12 de novembro de 2002
O dia amanhecera encoberto e a temperatura registrando 5 graus. Estávamos animados e com excelente disposição para colocar logo o pé na estrada. Tivéramos uma boa noite de sono, pois tudo funcionava bem. Até as camas que tanto estranhávamos por causa dos colchões macios demais, dessa vez estavam impecáveis e acordamos sem nenhuma dor nas costas. Fizemos nosso habitual desjejum reforçado, dei uma olhada embaixo das camas para ver se não havíamos esquecido nada, colocamos os últimos objetos e roupas dentro das mochilas e, bem agasalhados, descemos até o bar. Fizemos o pagamento da diária e das demais despesas efetuadas na véspera, agradecemos a boa acolhida que tivemos tanto do dono como do sobrinho e, prometendo voltar um dia, fomos embora. Já na rua, demos uma ultima olhada à volta como se quiséssemos gravar em nossas mentes cenas do local que tanto gostamos, e começamos a caminhada. Eram exatamente 9h30 e uma brisa leve e fria soprava. Ainda bem que estávamos agasalhados. Em pouco mais de 15 minutos, em plena trilha, a pequena vila já ficara para trás, escondida no meio da montanha! Havia poucas setas amarelas indicando o caminho e aproveitei para colocar meu primeiro pedaço de fita do dia, no alto de um arbusto. As fitas estavam chegando ao fim. Provavelmente só daria para mais dois a três dias! Perguntei a Sônia se ela tinha separado as pedrinhas que seriam depositadas no pé da Cruz de Ferro. Ela sorriu suavemente para mim, e apenas bateu no bolso do anorak! A paisagem à volta nos fazia esquecer o esforço da subida. Por precaução, fizemos um maior número de paradas para não submeter a Sônia a um esforço muito grande, afinal o trecho desse dia era um dos mais duros do Caminho.
De quando em quando a trilha era interrompida e tínhamos que caminhar pela carreteira praticamente deserta. Já estávamos andando há mais de 2 horas quando chegamos nas proximidades de Foncebadon, uma vila quase toda em ruínas. Ao nos aproximarmos de uma placa com o nome da vila e íamos bater uma foto, vi um enorme cão se aproximando. Ele vinha em nossa direção mas não me pareceu agressivo. Apesar disso, estava pronto para nos defender se precisasse e o cajado com a ponta de ferro era uma arma suficiente para demover qualquer má intenção daquele animal! Houve algum momento de tensão, mas não foi preciso nenhum gesto de defesa pois ele passou calmamente por nós sem se deter. Mais à frente, ao entrarmos na vila, vimos vários outros cães praticamente do mesmo tamanho e igualmente calmos. Todos estavam deitados e espalhados ao longo da rua principal. Notamos que dessa vez havia mais algumas casas reconstruídas e um hostal recém inaugurado! Acreditamos que as casas deveriam servir como apoio a caçadores. Todas estavam fechadas. O aspecto do lugar ainda era de desolação, sem ninguém à vista. Talvez na estação principal de caça e no verão houvesse algum movimento de pessoas por ali.
Atravessamos toda a vila em não mais de 5 minutos. Continuamos a caminhar a partir de então novamente por uma estreita trilha, com mato na altura de nossas cabeças. Estávamos atentos quanto aos bois e vacas; as pegadas na lama e o esterco "fresco" denunciavam sua passagem recente! Iríamos ter dificuldades caso houvesse um "encontro" com aqueles animais pelo simples fato de não haver espaço para desviarmos! Felizmente, numa bifurcação, reparamos que as pegadas continuavam em outra direção e assim pudemos continuar tranqüilos!
Mais à frente, deixamos a trilha e entramos na carreteira. Apesar das pesadas nuvens que se aproximavam por cima de nossas cabeças não temi quanto à queda de neve, pois o termômetro, que a Sônia levava preso à mochila, marcava 6 graus, um pouco distante da zona de precipitação! O máximo que poderia nos acontecer era pegar uma chuva mais forte, sem maiores conseqüências. Sentia que tanto a Sônia como eu estávamos num dos melhores dias do Caminho. Tudo corria bem, desde o atendimento cordial recebido na véspera, depois, uma noite bem dormida e confortável; e ainda, o sentimento de que nem por um instante estivéssemos arrependidos de estar ali, a quase 1.500 metros de altura, numa solidão gostosa, subindo com todo aquele peso às costas! Parecíamos estar no "céu", e como estávamos "perto" dele! É por essas e outras razões que o Caminho fascina, encanta e exala uma certa magia que dificilmente se esquece!
