Livro Completo
De Sarria a Santiago de Compostela - via Lugo - de ônibus

16 e 17 de novembro de 2002


Saímos do hostal diretamente para a rodoviária. Uma chuva fina caía e a temperatura estava bem baixa. Andamos perto de um quilômetro, mas mesmo assim ainda tivemos que esperar o ônibus para Lugo por mais de meia hora. Ainda não eram 8 horas da manhã, portanto a rodoviária ainda estava deserta. Só nós e uma ou outra pessoa da manutenção. Ficamos sentados num banco bem no centro de um grande saguão circular e de onde dava para ver a chegada dos ônibus! Lugo é fora da rota de Santiago, mas era a única opção que tínhamos para chegar a Melide (cidade da rota), pois não havia ônibus direto de Sarria para lá!

Ao chegarmos na rodoviária de Lugo, uma cidade com aproximadamente 150 mil habitantes mas sem o charme de Burgos ou León, fomos imediatamente comprar as passagens para Melide. Demos sorte pois esperamos menos de 20 minutos pelo ônibus. O tempo chuvoso e frio estava se tornando um obstáculo para prosseguirmos a pé pelos últimos 50 quilômetros do Caminho. A Sônia já dava sinais de gripe ou resfriado e quando chegássemos a Melide tínhamos que tomar uma decisão, levando em consideração as condições do tempo e da Sônia: Ou recomeçaríamos a caminhada ou tomaríamos o primeiro ônibus para Santiago, no dia seguinte.

Chegamos a Melide ainda debaixo de chuva. Fomos procurar o hostal que já estivéramos antes. Não ficava muito distante de onde saltamos do ônibus, mas caminhamos bem uns 10 a 12 minutos até lá! Engraçado, que à medida que a distância para Santiago vai diminuindo os preços dos hostais também vão!. Dessa vez a diária nos custou 21 Euros e o almoço 6 Euros cada! A Galícia presenteava os peregrinos e turistas com preços nivelados por baixo. Não eram só os hotéis e restaurantes que eram baratos, mas as passagens de ônibus também!

Após o almoço, voltamos para o nosso quarto; a Sônia não estava se sentindo muito bem e entrou debaixo das cobertas! Eu precisei sair para comprar algumas frutas, pão, leite, etc. e dar uma rápida passada numa "internet"! Não havia nenhum e-mail da Gabi e isso era, novamente, um motivo de preocupação. Talvez fosse preciso telefonar para ela quando chegássemos a Santiago, afinal nosso encontro em Barcelona ainda estava de pé e a ausência de notícias dela nos deixava um tanto apreensivos! Retornei ao hostal em pouco mais de uma hora. Mal cheguei na porta de entrada, uma forte chuva desabou. Realmente o tempo "conspirava" contra nós! Bati na porta do quarto, acordando a Sônia. Ela tossia de vez em quando e naquele momento resolvemos abortar o último trecho restante de caminhada e tomar o ônibus para Santiago na manhã seguinte!

A verdade é que estávamos plenamente realizados com o total aproximado de 500 quilômetros percorridos, que englobavam não só o Caminho propriamente dito como as mil andanças pelas ruas, avenidas e praças de quase uma centena de cidades, vilas e pueblos, cruzando perto de um terço de todo o norte da Espanha! Para a Sônia, uma gigantesca vitória a ser lembrada por muito tempo, e para mim mais um sonho realizado! Foi com esse espírito que chegamos a Santiago, rindo de tudo, principalmente porque na Galícia todas as palavras em espanhol que contém a letra J se escreve com X e enquanto nos dirigíamos da rodoviária para a Praça do Obradoiro onde se localiza a Catedral de Santiago, íamos fazendo trocadilhos como: "Já estou de xaco xeio com exa xuva!", "exa xuva é a porrada final do Xanto", etc. etc. A Sônia pedia para eu parar de falar pois não agüentava mais de tanto rir e estava vendo a hora de ter que sentar no chão! Enfim chegamos em frente à Catedral. Chamávamos a atenção das pessoas, pois deveríamos ser os únicos peregrinos a chegar nesse dia. Uma jovem veio ao nosso encontro e vendo que eu estava com a máquina fotográfica na mão se ofereceu para bater uma foto nossa.

Depois de deixarmos as mochilas num hostal perto da Catedral, fomos a uma "internet" e lemos o e-mail em que a Gabi lamentava muito mas não poderia se encontrar conosco, pois seu emprego estaria ameaçado caso se ausentasse do país por alguns dias! Ela disse que provavelmente tiraria férias nos próximos meses e poderia passá-las no Brasil com a gente! Quando li o e-mail para a Sônia vi seus olhos se encherem d,água e me emocionei também! Nossa filha já estava ausente há mais de quatro anos e a vontade de abraçá-la e beijá-la era muito grande, mas teríamos que sufocar essa vontade ainda por algum tempo. Resolvemos não mais ir a Barcelona, que já conhecíamos, e optamos por conhecer Portugal, viajando de trem até o Porto, em seguida a Lisboa e finalmente, Madrid, onde pegaríamos o avião de volta para o Brasil!


Nota: Este diário foi escrito baseado nas minhas observações pessoais e, principalmente, nas anotações da Sônia ao fim de cada dia de caminhada.