Livro Completo
Castildelgado a Belorado - 10,1 km
Belorado a Burgos - 51,6 km - de ônibus

30 de outubro de 2002


Eram 9h07 quando descemos as escadas e fomos até o bar do hostal para pagarmos o pernoite. Não me recordo do preço, mas foi algo em torno de 32 Euros. Não achamos caro pois tudo funcionava bem; até calefação nos corredores havia, o que não era tão comum assim! Ao entrarmos no bar, já com as mochilas às costas e prontos para partir, fomos alvos, mais uma vez, da curiosidade e dos olhares indiscretos das pessoas presentes, a maioria, com toda a certeza, de caminhoneiros.

Lá fora, um friozinho ameno de 12 graus foi bem recebido. Com o trecho razoavelmente pequeno, a temperatura favorável e o céu de brigadeiro, tínhamos certeza de que o dia seria dos mais agradáveis! A Sônia se sentia bem disposta, sem qualquer dor nos pés e eu, bem, não poderia reclamar de nada mesmo! Com excelente humor, iniciamos a caminhada logo atravessando a carreteira em frente. Não havia quase movimento de veículos nessa hora. O espanhol levanta tarde e começa a trabalhar mais tarde ainda! É o hábito deles! Em compensação, o término da jornada diária passa das 20h00. Atravessamos, também, toda a vila, e prosseguimos pelo "arcén" da Nacional (carreteira principal) num trajeto bem plano.

Mantendo uma boa média, mas sem pressa, avançamos pela estradinha de pedriscos cortada de vez em quando por pequenas pontes de madeira sobre riachos. Depois de quase meia hora caminhando, ao olhar para trás, vi o que pensei serem dois peregrinos se aproximando. Mas ao passarem por nós constatamos que se tratavam de simples caminhantes com suas sacolas. Mais a frente, um "jeep" sinalizando que ia sair da carreteira e entrar na estradinha nos chamou a atenção! O lugar um tanto isolado nos deixou em estado de alerta! O veículo entrou um pouco atrás de nós e se distanciou. Mas poucos minutos depois, escutamos um barulho de motor vindo em nossa direção; tornei a olhar prá trás: Era o mesmo "jeep". Um arrepio correu pelo meu corpo. E agora? O veículo se aproximou mais ainda, já então, em velocidade reduzida. Mas, qual não foi nossa surpresa, quando, logo em seguida ele tornou a entrar na carreteira e simplesmente sumiu! Se eu fosse o Paulo Coelho iria colocar aqui que era o meu guia espiritual, em forma de gente, verificando se tudo estava bem!

Viloria, cidade medieval e onde nasceu Santo Domingo de la Calçada, já estava bem à nossa frente. Cruzamos a "Calle Mayor" de ponta à ponta e totalmente deserta, a exceção de um senhor que ao nos ver acenou com um dos braços, sem levantá-lo, e logo sumiu por uma porta! Respondendo aquele tímido cumprimento, seguimos adiante passando em frente às ruínas da casa de S.Domingo. Ela fora destruída a mando de uma moradora local, provavelmente a vizinha, segundo soubemos. Quase uma hora depois, chegamos a Villamayor, pueblo mais pobre ainda e mais deserto. Aproveitamos, então, para descansar um pouco, beber água e fazer um pequeno lanche. Vimos um banco sobre a calçada e encostado a uma casa. Foi ali que paramos! Quebrei algumas amêndoas com pedras que vi no terreno em frente, e comi-as. Foram, sistematicamente, meu lanche durante muitos dias. Todas as manhãs, ao sair do hostal, eu separava umas 6 ou 7 e as colocava no bolso da calça para ir comendo durante o Caminho! A Sônia não comia nem gostava apesar de minha insistência dizendo que eram energéticas e alimentícias!

O céu foi ficando encoberto aos poucos e o frio também aumentou. Não demoramos muito ali e voltamos logo para a estrada; ainda tínhamos uma hora e meia de caminhada pela frente. Meus planos eram dormir em Belorado e chegar a Burgos caminhando, mas a Sônia achou melhor tomarmos um "autobus" porque o Caminho era todo pelo acostamento de uma rodovia super movimentada, além da quase total ausência de hostais nos pueblos seguintes! Claro que concordei! Chegamos a Belorado através de uma trilha estreita por trás de casas e barrancos à direita. Depois de entrarmos na cidade, atravessamos uma praça onde um simpático velhinho nos indicou um restaurante nas imediações. Segundo a Sônia, o lugar era "muito bonitinho, gostoso e barato". Eu também achei! Acabamos almoçando por 6 Euros cada e com a gentileza especial da senhora que nos pareceu ser a dona!

