17 de outubro de 2002
Acordamos um pouco cedo demais para quem ficou mais de 24 horas sem dormir, mas nos sentíamos bem dispostos e cheios de energia. Estávamos ansiosos para colocar logo o "pé na estrada'! Eram 7h30 e uma garoa persisten-te teimava em nos brindar no primeiro dia de caminhada. Preparamos um substan cial café da manhã com os ingredientes integrais que trouxemos do Brasil , colocando tudo na "cuia do monge', apelido que a Sônia dera para a vasilha onde fazíamos nosso desjejum ou o lanche da noite. Depois arrumamos tudo dentro das mochilas e descemos para pagar o pernoite (34,58 euros mais 7% de iva). Aproveitamos e pedimos o dono do hostal para colocar o "sello' nas nossas credenciais. "Sello' é o carimbo que todo peregrino solicita quando chega nas cidades onde dorme e "credencial' é o documento que serve para provar os lugares por onde ele passa, o que lhe dá o direito de receber, na chegada, em Santiago, a "Compostelana', (certificado de conclusão da rota)! Para nós, servia apenas para ficar de lembrança dos lugares em que passamos! Enfim, iniciamos, ainda debaixo de chuva, nosso primeiro dia de caminhada. Munidos de anoraks e capa de chuva nas mochilas, demos uma última olhada na vila (Roncesvalles é composta de uma enorme Colegiata, dois hotéis, uma igreja e duas casas antigas e reformadas) e entramos na rota através da carreteira (estrada) que passa em frente do hostal.
Algumas centenas de metros adiante entramos num bosque, cuja trilha fora recentemente cimentada, mas sem perder seu encanto original por conta das folhas de outono que a cobriam inteiramente. Com o corpo leve, e mal sentindo o peso das mochilas, vencíamos facilmente a trilha do bosque, com uma deliciosa temperatura de 10 graus. Continuamos caminhando num ritmo bom passando por estradinhas entre fazendas. Podíamos ver a beleza do gado pastando na relva ainda verde para a época! Íamos abrindo e fechando porteiras com inscrições e recados de peregrinos riscados à ponta de canivete ou caneta! Atravessamos, depois de 3 km, a pequena, limpa e calma Burguete, cortada ao meio pela carreteira. Apenas algumas centenas de metros e já estamos na outra ponta da cidade. Uma chuva fina de quando em quando caía, não nos deixando retirar os anoraks e causando o pequeno incômodo de suarmos constantemente. Um pouco mais adiante, depois de um descampado, novamente um bosque, maior, num sobe e desce constante. Dava pra ver ao longe, quando a floresta permitia, as vilas lá embaixo; seu casario em estilo rural, tudo muito organizado. Nessa região de Navarra predominam as casas avarandadas e repletas de flores pendendo de seus sobrados. As cortinas rendadas dão um ar mais leve às pesadas construções de centenas de anos. Muitas delas ostentam, na fachada, até hoje, brasões que em épocas passadas serviam para identificar a nobreza de seus proprietários. Nesse dia tivemos contato pela primeira vez, nessa temporada, com peregrinos.
O primeiro, um francês, de uns 45 anos, estava fazendo o Caminho em sentido oposto. Ao passar por nós seu cumprimento foi efusivo. Muito gentil, ofereceu para bater uma foto minha com a Sônia e também aproveitamos para fotografar nosso primeiro colega peregrino. Infelizmente esquecemos de pedir seu endereço e não pudemos enviar-lhe a foto, como sempre fazemos nessas ocasiões. Quando nos despedimos, notamos que ele ia tomar a direção de um atalho fora da rota, mas a Sônia avisou-o e ele agradeceu com um aceno, tomando o rumo certo! Mais adiante, ao atravessarmos uma carreteira asfaltada, passamos por outro peregrino, alemão, que ficou um tanto impaciente com a nossa dificuldade de comunicação(não falamos alemão). Carregava um guia nas mãos e estava um pouco indeciso sobre que rumo tomar. Continuamos nosso trajeto depois de nos despedirmos, ele seguindo pela carreteira e nós pela trilha. Achamos que não estava querendo sujar as botas!
Eu levava na mochila um rolo de 40 metros de fita amarela: Minha colaboração peregrina era pendurar, de vez em quando, nas árvores, nas cercas, etc., um pedaço, sinalizando que era por ali o Caminho! Antes da viagem a Sônia cortou o rolo da fita em pedaços de mais ou menos 40 centímetros. Nesta última encruzilhada usei o primeiro pedaço. Depois, após algumas dezenas de metros e olhando para trás , me senti orgulhoso por ter feito minha parte, vendo-a se agitar com a brisa. Era como se eu deixasse ali, também, uma lembrança da minha passagem. Claro que o Caminho está cheio de setas amarelas pintadas nas pedras, nas árvores, nos postes de iluminação, nas calçadas, nos muros, etc. Mas de vez em quando não havia nenhuma sinalização e era aí que mais um pedaço saía do meu bolso, direto para um galho de árvore, bem à vista de todos! Menos de 1,5km depois chegamos em Biscarreta. Ninguém pelas ruas, só um cão cruzou por nós meio desconfiado, mas seguiu o seu caminho. Tocamos a campanhia do único hostal, instalado numa casa rural de perto de 200 anos e bem conservada! A dona, uma senhora aparentando um pouco mais de 70 anos que já conhecíamos do ano passado custou a abrir a porta. Por um instante pensamos na hipótese de estar fechado, pois a temporada de maior fluxo de peregrinos já havia cessado há mais de um mês. É comum alguns hostais interromperem suas atividades para férias de seus proprietários. Mas, para nosso alívio, a senhora apareceu, mastigando algo; com um sorriso econômico nos indicou uma escada e junto subiu para nos mostrar "la habitación'. Não nos reconhecera... pretensão nossa!
Deixamos as mochilas no quarto e fomos ao único bar-restaurante da vila. Eram quase 15 horas quando começamos a almoçar: Macarrão, carne e batata fritas, além do vinho da casa e refrigerante. Esse menu seria uma constante durante todo o Caminho. Pagamos 15 euros com direito à cara mal-humorada e entediada da jovem que nos atendeu! Éramos os únicos fregueses, acho, até aquela hora! Depois, aproveitando que a chuva havia cessado, demos um giro por algumas ruas próximas. Passamos em frente a uma pequena e velha igreja, contornamos a praça e voltamos para o hostal.
Pagamos, adiantados, os chorados 33 euros da diária e subimos para o quarto. Ainda bem que havia TV numa saleta ao lado, assim como uma pequena estante com alguns livros à disposição dos hóspedes. Ficamos horas lendo e fazendo o tempo passar. A Sônia aproveitou para lavar algumas peças de roupas e o nosso quarto virou literalmente um varal, com as ditas roupas penduradas nos mais estranhos lugares, como no fecho da clarabóia, nas cúpulas dos abajures, por cima das arandelas, etc. Enquanto isso, eu fazia o roteiro do dia seguinte, verificando distâncias, hotéis das próximas cidades, etc. Anotava tudo numa folha de papel, envolvia-a em saco plástico para proteger da chuva, e a colocava num dos bolsos laterais da minha calça. Durante o trajeto, constantemente consultava essas anotações. Por falar em saco plástico, quem olhasse para dentro de nossas mochilas ia achar engraçado, porque ao invés de encontrar as coisas simplesmente amontoadas, iria ver um monte de sacos plásticos contendo roupas, objetos, remédios e alimentos "escondidos' separadamente em seu interior. Tudo bem protegido para o caso de pegarmos uma chuva torrencial. As capas das mochilas não eram suficientemente protetoras nessas ocasiões!