27 de outubro de 2002
Fizemos um check-up geral nas mochilas, e aproveitei para transferir para a minha alguns itens que estavam sobrecarregando a da Sônia. Pouca coisa, pois ela não me deixou colocar mais. Já passavam das 8 horas, não tínhamos acabado de tomar nosso desjejum e ainda faltavam pequenas e últimas providências, que são corriqueiras mas que demandam sempre algum tempo como escovar os dentes, ir ao banheiro, recolher os objetos do lavatório, como cremes, pastas, sabonetes, calçar as botas e recolher os chinelos colocando tudo separadamente por grupos dentro dos sacos plásticos e arrumando dentro das mochilas. Havia sempre o cuidado de colocarmos os objetos mais pesados no fundo e mais próximos do lado que fica junto ao corpo. Era uma forma de evitar maior sobrecarga nas costas. Tinha que deixar minha "capanga", com documentos e algum dinheiro, sempre por cima, pois, se tivéssemos que tomar alguma condução não precisaríamos remexer em tudo para achá-la! Também ao chegarmos nos hostais tinha que apresentar logo os passaportes na portaria, que, invariavelmente ficava dentro dela. Sempre contávamos até quatro para verificar-mos se não estávamos esquecendo alguma coisa: Dois "feijões" (bolsa de pano, com documentos e dinheiro) presos às nossas cinturas por baixo da roupa, uma capanga e um "moedeiro" que eu levava num dos bolsos laterais da calça e que continha moedas e algumas cédulas. Claro, que tudo mais ou menos ia ficando automático e não levávamos muito tempo para todas essas providências!
Já eram 8h22 quando descemos e tomamos a direção de uma grande avenida que nos levaria para fora da cidade. Foram dois longos quilômetros com a maioria das lojas ainda fechadas. As pessoas que se dirigiam provavelmente para o trabalho àquela hora e com quem cruzávamos, nos olhavam insistentemente! Pura curiosidade, creio. Nas cidades menores os peregrinos não são novidade pois fazem parte do seu dia a dia, há séculos.
A temperatura de 9 graus junto ao fato de caminharmos nos dava uma gostosa sensação de bem estar. No fim da avenida, após passarmos por uma "gasolinera" dobramos à esquerda e entramos num bairro periférico (sem a conotação de periferia no Brasil)com ruas largas e desertas. O único barulho era o som de nossos bastões em contato com o chão: Toc...toc...toc...! Logo em seguida, já tendo saído da cidade, descemos por uma sinuosa estradinha e entramos numa larga e bem conservada pista de "cooper", cimentada, com bancos laterais de quando em quando! Os primeiros peregrinos do dia a passa-rem foram dois jovens. Eram de origem asiática! Apenas nos saudamos com um aceno de mão e com um "alô! âh!, etc. Estavam andando mais rápidos que nós, mas "asiaticamente" calmos. Alguns moradores também passavam nas duas direções, uns trotando, outros andando a passos largos. Logo lembrei-me das minhas corridinhas na Av. Beira-Mar Norte, em Floripa, tão gostosas, principal-mente nas manhãs ensolaradas de outono! Já se passara quase duas semanas desde meu último treino no Brasil. Quando voltasse iria estar "enferrujado", como aconteceu da outra vez! As caminhadas de Santiago não têm nada parecido com os treinos de corrida, quando a pulsação vai a 120/130. Pelas trilhas do Caminho o comum eram batidas cardíacas na faixa dos 50/60!
