28 de outubro de 2002
Foi com uma grata surpresa que, ao fecharmos a porta do nosso quarto para irmos embora, coincidentemente vimos a Maryse e o Roger fazer o mesmo. Faziam alguns dias que não os víamos; pensamos até que não os encontraríamos mais, pois este é um fato muito comum entre peregrinos: Encontros e desencontros, pois cada um segue naturalmente seu Caminho! Foi com sorrisos e abraços que nos saudamos! Eles, assim como nós, caminhavam sempre sozinhos. Não vimos uma vez sequer algum peregrino os acompanhando! Seria, talvez, a barreira da idade, pois era o casal mais velho que vimos? Difícil responder! Descemos as escadarias, ainda em sua companhia, fechamos a porta que dava para a rua e seguimos em direção ao bar para entregarmos as chaves ao proprietário e fazer o pagamento. Nossos amigos, diferentemente de nós, não estavam com as mochilas. Deduzimos que iriam iniciar a caminhada mais tarde, pois ficaram no bar para tomar o desjejum e ainda teriam que retornar ao hostal para pegar seus equipamentos! Solicitei, ali no balcão mesmo, ao dono, o carimbo em nossas credenciais; em seguida, trocamos nossos endereços e nos despedimos do casal. Nada nos faria supor que ainda nos encontraríamos!
A saída da cidade é pela parte antiga, e, contrariando nossos hábitos, havíamos nos hospedado na parte nova; então, tivemos que atravessar novamente a ponte sobre o rio, caminhar por um bom número de ruas, sempre, é claro, seguindo as setas amarelas, até acharmos o Caminho. Ainda tivemos que subir uma extensa ladeira, e, já fora do perímetro urbano, passamos por um pequeno bosque de pínus. Nesse trecho inicial, após deixarmos o bosque para trás, a Sônia me chamou atenção para as pequenas cavernas, ou covas, escavadas nas encostas de arenito. Elas serviam para abrigar e esconder os primeiros habitantes da cidade, que se sentiam inseguros nessa região!
Continuamos nossa caminhada, já prevendo que o dia seria de muito calor, pois àquela hora da manhã, em torno de 9h30, o termômetro já marcava 14 graus! Atravessamos então um labirinto de estradinhas rurais com múltiplos cruzamentos. Mas as setas amarelas continuavam sempre presentes nos guiando e nos dando segurança! Nos trechos em que tivemos dúvidas também coloquei algumas fitas para facilitar aos que ainda iriam passar por ali. Os campos à volta ou estavam plantados com extensas parreiras ou totalmente arados. Aproveitei, nesse dia, para colher muitos cachos de uvas. Elas sempre eram pequenas, azuis e muito doces. Eu tinha um certo receio em chupá-las pois não podia lavá-las e nem sabia se continham agrotóxicos! Era um risco! Mas o fato de as estar colhendo gratuitamente era muito tentador e eu acabava sempre assumindo esse risco! Quando, mais adiante, estávamos parados para um pequeno descanso, um peregrino jovem, de feições germânicas e de bike passou em velocidade sem nos olhar ou cumprimentar. Estava com a fisionomia fechada! Estranhamos bastante aquele comportamento! Poucos minutos depois passa também um casal de peregrinos bem mais velhos e que deveriam ser parentes dele, pois notamos que havia semelhança entre eles, quando, na véspera, os vimos passeando juntos pelas ruas, ainda em Nájera.
Pouco mais de duas horas após termos saído de Nájera, chegamos à pequena cidade de Azofra. Demos uma pequena parada e entramos na farmácia local para comprar um rolo de esparadrapo. Também repesamos nossas mochilas que continuavam com o mesmo peso de uma semana atrás! Não tínhamos caminhando nem um quilômetro, depois de sairmos da cidade, quando ao sentar para tirar uma pequena pedra de uma das botas, a Maryse e o Roger passaram. Antes, deram uma pequena parada para falar com a gente. Como de hábito, estavam alegres e tranqüilos, embora estivessem suados e com os rostos vermelhos por causa do sol e calor. A temperatura aumentava a cada instante e esse estava sendo um dos dias mais quentes até então! Ruim para a Sônia, que já começara a se queixar de algum cansaço! Em seguida, nossos amigos seguiram adiante, e, como sempre, sumiram em pouco tempo, de nossas vistas! Um pouco mais à frente, já com o termômetro marcando 26 graus, avistamos quatro peregrinas francesas, sendo que três delas já conhecíamos ao pararem para falar com o Marcelino, na estrada do Parque de la Grajera. Iam um pouco separadas, já demonstrando que estavam em ritmos diferentes provavel-mente por causa do cansaço e calor!
