09 de novembro de 2002
O primeiro ônibus para Hospital de Órbigo sairia às 13 horas. Assim, não havia como chegar a Astorga nesse mesmo dia como gostaríamos. Como era sábado, forçosamente iríamos repetir a situação de 2001, quando chegamos nesta última cidade e a encontramos deserta e tendo, inclusive, enorme dificuldade em achar uma padaria ou "tienda" aberta! Por isso, ainda em León, compramos todos os mantimentos que eram necessários. Bem, ainda tínhamos algumas horas livres, então, fomos novamente a uma "internet", a 100 metros do hostal, mas dessa vez não havia nenhuma mensagem na caixa de correio. "Naveguei" por quase 1 hora procurando saber notícias do Brasil, do Mundo, etc.! Depois, andamos mais um pouco pelas ruas próximas e retornamos em seguida para pagar o hostal, colocar as últimas coisas dentro das mochilas e ir para a rodoviária aguardar nosso ônibus. Embarcamos exatamente dentro do horário previsto.
A curta viagem até Hospital foi tranqüila, mas deu para observarmos da janela que a rota, sempre margeando a carreteira, não tinha uma árvore sequer. Como o dia estava ensolarado, com certeza teria sido penoso para a Sônia, caso tivéssemos resolvido fazê-la a pé! Essa possibilidade, contudo, nunca existiu pois o único hostal desse percurso ficava ainda muito próximo de León, restando, assim, uma grande quilometragem a ser percorrida no dia seguinte!
Rapidamente chegamos e com a temperatura na casa dos 26 graus. Para quem estava há semanas caminhando sob 10 graus ou menos, nos ressentimos com esse aumento súbito, principalmente a Sônia! O nosso ônibus parou bem próximo do hostal que queríamos, ou seja, na beira da carreteira, na entrada da cidade. Não tivemos sorte na escolha, pois, logo que entramos no estabelecimento, a proprietária(filha) sentada junto ao balcão do bar se mostrou quase indiferente ao solicitarmos um quarto. Entregou-nos a chave, sem exigir qualquer documento! Parecia aérea ao responder a uma pergunta ou outra que eu lhe fazia, como, por exemplo, se havia almoço, se havia televisão para os hóspedes, etc.
Quando íamos subir as escadas para o quarto o pai, um senhor de aspecto um pouco rude, mas atencioso, se mostrou bem mais interessado e nos perguntou se tínhamos sido bem atendidos, se queríamos algo, etc. O hostal, enorme, um verdadeiro elefante branco, super dimensionado, nos pareceu decadente e mal construído conforme fomos observando. Eu e a Sônia sempre procuramos "achar" uma explicação para tudo, de dessa vez "achamos" que aquele senhor deveria ser um antigo fazendeiro, que cansado da atividade no campo, provavelmente teria se desfeito de suas terras, seu gado, sei lá, e se metido, sem conhecimento de causa, no ramo hoteleiro. E, claro, também "achamos" que foi passado para trás pelos empreiteiros, pois tudo funcionava mal e os detalhes da construção chegavam a verdadeiros absurdos! Possivelmente, a filha, que nos atendeu, devia viver contrariada por ter que ficar ali plantada dia após dia atendendo aos poucos hóspedes! Depois, quando descemos para almoçar no enorme e vazio restaurante, a mesma mulher nos atendeu com igual desinteresse! Mas, para completar todo o quadro a comida servida foi terrível, abaixo da crítica! Só salvou mesmo a atenção da cozinheira que, apesar de ter feito uma "gororoba", se esforçava em ser agradável e gentil! Ah! Antes do almoço, quase "torramos" ao entrarmos no quarto; totalmente sem ventilação, com as portas de vidro fechadas dando acesso para a sacada frontal , transformava todo o ambiente numa verdadeira sauna! Por questão de segurança, tínhamos que mantê-lo fechado!
O Caminho, muitas vezes, não era duro por causa das caminhadas, das quilometragens percorridas, mas sim por outros fatores, como o habitual desconforto dos hostais, a forma um tanto ríspida e seca como os espanhóis em várias ocasiões tratam os peregrinos, os preços cobrados além do razoável, etc.! Como era sábado à tarde, o comércio praticamente já tinha encerrado suas atividades, mas mesmo assim, depois do almoço fomos dar um giro pelo centro da cidade. Andamos em torno de um quilômetro até lá.
O que vimos de interessante foi uma enorme ponte medieval, alta, com uns 300 metros de extensão, cruzando um largo rio. Conta a história, que no ano de 1400, um personagem importante do lugar, para provar seu grande amor por uma dama, num certo dia, se postou em cima dessa ponte junto com 9 amigos e guerreiros e, num torneio, impediu a passagem de quem quer que fosse. Segundo a história, perto de trezentos homens tentaram derrotá-lo, sem contudo conseguirem! Depois o herói seguiu para Santiago, onde doou uma valiosa jóia para o "Santo"!
Ficamos alguns instantes parados ali no alto da ponte tentando imaginar como deveria ser a vida naquele local, há tantos séculos! É impressionante como a toda a hora e durante os dias em que fizemos a rota, "viajávamos" pela história como se estivéssemos presentes, naquela época remota, trajando pesadas vestes, de sandália e cajado, tomando vinho em tabernas e comendo, talvez, o que se podia caçar no mesmo dia! Lembrei-me do amigo Marcelino, que procurou nos últimos 20 anos encarnar a figura do peregrino autêntico! Excentricidade ou não, eu o admirava por isso, mais uma vez! Tinha ele a coragem dos seres humanos que não mediam esforços para perseguir seus ideais de vida, seus sonhos! Havíamos caminhado calmamente até o outro lado da ponte, e assim, tivemos que retornar por ela para chegarmos ao hostal. Antes, fomos ao supermercado comprar mantimentos. Cobraram até a sacola - alguns centavos de euro apenas - Pudemos constatar a eficiência da única funcionária da caixa, quando estávamos na pequena fila e ficamos admirados com a rapidez que ela ia despachando os fregueses.
A Sônia não estava se sentindo muito bem com o calor reinante no quarto e ficou um bom tempo na sacada para se refrescar e respirar melhor. Quando fôssemos dormir teríamos que forçosamente fechar as portas de vidro pois as sacadas eram grudadas umas às outras e não queríamos que houvesse a possibilidade de alguém entrar no nosso quarto por elas. A noite foi um sufoco e acordamos várias vezes! De madrugada, a temperatura caiu bastante e assim, tivemos umas duas a três horas de sono.