07 de novembro de 2002
Levantamos bem antes das 7 horas e, ao olharmos pela janela, vimos que ainda estava escuro! Tínhamos um bom trajeto pela frente e também uma parte que desconhecíamos. No ano passado o trecho até Reliegos, de 12,8 km, foi feito de carro, mas neste ano, como a Sônia estava bem, resolvemos ir a pé mesmo! Já estávamos prontos para iniciar a jornada do dia, contudo tivemos que fazer um pouco de hora no quarto até que clareasse um pouco. Uns 15 minutos mais tarde demos mais uma expiada pela janela e vimos algumas nuvens pesadas ao longe e também um denso nevoeiro. Estava bem frio e o termômetro registrava exato zero grau! A Sônia insistiu para que eu colocasse as luvas, coisa que eu detestava, mas foi o que fiz. Então, descemos, deixamos a chave em cima do balcão, e, sem dar uma palavra com o marido da proprietária que estava ali, fomos embora! Notei que ele me seguiu com os olhos esperando talvez que eu fosse dizer qualquer coisa, como um "adiós" ou "gracias"; eu estava chateado demais com aquela gente e como não gosto de ser explorado e maltratado quis deixar naquele momento meu protesto silencioso! A Sônia, que me esperava na porta da rua, só observava!
Sentimo-nos aliviados ao sairmos dali e logo que começamos a caminhar, rapidamente "esquecemos" o mau atendimento. O Caminho era suficientemente prazeroso para que esses pequenos incidentes nos perturbassem por mais tempo! Tomamos a direção à esquerda e oposta de quando entramos na cidade, passamos pela parte mais simples e pobre da vila, onde predominava as casas de adobe ( semelhantes a casas de pau a pique, no Brasil) e, em poucos instantes, já estávamos em pleno campo. Nesse trecho, podíamos retomar o "andadero" interrompido quando entramos no dia anterior, em Burgo Ranero, mas preferimos caminhar pela estradinha secundária e asfaltada que paralelamente ia na mesma direção! Apesar do desconforto no hostal, tivemos uma boa noite de sono, por isso, estávamos cheio de energia e aproveitamos para acelerar as passadas. Rapidamente deixamos a cidade para trás, perdida no meio do nevoeiro. Senti um pouco de frio no pescoço então estiquei meu gorro prá baixo, deixando apenas os olhos e boca livres. A Sônia disse que eu parecia um guerreiro "ninja"!
Mais tarde, passou por nós o único peregrino do dia. Ia bem rápido com suas jovens e firmes passadas. Parou alguns instantes, trocamos algumas palavras, e, no meio da conversa, nos disse que iria fazer o trajeto de Burgo Ranero a León de uma vez só! Ficamos espantados, pois eram quase 40 quilômetros até lá! De quando em quando, pudemos ver pequenos paradores, um pouco afastados no meio do campo, mas que dispunham de enormes mesas e bancos de cimento. Acreditamos que devem ser bem mais úteis no verão quando o fluxo de peregrinos é infinitamente maior. Depois de mais ou menos 1 hora de caminhada firme, subimos uma pequena colina, depois cruzamos um também pequeno bosque, e, em seguida, atravessamos uma linha de trem. Por diversas vezes, nesse dia, vimos comboios passando ao longe e paralelos à estradinha onde caminhávamos. Mais pareciam lagartas gigantes e escuras, deslizando rápidas na imensidão verde!
Três quilômetros após o último cruzamento chegamos a Reliegos. Aproveitamos então para descansar e fazer um pequeno lanche; Essa cidade é famosa pelas caves, de origem muito antiga e rústica. Algumas se encontravam em estado de abandono, mas outras estavam sendo reconstruídas, modificadas ou simplesmente consertadas! A maioria é construída aproveitando o desnível do terreno. Vimos algumas caves nos fundos das casas de seus proprietários. Apenas o telhado da casa fica visível, ficando a cave num plano mais atrás e abaixo da superfície. Na frente de uma delas e junto à placa com o nome da cidade bati uma foto da Sônia.