Nosso destino nesse dia era Burgos. Perguntando aqui e ali ficamos sabendo que o penúltimo ônibus para aquela cidade sairia às 14h15. Ainda faltava pouco mais de uma hora, mas resolvemos assim mesmo ir para a "rodoviária", que já sabíamos, ficava embaixo da marquise de um prédio, junto à carreteira. Começou a cair uma chuva fina, esfriando mais um pouco; então, antes de sair do restaurante vestimos os anoraks, em seguida atravessamos de novo a praça que ficava em frente e demos logo de cara com um peregrino francês; apesar da estatura baixa sua mochila era surpreendentemente grande. Também portava um vistoso guarda-chuva xadrez e logo que nos viu veio em nossa direção. Trocamos saudações e conversamos ligeiramente sobre de que cidade tínhamos saído e para onde íamos, etc. Depois, como se fosse uma cena de teatro em que o pano cai, cada um de nós seguiu seu destino. Era mais um encontro e mais uma despedida, assim é o Caminho!

O nosso ônibus chegou dentro do horário, pra nosso alívio, pois já estávamos esperando em pé há mais de uma hora! Pagamos 2,27 Euros por cada passagem e escolhemos duas poltronas bem no meio do veículo e do lado direito que, segundo nosso entendimento, são as mais seguras. A viagem foi tranqüila, mas deu para observar o grande movimento na carreteira e a grande subida para San Juan de Ortega, que teríamos que enfrentar, caso resolvêssemos fazê-la a pé; estava a mais de mil metros sobre o nível do mar! Entramos em Burgos, através de longas avenidas arborizadas. O ônibus levou perto de 20 minutos da entrada da cidade até a rodoviária. Pudemos constatar, mais uma vez, o grau de desenvolvimento e riqueza do lugar! Para chegarmos ao hotel, que já conhecíamos, foi fácil. Claro, colocamos as mochilas nas costas e andamos pouco mais de um quilômetro até lá. Fomos atendidos atenciosamente pela recepcionista, que, sem saber, nos ofereceu o mesmo quarto em que ficamos da outra vez! O preço da diária de 54,65 Euros, mais impostos(7%) foi um pouco caro para nossos bolsos, mas a Sônia merecia esse conforto e descanso. Iríamos aproveitar dois dias para fazer um pouco de turismo. Nessas ocasiões, apesar de privados do prazer das caminhadas pelos campos, era gostoso ficar na cama até mais tarde sem enfrentar estradas, trilhas, sol, chuva, vento, frio, etc.

Em Burgos, desde que chegamos até a hora em que fomos dormir a Sônia sentia-se cansada (se "arrastando", conforme ela costuma dizer) e com dor de cabeça. Talvez fosse melhor ficar repousando no quarto do hotel, mas essa hipótese não passava por sua cabeça, queria aproveitar todos os minutos na cidade para "ver" tudo! Depois de uma boa ducha e espalharmos nossas "tralhas" pelo quarto, vestimos nossas roupas "fashion" (nome que demos, por brincadeira, às roupas que só usamos quando não estávamos caminhando) e fomos visitar a enorme Catedral, uma das maiores e mais bonitas da Europa. Quando a vimos da última vez estava cercada de andaimes e sendo restaurada, mas agora a encontramos toda limpa e sem o aspecto envelhecido de antes! No seu interior, nos sentimos transportados para muitos séculos atrás ao ver antigos túmulos cobertos por pesadas lajes de pedra; eram de reis, nobres, autoridades eclesiásticas, etc. Reparamos no desgaste das bases das colunas de sustentação provocadas pelo ato de sentar dos fiéis, durante centenas de anos. Nos alto-relevos já semi corroídos, incrustados nos nichos das paredes, igualmente nos faziam regredir a uma época que só conhecíamos através dos livros! No chão, íamos pisando também em lápides de túmulos de personagens provavelmente menos nobres, mas com prestígio suficiente para receber aquela última homenagem de serem sepultados em solo sagrado!

Saindo da Catedral, fomos, como de hábito, a uma "internet". Era a hora em que "esquecíamos" um pouco do Caminho para sabermos como andavam as coisas no Brasil, com nossos parentes e amigos, e na Tailândia, com nossa filha Gabi. A Claudinha escreveu e disse que a casa deles estava quase pronta; iriam se mudar no dia 8 de novembro e que a expectativa era muito grande; ela e o Marco estavam felizes por causa da vitória do Lula! A Gabi também escreveu dizendo que tinha terminado com o Ola (namorado sueco) e que iria se encontrar com a gente em Barcelona. A Sônia, na cadeira ao lado e lendo ao mesmo tempo que eu, soltou um "não acredito!! Recebi outros e-mails de meus irmãos, do Júlio, um personal trainer do meu grupo de corridas da UFSC, feliz também com o resultado das eleições e do Sérgio perguntando em que pedaço do Caminho estávamos e dizendo que continuava treinando firme para o Ironman em 2003. Respondi a todos, contando mais detalhes e acontecimentos de nossa aventura! Voltamos depois para o hotel, nos sentindo leves e felizes por saber que tudo estava bem com a nossa "turma"! A Sônia, apenas se lamentava de não poder entrar em contato com a Glauce naquele momento porque sua melhor amiga não estava conectada à internet!