Mais à frente, um bom grupo de ciclistas também passou. Eram em torno de 8 a 10, mas já não tão jovens, talvez alguns já na faixa de 40 anos. A pista termina com o início do trecho "arbolado", quando começa o lindo Parque de La Grajera. Daí em diante, passamos a andar por trilha no meio de um bosque de pínus, onde, de quando em quando, havia toda uma estrutura para pic-nic, como churrasqueiras, sanitários, etc. Depois, andamos por um enorme descampado onde construíram um grande "pantano"(lago), que, acredito, seja próprio para pesca e/ou esportes náuticos! Vimos, nesse lugar, os dois peregrinos asiáticos descansando. Fiquei pensando se eram peregrinos mesmos ou simples mochileiros de fim de semana, pois não passaram mais por nós! Aproveitando a beleza do lugar, batemos algumas fotos inclusive uma em que apareço em cima de uma pequena e bem construída ponte de madeira sobre um riacho. Mais alguns corredores passaram ofegantes e suados; deviam estar correndo há um bom tempo, pois a cidade já havia ficado para trás uns 5 a 6 quilômetros! A temperatura subira sensivelmente com os raios de sol penetrando por entre as árvores. A Sônia pediu para eu verificar a tempe-ratura no termômetro que ela levava do lado de fora da mochila: fazia 26 graus! Ela já tinha dado sinais de que estava um pouco cansada por causa do calor! Aproveitamos para mais uma descansada e beber algum líquido!
Depois caminhamos mais através de uma sinuosa e estreita trilha com o bosque já ficando para trás! A surpresa nesse trecho foi enorme e gratificante, pois no fim de uma reta, diante de uma enorme e pesada mesa, dessas tipo churrasqueira, um homem de meia-idade, barbas longas, rosto sereno e calmo, mas com um olhar expressivo e um sorriso amigo, nos convidou para nos aproximarmos; Logo começou a oferecer-nos biscoitos, frutas, etc. Ante uma leve hesitação nossa, foi logo dizendo que não era para pagar nada. Era com amor que ela fazia aquilo, disse! Sentimo-nos atraídos de tal forma por aquele gesto de fraternidade, de amizade gratuita, que começamos ali um diálogo de mais de 20 minutos como se conhecêssemos aquele homem há muito tempo! Tal era o seu poder de atrair pessoas que tanto a Sônia como eu nos sentimos à vontade a ponto de eu em dado momento ter segurado sua barba e perguntado por quanto tempo ele a usava assim! Ele sorriu e disse: "Ha um longo tempo, desde que eu, há mais de vinte anos, comecei a fazer o Caminho" . Impressionado, perguntei quantas vezes ele já havia percorrido a trilha e ele me disse, com um brilho no olhar: "21 vezes!" Durante esses anos todos somente falhou agora, pois teve que fazer no início de 2002 uma complicada operação no abdômen! Então, abriu uma pasta contendo algumas folhas soltas, recortes de jornais, etc. tirou uma grande foto sua em que aparece travestido de autêntico peregrino medieval, com uma pesada túnica e um enorme cajado encimado por uma cruz metálica, que é o emblema da Ordem dos Cavaleiros Templários! Em suas vestes (na foto) um cinturão de corda com as pontas quase arrastando no chão levava presos um crucifixo e uma pequena cabaça, que serve para levar água! Ele firmou a foto em cima da mesa e escreveu sobre ela a seguinte dedicatória: "Para mis Amigos y peregrinos brasilenos, José y Sônia com afecto de este peregrino"- Assinado Marcelino Lobato - Logroño-27.10.2002.