Estávamos na região de La Rioja, famosa pelos seus vinhos de excelente qualidade e esse trecho é bem descampado e de muitas ondulações em seu relevo, de forma que há poucos lugares sombreados para o peregrino se abrigar do sol! O que vimos depois foi o resultado da inclemência do tempo. A Maryse e o Roger, sentados embaixo de uma enorme árvore. Estavam lanchando e bebendo algo. Mais um pouco à frente ultrapas-samos primeiro três integrantes do grupo de francesas. Estavam visivelmente "no bagaço"! 500 metros adiante, alcançamos a outra companheira delas na mesma situação. Essa última reclamou muito do calor ao passarmos por ela, e concordando, seguimos nosso caminho! A Sônia também estava muito cansada e, assim, foram constantes nossas paradas, Tínhamos aprendido bem a lição, pois no Caminho anterior quase não descansávamos, e o resultado era o acúmulo de cansaço! Qualquer barranco ou arbusto isolado servia para nos abrigar do sol forte! Ao olharmos para trás, numa grande reta da estrada, e 15 minutos mais tarde, não vimos mais ninguém. Tínhamos quase certeza de que pegaram carona em algum carro, possivelmente no utilitário que passara por nós poucos instantes atrás, pois notei que estava repleto de mulheres! Acreditamos que tenham aproveitado a ocasião, já que nesse trecho havia alguns carros estacionados ao lado de uns galpões. Provavelmente estavam a serviço da empreiteira que construía ali um enorme complexo aquático, pois vimos extensas escavações e enorme cartaz anunciando o evento! O cantil, pela primeira vez, estava quase vazio, e a partir daí não bebi mais, pois senti que a Sônia precisava se hidratar mais que eu!
Passamos por Cirueña , sem entrarmos na cidade, pois o caminho apenas margeava sua zona urbana. Gostamos porque tudo que queríamos naquele momento era chegar o mais rápido possível "sãos e salvos"! Quem nunca carregou uma mochila pesada às costas dificilmente pode imaginar a sensação de alívio que nos invade ao nos livrarmos dela no fim de longos quilômetros! Como já tive as duas experiências, posso dizer que é semelhante à chegada de uma maratona! Bem, mas ainda faltavam pouco mais de 4 quilômetros para Santo Domingo, ou seja, em torno de hora e meia! Nesse dia, pela primeira vez, as moscas, de que tanto ouvi falar, nos perturbaram bastante. Durante grande parte do trajeto elas voavam em torno de nossas cabeças. Tínhamos que enxotá-las a toda hora agitando braços e mãos! Eram simplesmente irritantes! A causa principal do aparecimento repentino daqueles insetos era o forte calor incidente sobre o esterco usado nas plantações da região. Não raro vimos carros rebocando grandes recipientes de dejetos das casas e despejando no campo!
Entramos em Santo Domingo através de uma longa avenida! Havia, nesse trecho, muitos galpões repletos de montanhas de batatas. Curiosamente de longe mais pareciam de pequenas pedras! Semanas depois, vimos noticiário na TV mostrando agricultores despejando nas ruas de algumas grandes cidades, e para o povo, centenas de toneladas de batatas. Era uma forma de protesto pelo baixo preço alcançado no mercado atacadista! A agricultura intensiva espanhola estava dando seus frutos mas acarretando freqüentemente distorções na comercialização de muitos produtos!
Não tínhamos uma noção exata de como encontrar o hostal das freiras, que já conhecíamos! O jeito foi perguntar a um senhor e depois a uma moça ! Tínhamos o nome da rua e assim foi fácil recebermos a informação! A cidade, uma das maiores do Caminho, mas um tanto descuidada e suja, fugia dos padrões de outras por onde passamos! Ao chegarmos na portaria , uma freira nos atendeu de forma circunspecta, mas atenciosa. A decepção foi o preço: 40 euros mais 16 euros pelo fraco jantar(os dois)! Quarto sem TV, rachaduras nas paredes, box do chuveiro diminuto com escoamento precário nos deixaram a impressão de que fomos explorados por aquelas "servas de Deus"! A alegria foi ter encontrado mais uma vez, também hospedados ali, Maryse e Roger. Acabamos jantando os quatro juntos e batemos um bom papo! No fim do jantar nos disseram que tinham terminado em Santo Domingo sua última etapa do Caminho. Iriam na manhã seguinte tomar um ônibus para Burgos e depois seguiriam direto para Charly, uma pequena cidade francesa próxima de Paris, onde moravam! Mais uma vez, senti alguma sensação de perda quando constatei que não os veria mais! Resquícios de minha infância, quando estudava em colégio interno e, para onde eu retornava todos os fins de tardes dos domingos, levado por meus pais, o que era uma contingência por causa do trabalho deles! Bem antes do jantar, que seria servido a partir das 20h45, resolvemos ir a um supermercado comprar os mantimentos de sempre, mas me deu vontade de fazer uma pequena "farra", daí levamos para o hostal o famoso "pão pecado" da Sônia, latas de coca-cola, cervejas alemã e sueca, pastelão, biscoitos incrementados, patê, etc. (Meu amigo Maurício que nos perdoe!). Passava pouco das 17 horas e a temperatura já baixara rapidamente para 14 graus!