Alguns minutos de caminhada pela beira do asfalto e finalmente chegamos à famosa Cruz de Ferro. A Sônia me entregou a pedrinha que tinha pintado com meu nome e com a bandeira do Brasil. Depois pedi que ela batesse uma foto minha com a mão aberta. Seria a última lembrança antes de jogá-la no monte de outras milhares que compunham um emblemático pedestal. Confesso que minha fé em motivos religiosos fora abalada mortalmente há dezenas de anos atrás, mas na minha mente eu "via" ,naquele exato momento, milhares de mãos fazendo o mesmo gesto como se seus donos dissessem "este é o mundo que queremos, repleto de união, paz e amor entre todos os homens"! A Sônia também jogou sua pedrinha e sorrindo para mim perguntou se eu estava realizado por fazer aquilo. Disse que sim, pois mais que um ritual, aquele era um gesto simbólico que representava um pequeno elo da grande corrente de peregrinos que por séculos passaram por ali! Ficamos alguns instantes olhando para aquele monte, cada um mergulhado em seus pensamentos e sem dizer uma palavra começamos a caminhar devagar até entrarmos no ritmo normal. Dei uma última olhada para trás antes que a curva da estrada "apagasse" aquela visão!
Continuamos lentamente a subir, entramos novamente na trilha paralela e pouco depois tornamos a andar definitivamente pela carreteira. Passados pouco mais de 30 minutos, de repente, ouvimos o som próximo de um pequeno sino! Ao olharmos na direção de onde ele vinha, vimos ,com espanto, um senhor de barba branca, óculos escuros e boné, se aproximando e sorrindo. Tínhamos chegado sem saber, à diminuta vila de Manjarin, ou o que restava dela, e aquele senhor estava nos dando as boas vindas e nos convidando para entrarmos no albergue instalado nas ruínas de uma antiga e pequena escola. Era a única construção que restava no lugar. Aquele senhor era simplesmente o Thomaz, albergueiro que há oito anos acolhia durante todo o ano os peregrinos, sem cobrar nada, e sem deixar de dar acolhida por uma noite por mais numerosos que fossem!
>Entramos no que ele chamava de albergue, mas estava mais próximo de uma cabana tosca! Não havia luz elétrica, nem água corrente, nem conforto. Algumas toras de madeira sustentavam o teto de velhas telhas de ardózia! No canto da sala uma tosca estante abrigava centenas de velhos livros de todas as partes do mundo. Uns faziam parte de sua biblioteca que trouxera de sua "outra" vida. Outros eram presentes dos amigos que fizera ao longo dos últimos anos e que eram peregrinos como nós! De quando em quando um gato passava entre nossas pernas. Provavelmente era um de seus fiéis amigos e "encarregado" de manter os ratos à distância!
Na sala, apinhada de velhos objetos e toscas camas, uma velha mesa comprida de madeira bruta se sobressaía. Havia sobre ela um bule de café, panos velhos, caixa de fósforos, velas, um fogareiro e alguns pacotes de alimentos! Uma inusitada porta de vidro deixava entrar luz no ambiente um tanto escuro! Nada ali era sombrio, nem cheirava a mofo ou outros odores característicos de ambientes semelhantes. Um homem magro estava fazendo companhia ao Thomaz, mas não perguntamos de quem se tratava. Nos pareceu ter a saúde um tanto debilitada. Para sobrevivência, o nosso anfitrião tinha um pequeno soldo de sua aposentadoria, criava alguns patos e cultivava uma pequena horta. Depois de nos servir um café quentinho e gostoso ainda ficamos conversando por uns 15 a 20 minutos. Observamos haver em sua estante alguns livros do Brasil e a Sônia prometeu enviar alguns quando retornássemos ao nosso país!