Há poucos minutos atrás, nem conhecia aquele homem e, agora, estávamos ali conversando com tanta amizade que uma sensação de felicidade me invadiu, pois utopicamente senti por um momento como se toda a humanidade pudesse viver esse clima de amor e fraternidade! Havia um livro de presença em cima da mesa, onde pude ver também alguns desenhos feitos por peregrinos. Eu apenas escrevi meu nome, mas a Sônia fez um rápido desenho retratando aquele encontro. O Marcelino ao ver o desenho, riu satisfeito e disse que estava muito bom! À medida que conversávamos, ele ia nos oferecendo algo de quando em quando. Primeiro foram biscoitos, depois algumas nozes, em seguida pequenas peras. Por último, virou-se para trás e tirou de uma sacola duas avelãs com dedicatória escrita na casca e nos deu! Era para guardarmos como lembrança daquele momento! Nisso, chegou um peregrino de bike; parou um pouco afastado. Marcelino chamou-o e ele meio desconfiado acabou se aproximando. Chamou-nos atenção a quantidade de mochilas que ele levava na bike, além de outra enorme às costas. Ele era alemão e entendia um pouco de espanhol. Ficamos sabendo que antes de partir de Munique, tinha escalado os Montes Dolomitas, nos Alpes Italianos, depois atravessou de bike, parte da Alemanha, França e estava ali fazendo o Caminho de Santiago! Segundo a Sônia o alemão era "socadinho". É, ninguém fraco conseguiria a façanha de pedalar por todos esses países, com tantas mochilas! Pareceu-nos muito prático e de poucas palavras, mas foi simpático quando eu lhe disse que meus ombros doíam por causa do peso da mochila; balançando negativamente a cabeça, disse-me que o problema era das alças que não estavam bem ajustadas. Em seguida me rodeou, tentou apertá-las; como não conseguiu, pediu que eu as soltasse e as colocasse no banco. Em gestos rápidos e seguros ajustou-as. Coloquei-a de volta nas costas e logo senti que as alças não pressionavam mais meus ombros. Estava ali desvendado o mistério das dores! Depois, quando ele partiu, falei para a Sônia, que aquilo é que era o verdadeiro "milagre" do Caminho, ou seja, num pequeno gesto de boa vontade um peregrino que mal me conhecera, me livrara definitivamente daquelas dores! Antes de ele partir agradeci e abracei-o como se fosse, de verdade, um irmão! Aproveitamos também o clima e a presença de um casal de peregrinos de meia idade que se aproximou para pedir que batesse uma foto de nós quatro! Prometi que quando chegasse ao Brasil mandaria uma cópia para cada um! O Marcelino beijou a Sônia e a mim e nós a ele, e, com abraços, nos despedimos. Eu estava visivelmente emocionado!
Reconheço que não pude evitar que meus olhos se enchessem d´água. Embora não sendo místico, fiquei profundamente impressionado com aquele homem, com sua determinação em fazer o Caminho do mesmo modo como os antigos peregrinos o faziam, ou seja, a peregrinação ao túmulo do Apóstolo Thiago despojado de bens materiais, carregando o indispensável à sua sobrevivência, exercendo em toda a plenitude a fraternidade com o próximo com atos de amizade e amor! Ele devia ter um emprego, família, amigos, vizinhos, mas teve a coragem de superar preconceitos, enfrentar críticas, desculpar deboches pelo visual de suas vestes quando peregrinava, e seguir durante as últimas duas décadas o que seu coração e suas convicções mandavam! Ele estava ali, parado, em frente a uma mesa, fazendo o que fazia todos os anos durante suas caminhadas: Distribuía simplesmente fraternidade e amor!
Deixando o Marcelino entregue à missão que ele próprio abraçara, ainda pudemos ver mais 3 peregrinas, que mais tarde ficamos sabendo serem francesas, se aproximarem dele. Porém, não se detiveram muito tempo, pois uns 10 minutos mais tarde passaram por nós ao paramos para beber água próximos a uma cancela! Seguindo pela trilha, iniciamos uma pequena subida, já margeando a carreteira com telas de proteção, pois havia um barranco íngreme que nos separava da estrada asfaltada. Vimos inúmeras cruzes feitas de galhos de arbustos trançadas nessas telas. Era a prova viva do forte misticismo e da fé que envolvem grande parte dos peregrinos! Já podíamos ver Navarrete ao longe, com a torre de sua igreja se destacando no meio do aglomerado de casas em tom marrom!