Ao sairmos da cidade, já podíamos ver, seis quilômetros adiante, a simpática e acolhedora Mansilla de las Mulas. Continua-mos pela mesma estradinha paralela ao andadero, pois este, coberto de peque-nas pedras, castigava muito nossos pés! Mais a frente, já bem próximo de Mansilla ao passarmos sobre um viaduto, um bando de centenas de ovelhas surgiu diante de nós, ocupando toda a largura da via. Um enorme caminhão que vinha atrás teve que se curvar pacientemente à lentidão daqueles animais, seguindo-os em marcha ultra lenta! Desta vez aquelas ovelhas não se intimida-ram com nossa presença, já que são bichos normalmente arredios e assustados e algumas nos rodearam. Pareciam procurar algum alimento talvez, ou seria mera curiosidade? Saquei rapidamente a máquina fotográfica da mochila e bati uma foto da Sônia, registrando o inusitado encontro! Alguns minutos depois já estáva-mos no perímetro urbano da cidade. A Sônia, apesar de já estar demonstrando um certo cansaço, "galopava"! A toda hora era preciso pedir-lhe para andar mais devagar, pois tínhamos todo o tempo do mundo e não havia nada que nos obrigasse àquela correria! Sem que soubéssemos, a "pressa" da Sônia iria nos beneficiar mais à frente, pois ao chegarmos a algumas centenas de metros da rodoviária ela viu o "nosso" ônibus com destino a León passar em direção à rodoviária! Se já andávamos rápidos, a partir de então, não pude mais "segurá-la"! Parecíamos dois peregrinos fugindo de alguma coisa e, quase correndo, chegamos até o ônibus. Se tivéssemos demorado 1 ou 2 minutos não teríamos embarcado! Foi só o tempo suficiente para colocarmos as mochilas no bagageiro e sentarmos em nossas poltronas para o motorista dar partida. A Sônia, ainda ofegante, estava satisfeita por ter conseguido acelerar as passadas, evitando assim ficarmos esperando por mais algumas horas pelo próximo veículo!
Engraçado como todos os problemas que surgiam pelo Caminho iam sendo solucionados sem que fizéssemos esforço demasiado. Penso que um dos motivos para isso era o tempo disponível, e ainda, a mente tranqüila e livre, longe dos "pepinos" que no nosso dia a dia tumultuam freqüentemente nossas existências! Eu queria pernoitar em Mansilla, conhecê-la mais um pouco, pois me sentia atraído pelo seu misterioso astral, mas, no dia seguinte, teríamos que enfrentar uma caminhada perigosa pelo acostamento da movimentada carreteira até León, o que deixaria a Sônia tensa e nervosa! E como se não bastasse, teríamos que atravessar uma enorme ponte disputando o mesmo espaço com os veículos, sobretudo os gigantescos e velozes caminhões. De dentro do ônibus ainda pudemos constatar o perigo a que os peregrinos estão sujeitos, ao ver os carros passando muito próximos deles! O que levaríamos várias horas para percorrer, o ônibus gastou uns 30 a 40 minutos e logo já estávamos desembarcando na rodoviária de León.
Lembramo-nos perfeitamente que direção tomar para chegar ao Hostal Orejas, o mesmo em que ficamos da outra vez! Atravessamos a avenida em frente à rodoviária , e um pouco à esquerda passamos por uma ponte sobre o rio, dobramos novamente à esquerda passando pelo belo "passeo" ao lado e, 500 metros adiante, pisando num tapete de folhas de "plátano"(lembrei-me da antiga canção "autumn leaves", uma das mais bonitas que já escutei), atravessamos outra avenida e, finalmente, entramos no casco antigo onde se situava o hostal. Não houve problema de disponibilidade de quartos mas os preços foram mais uma vez indecentemente majorados. Ainda chegamos a tempo do almoço. Como se tratava de hostal-residência, encontramos muitos rostos que nos eram familiares logo ao entrarmos no restaurante; a maioria, velhas senhoras viúvas a apenas um senhor. Diferentemente do ano anterior, notamos que a quantidade da comida fora reduzida e a qualidade piorado!
A troca da moeda local para o euro continuava a fazer alguns estragos mas acreditamos que com algum tempo os ajustes iriam sendo feitos e as distorções pouco a pouco sanadas! Terminado o almoço, fomos ao quarto para descansar, arrumar as roupas e objetos dentro dos armários, etc. Mais tarde, repetindo o hábito diário, fomos à "tienda", a uma "internet", andamos despreocupadamente pelas ruas da cidade como se fôssemos moradores locais, visitamos a enorme catedral e seus magníficos vitrôs, revisitamos pontos turísticos que já conhecíamos e depois, já meio cansados, retornamos ao hostal. A temperatura no final da tarde desse dia era de 10 graus, bem acima da registrada em 2001 quando, na mesma época, uma forte nevasca cobrira totalmente de branco a cidade!