho. Reconhecemos a jovem irlandesa que gentilmente parou para nos ajudar quando a Sônia levou o tombo perto de Pamplona! A outra era a peregrina francesa alta que desde o início a acompanhava com outro grupo; o outro peregrino não conhecíamos. Eles falaram qualquer coisa com o dono do hostal e logo foram embora! Acredito que tenham perguntado onde ficava o albergue local.

Gostamos de Rabanal, uma pequena vila, toda arrumada, limpa, as casas bem conservadas, uma jóia mesmo; apenas sofria do mesmo mal tão comum às outras do Caminho: a desertidão de suas ruas. Quase não se via uma alma viva, nem uma criança, nenhum adolescente. Nós, como brasileiros, estranhamos muito esse despovoamento das pequenas cidades do interior espanhol, pois no Brasil, como todos sabemos, a população jovem é maioria em todas as regiões e cidades e, em meus 60 anos de existência jamais vi uma localidade em que não houvesse numerosos jovens e crianças circulando pelas ruas! Ficamos sabendo que o governo espanhol está tentando reverter esse quadro sombrio, ao facilitar a imigração de famílias inteiras de outros países, como a Argentina, Chile, etc. principalmente para as vilas mais despovoadas! Depois do almoço, retornamos para o quarto e não mais saímos do hostal.

À noite, descemos para fazer um pequeno lanche no bar e tivemos oportunidade de conversar com o rapa

z encarregado de atender os fregueses. Ele era sobrinho do dono e nos contou, com orgulho, que o tio tinha sido um antigo garçom de um restaurante em Ponferrada, a pouco mais de 30 km dali, e que batalhou muito na vida para conseguir ser proprietário daquele hostal!