Chegamos com sobra de energia na cidade, mas tivemos uma desagradável surpresa ao chegarmos em frente do Hostal La Carioca. Havia na porta de entrada um aviso informando que o mesmo se encontrava "cerrado" por motivo de descanso dos proprietários. Ficamos ali parados, não sem antes fazer uma crítica mal humorada aos responsáveis pelo estabelecimento, pois era o único hostal da cidade e achamos que se eles queriam descansar que colocassem alguém em seu lugar para tomar conta! Bem, mas de nada adiantavam nossas críticas pois a realidade era essa: Não podíamos permanecer ali! Estávamos com fome, então resolvemos almoçar num restaurante próximo! Enquanto isso teríamos tempo suficiente para resolver o problema! Almoçamos com toda a calma, pois ainda era cedo, em torno de 15 horas e ainda tínhamos muito tempo até que escurecesse! Depois do almoço, fui conversar com o dono do restaurante e indagar se ele conhecia algum taxista que pudesse nos levar a Nájera, a cidade seguinte! Como era domingo, ele disse que não havia táxi! Mas, diante de minha insistência, ele deu outro telefonema para um conhecido seu naquela cidade, e também taxista. Em seguida, desligou o aparelho e nos disse para esperar em torno de meia hora que o amigo logo chegaria para nos apanhar! Aliviados com a solução do problema, agradecemos sua gentileza e fomos aguardar o táxi, sentados num desvão da calçada junto à coluna do prédio do restaurante. Mais ou menos dentro do tempo calculado um senhor nos abordou educadamente ao nos ver ali sentados com as mochilas ao lado, e foi logo perguntando se éramos os peregrinos brasileiros que queriam ir à Nájera! Ante nossa resposta afirmativa, pegou uma de nossas mochilas e nos ajudou a colocar na mala do carro. Embora não quiséssemos tomar condução para avançar no Caminho, tivemos que nos conformar com aquela situação. Era a primeira vez nessa temporada que nos deslocávamos sem o uso de nossas próprias pernas, e sabíamos, não seria a última, com toda a certeza! Como dizia a famosa Madame Debril, francesa, ao dar as boas vindas aos peregrinos que começavam o Caminho desde Saint Jean Pied de Port: e sendo ela encarregada de dar-lhes a credencial: "O peregrino faz o Caminho quando pode e não quando quer!"
O motorista já conhecia um hostal bem no centro de Nájera e nos levou diretamente a ele, aliás, diretamente não, e sim para um restaurante próximo onde o proprietário também era o mesmo do hostal. Simplesmente ao nos ver e sabendo que queríamos um quarto, logo nos entregou a chave. Para nossa surpresa, o hostal era aberto pelo próprio hóspede sem que lhe fosse solicitado qualquer documento! Bem, o motorista ainda nos levou até lá, algumas centenas de metros distante; pagamos a corrida e agradecemos pelos serviços prestados ; apesar do pequeno contratempo de encontrarmos o hostal de Navarrete fechado, tudo foi resolvido da melhor forma. Eu falava constantemente para a Sônia que, com calma e serenidade, todos os pequenos problemas surgidos no Caminho ou na vida iam sendo solucionados e que não deveria ficar assustada com eles, pois isso não lhe fazia bem para a saúde! Como era Domingo, a maioria das lojas estava fechada. Não encontramos uma "tienda" sequer aberta! Nem padaria! Mas tivemos sorte, quando do outro lado da cidade, ao atravessarmos uma ponte metálica sobre um rio, encontramos aberto um único bar, onde compramos 2 caixas de leite, sanduíches mistos, e ainda fomos brindados com duas porções pequenas de tira-gostos. Ao pagarmos a conta, o proprietário nos fez uma proposta inusitada: Deixaria as duas caixas de leite de graça se enviássemos a ele alguns selos do Brasil! Ele era filatelista e fazia isso com todos os peregrinos estrangeiros que lanchavam em seu bar! Ainda nos mostrou um envelope que acabara de receber, da Holanda, contendo alguns selos! Achei a proposta um tanto singular, mas aceitei logo! Tomei nota do seu endereço, agradeci pela confiança, pagamos e fomos embora! Ainda andamos por algumas ruas, que estavam bem movimentadas. Ficamos conhecendo mais a cidade, que no ano anterior praticamente não tínhamos visto, pois naquela ocasião ficamos dentro da rodoviária local esperando o ônibus para Santo Domingo de la Calçada!