Livro Completo
Biscarreta a Zubiri - 10,3 km

18 de outubro de 2002


Deixamos as chaves do quarto em cima de uma mesinha junto à porta de saída do hostal, demos uma última olhada à volta para ver se a proprietária iria aparecer e saímos. Apesar da temperatura estar em torno de zero grau e o céu totalmente encoberto, não chovia. Embora curto, teríamos um percurso um tanto difícil pela frente, mas, também, um dos mais belos. A Sônia bateu um foto minha bem na frente do prédio para lembrarmos mais tarde desse momento. Iniciamos com os primeiros passos comentando sobre como seria esse segundo dia de caminhada, se lembraríamos de cada pedaço de trilha, das vilas, se sentiríamos as mesmas emoções.

Bem, a verdade, é que à medida que avançávamos íamos reconhecendo muitos detalhes já vistos e tanto eu como a Sônia brincávamos de adivinhar quem acertava mais o que vinha pela frente, seja uma curva, uma casa que estava em construção numa vila, uma ponte sobre um riacho, uma trilha fechada, etc. Sempre chegávamos à conclusão de que os dois empatavam, mas com elogios à memória de cada um! Nesse dia, ficamos surpresos com a quantidade de peregrinos, 18 , incluso nosotros, com que cruzamos, nenhum brasileiro, embora tenhamos encontrado um no dia em que chegamos em Roncesvalles. Falamos com ele quando se encontrava no balcão do bar, ao entrarmos no hostal daquela cidade. Depois de mais de duas horas de sobe e desce paramos para descansar. Estávamos em meio a uma trilha pedregosa, bem acidentada, com grandes árvores de ambos os lados. De repente, se aproximou um ciclista de bike, as roupas suadas e bem sujas de lama, e nos cumprimentou em espanhol, com um largo sorriso. Parecia alegre em nos ver. Depois que respondemos, nos disse ter ficado emocionado vendo a bandeirinha do Brasil no meu cajado e por encontrar um casal de sul-americanos! Longe de seu país, a Argentina, há exatamente cinco anos, e trabalhando como guarda-vidas num clube de Barcelona, aproveitava suas férias pedalando por vários países europeus. Já tinha atravessado toda a França a agora iria conhecer o norte da Espanha, através da Rota de Santiago. Trocamos algumas informações e comentários sobre vários assuntos, durante uns 15 minutos, inclusive as diferenças sociais entre nossos países e a rica Espanha. Como estávamos lanchando, dividimos com ele nosso sanduíche. Depois, com a saudação de buen camino, se despediu e seguiu adiante. Minutos antes, durante nossa conversa, um grupo de ciclistas espanhóis passou apressado nos cumprimentando rapidamente! De novo, sozinhos, recolocamos as mochilas nas costas e prosseguimos.

Estávamos em pleno Bosque do Erro, lindo e bem sinalizado e, atualmente, livre dos animais selvagens e salteadores que habitavam a região no passado. Os livros contam que muitos peregrinos, naquela época, eram mortos por animais e bandidos que ali se escondiam! Sabendo disso, podíamos imaginar como era difícil para o peregrino chegar são e salvo a Santiago. Por todos esses perigos surgiram, para protegê-lo, os cavalheiros templários! Então, foi fundada na Idade Média, a Legião dos Cavalheiros Templários. Uma organização que cresceu tanto e se tornou tão poderosa econômica e militarmente que mais tarde foi perseguida por reis e pelo clero. Estes, numa ação bem coordenada e em apenas um dia, expropriaram os bens de seus membros, prendendo e executando todos.

Continuando pela trilha ainda pedregosa, passaram por nós cinco americanos super equipados e também de bike. Eram três moças e dois rapazes; cumprimentaram-nos ligeiramente. Não sabemos como ou se chegaram ao destino, pois pedalavam de forma um tanto imprudente para aquelas condições de piso! Finalmente, mais dois franceses, entre 45 e 50 anos, desta vez a pé, nos alcançaram. Conversamos durante alguns minutos, quando um deles, o Patrick, nos disse que um dia iria ao Brasil, visitar um amigo, casado com uma brasileira! O resto do caminhada foi tranqüila, apenas uma vez ou outra nossa paz era perturbada por tiros de caçadores próximos. Algumas vezes eu precisava dar berros anunciando nossa presença! Era uma forma de evitar algum acidente mais grave. Se fosse possível eleger o inimigo público número um do peregrino este certamente seria o caçador, com méritos! Após 5h e 15 minutos incluindo as várias paradas para descanso, chegamos inteiros a Zubiri.

Bem diferente do ano anterior, quando uma tendinite no pé da Sônia a impedia de desenvolver uma passada mais solta. Fomos direto procurar a pensão do Sr. Jesus, o mesmo que nos levou de táxi para Roncesvalles. Ele já havia nos alertado, na viagem, dias atrás, de que a pensão estava cheia de hóspedes, mas que talvez ainda houvesse uma vaga para nós. Subimos três lances de escada de um prédio de seis andares, tocamos a campainha e surpreendentemente ninguém apareceu para nos atender. Insistimos mais um pouco e nada! Àquela hora, com fome e cansados, só nos restava a outra opção de hospedagem: Um hotel bem mais caro, 200 metros adiante. Paciência! Tínhamos que encarar! Cobraram-nos 48 euros mais 7% de I.V.A.(imposto sobre valor agregado), mas com direito ao café da manhã. Menos mal, pensei! Disfarçando nossa ansiedade, ficamos aguardando alguns longos segundos enquanto a recepcionista via no livro de hóspedes se ainda havia vaga. Com um sinal positivo solicitou meu passaporte e nos deu a chave do quarto. Essa Hosteria Zubiri, acabou sendo um prêmio para nós, pois tudo funcionava bem, tipo padrão europeu, eficiente, limpo, etc.

Depois de um dia de caminhada, nada como o conforto de um bom hostal para melhorar o astral! Deixamos as mochilas no quarto, lavamos o rosto e fomos procurar o restaurante que ficava quase 1 km dali. Era o único da cidade! Depois de um almoço bem farto e gostoso (25 euros), mais 1 km de volta. Entramos num mercadinho, compramos algo para o lanche da noite e trocamos algumas palavras com o proprietário do estabelecimento, que ficou com um riso maroto ao lhe perguntarmos se tinha pão integral! Ele apontou para um pernil defumado e disse: Isto é que é bom! Rindo, eu retruquei: É, eu sei, é bom para as artérias....! E fiz um gesto com as mãos como se dissesse que a artéria ficaria entupida! Claro, nada iria mudar o conceito alimentar de um senhor espanhol, dono de um mercado, acostumado a comer, durante toda sua vida, jamon com queso gordo, tapas (tira-gosto) e mais tapas, tudo regado a vinho! Agradecendo o atendimento cordial, retornamos ao hostal. Tomamos uma boa ducha para relaxar e recompor as forças e em seguida ficamos, como sempre, tecendo planos e fazendo o roteiro para o dia seguinte. A Sônia ia recolocando nas mochilas tudo que não iríamos usar nas próximas horas, a fim de não ficar muita coisa para arrumar pela manhã! Eu sempre insistia para ela aliviar o peso da própria mochila passando alguns itens para a minha, mas encontrava invariavelmente resistência de sua parte.