Ao nos despedir ainda batemos cada um uma foto junto com eles. Admirei profundamente, e mais uma vez, um homem que deixou tudo de lado, sua vida anterior, seus antigos amigos, seus familiares, para se dedicar exclusivamente, sem nada pedir em troca além de uma simples amizade, a abrigar peregrinos em apuros, ou simplesmente de passagem! Comentei ainda sobre o Marcelino que vimos em Logroño e ele disse que o conhecia, mas que era loucura ele fazer o Caminho com aquelas pesadas vestes! Abraçamo-nos e beijamos a face daquele amigo que, sem querer, nos deixou uma profunda marca de um encontro fraterno! Fiquei pensando como deveria se sentir por dentro o Thomaz, ao dar abrigo a tantos peregrinos, cultivar amizades, mesmo que efêmeras, para no dia seguinte recomeçar tudo de novo! Quantos encontros e quantas despedidas, ano após ano! A resposta somente ele poderia dar! Depois de mais essa experiência humana fantástica, seguimos o nosso caminho.
Continuando pela carreteira, subindo mais um pouco, chegamos no alto da montanha. A partir de então começamos a descer, com cautela, um acentuado declive. Nossos joelhos e quadris acusaram um pouco o esforço, mas depois de aproximadamente dois quilômetros a descida ficou mais suave e pudemos, enfim, chegar a El Acebo tranqüilamente! Ao entrarmos no único restaurante da cidade, encontramos o grupo de espanhóis que passara por nós dois dias atrás. Estavam acompanhados de duas mulheres e notei que já haviam acabado de almoçar. Falavam um pouco alto e rindo muito. Na mesa, algumas garrafas vazias de whisky. Ao nos verem nos cumprimentaram efusivamente. Depois de responder aos cumprimentos escolhemos uma mesa um pouco afastada para almoçarmos mais à vontade! Sabia que o grupo era o mesmo com que a Sônia não simpatizara! Pouco depois, todos se levantaram para ir embora. Um deles, o mais discreto, veio até nossa mesa, acompanhado de uma das mulheres, para se despedir e falar qualquer coisa que não me lembro! Em seguida, todos saíram e seguiram juntos num mesmo carro! Já passavam das 16h30 quando terminamos de comer. Pedimos à garçonete para nos contratar um táxi. Ficamos sabendo que ela fazia essa gentileza com os fregueses, principalmente peregrinos que por um motivo ou outro não queriam descer o resto da montanha a pé. O carro teria que vir de Ponferrada e por causa disso ficamos esperando quase uma hora até que ele chegasse.
Uma Mercedes Benz preta e semi nova parou bem em frente ao restaurante. Perguntei ao motorista se era ele que iria nos levar a Ponferrada, pois ao saltar do carro nos olhou com alguma insistência! Depois de nos dizer o preço do serviço- 18 euros - nos ajudou a colocar as mochilas no porta-malas e fomos embora! Depois de uma descida sinuosa e 400 metros abaixo, chegamos ao Hotel Madrid, o mesmo em que nos hospedamos em 2001. O relógio marcava 17h45! Uma chuva fina e fria começara a cair no exato momento em que deixamos o táxi.
Tínhamos terminado ali uma das etapas mais importantes e inesquecíveis do Caminho! Estávamos um pouco cansados e sem ânimo para andar pelas ruas da cidade, mas eu sentia uma paz interior muito grande! A Sônia também estava com o astral "nas estrelas"! Então, depois de termos relaxado um pouco, desci pelo elevador até o térreo e reparei que havia um "buffet" de frutas no restaurante; Melhor assim, pois não precisaria sair a procura de uma "tienda". Escolhi duas maçãs, alguns pães, iogurtes e uma caixa de leite e pedi para o encarregado colocar tudo na minha conta! Ponferrada é moderna, rica, com largas avenidas e muitas lojas de griffe e grandes supermercados. Não havia semáforos para disciplinar o trânsito e dar segurança ao pedestre, uma vez que a educação do habitante local tornava desnecessária tal providência! A cidade possui um enorme castelo na parte antiga e que atualmente está sendo restaurado! Já o tínhamos visitado no ano anterior. À noite, antes de ir para a cama, ainda desci ao segundo andar e entrei numa sala onde havia um computador à disposição dos hóspedes; aproveitei que estava vazia e enviei alguns e-mails para o nosso pessoal no Brasil.