Livro Completo
Frómista a Carrión de los Condes - 19,2 km

03 de novembro de 2002


Acordei várias vezes durante à noite; não havia nenhum problema físico ou material que me incomodasse, mas meus pensamentos um tanto difusos não me deixavam relaxar. Algum stress me acompanhava durante todo o Caminho. O motivo, sem que ela soubesse, era nossa filha Gabriela, pois tinha receio de que por um motivo ou outro houvesse um desencontro em Barcelona. Isso me causava uma constante ansiedade. Eu também me preocupava com a Sônia, pois sabia o quanto era importante para ela esse encontro. Vencido pelo cansaço acabei adormecendo. Quando acordei, a Sônia já estava de pé e andando de um lado para o outro procurando colocar algumas coisas dentro das mochilas. Passava um poucos das 7 horas! Ela foi até a janela para ver a temperatura que marcava no termômetro que deixara do lado de fora: 8 graus! E chovendo! Mais uma vez , teríamos que colocar as capas nas mochilas, e vestir os agasalhos junto com os anoraks! Que outono molhado, pensei!

Da outra vez tivemos mais sorte com o tempo, pois durante todo o Caminho apenas uns poucos dias de chuva e nada mais! Mas nesse ano, dizem, o "El Niño" originado nas águas do Pacífico, nas costas da América do Sul, na altura do Equador, estava influenciando também o clima na Europa. Alguns países, como a Alemanha, República Tcheca, França, etc. já tinham sofrido graves enchentes por conta do fenômeno! Um pouco antes de sairmos do quarto, a Sônia foi mais uma vez até a janela para ver se continuava chovendo e viu alguns peregrinos saindo do albergue na rua em frente. Eram nove ao todo! Provavelmente vão ao bar para tomar o café da manhã, eu disse!

Descemos, em seguida, as escadarias, (sempre as escadarias!) fizemos o pagamento, pedindo que o encarregado da portaria carimbasse nossas credenciais e partimos. A cidade estava deserta àquela hora, ainda mais sendo Domingo! Passamos por uma rua estreita e reta e em menos de 10 minutos já estávamos atravessando um pequeno viaduto já fora do perímetro urbano. Nesse trecho, alguns peregrinos do grupo que saiu do albergue, passaram e nos saudaram com o habitual "buen camiño!". Mais alguns minutos e entramos numa senda ao lado da carreteira.

Até recentemente o Caminho passava um pouco distante algumas centenas de metros desse local, mas a agricultura intensiva, ocupando cada vez mais espaço de terra, obrigou as autoridades a fazerem um novo traçado. Agora, o peregrino tinha que se sujeitar a uma espécie de "andadero" retilíneo, com marcos de cimento de quando em quando impedindo o trânsito de veículos. Alguns minutos depois, os peregrinos que passaram eram apenas pequenos pontos se deslocando quase na linha do horizonte! Fomos passando por diversos pueblos, sem nos determos. Quando atravessávamos a vila de Villarmentero de Campos vimos uns 3 a 4 peregrinos sentados junto a um quiosque e lanchando! Acenei para eles com o bastão e continuamos em frente! Logo depois que deixamos a cidade, havia um local com várias mesas feitas de pesas lajes de pedra, com bancos idem, debaixo de uma grande árvore.

Já estávamos caminhando há quase três horas apenas com pequenos intervalos para descanso, então resolvemos fazer uma parada mais prolongada ali, inclusive para comermos algo! Tiramos as mochilas, espalhamos algumas coisas para comer em cima da mesa e aproveitamos para bater uma foto minha. A Sônia não quis ser fotografada nessa hora! Uns dez minutos após, o grupo que estava lanchando no quiosque passou. Ficaram curiosos quando me viram quebrar algumas amêndoas, mas apenas sorriram e não fizeram nenhum comentário! Essa tinha sido a primeira vez que durante todo o trajeto não tiramos sequer uma peça de roupa, seja a suéter ou o anorak, pois a temperatura continuara fria, em torno de 10 graus e o chuvisco parava e voltava a todo instante! Meia hora já se passara e assim, resolvemos partir dali. Ainda faltava pouco menos da metade do percurso para chegarmos a Carrión e me recordei que da outra vez a Sônia ficara muito cansada nesse pedaço! Pouco depois de passarmos, sem entrar, por Villalcázar de Sirga, vimos do outro lado da carreteira, no meio do campo, dois caçadores com suas armas descansando nos ombros e alguns cães correndo à frente. Já sabia que iríamos encontrá-los, pois era domingo e, esse era o dia predileto para caça! Ficamos, mais uma vez, em estado de alerta e um tanto intranqüilos, pois nunca se sabe o que pode acontecer quando caçadores e peregrinos se cruzam! Já tínhamos lido e visto pela TV notícias de acidentes, alguns trágicos, entre os próprios caçadores e entre estes e os habitantes locais. Procuramos apertar o passo, pois queríamos passar o mais rápido por eles.

Contudo, já tínhamos percorrido muitos quilômetros e a Sônia, com os nove quilos da mochila estava se superando além das expectativas, mas eu sabia que ela já estava cansada. Por diversas vezes pedi que me desse sua mochila, mas ela recusava ajuda. Achava que não devia me sobrecarregar, etc.! Eu até já havia encontrado um jeito bem cômodo de levar as duas sem me cansar muito. Não queria que acontecesse como no ano anterior quando ela, durante o mesmo percurso, sentou no chão extremamente exausta e desanimada. Então, num dado momento, segurei uma das alças da sua mochila e disse-lhe com firmeza que chegara o momento de ajudá-la, do mesmo jeito que ela sempre me ajudou em diversas ocasiões em nossas vidas! Finalmente ela acabou concordando. Faltavam apenas 1,5 km até Carrión! Passei os dois braços pelas alças e abracei o equipamento dela.

Não foi tanto esforço assim! Para falar a verdade nem cansado fiquei. O fato é que a força física masculina é muito superior à feminina e, o que são 9 quilos para quem pesa 72 e ainda leva uma mochila de 15. Percentualmente não é lá essas coisas! Traduzindo; foi um grande alívio para ela e um pequeno esforço para mim! Essa foi a primeira vez em que eu levava a mochila para ela. Nos dias anteriores em que ofereci ajuda ela não aceitou. Comprovadamente, os treinos da Beira-Mar Norte, em Floripa fizeram efeito! Pouco antes de chegarmos a Carrión devolvi a mochila para que entrássemos na cidade cada um com a sua. Afinal, todo peregrino tem seu brio e ela não queria atravessar a cidade sem seu equipamento! Foi assim que logo chegamos ao hostal La Corte, também já conhecido. Entreguei, como na maioria das vezes, meu passaporte na portaria, subimos até o quarto deixamos as mochilas e logo descemos. O horário do almoço estava quase terminando, mas pudemos comer tranqüilos e sem pressa.

O restaurante ainda estava cheio de gente, não só de hóspedes mas principalmente de moradores locais que aproveitam os domingos para almoçar fora de casa. Experimentei, acho que pela primeira vez, codorna assada! Gostei, mas a Sônia não quis pedir o mesmo prato. Penso que ficou com pena do bicho, ainda mais que ficara chocada com a foto pendurada à parede de um restaurante em Redecilla del Camiño, em que aparece uma roda de caçadores em volta das aves abatidas no chão! Terminado o almoço e um pouco mais tarde, às 17h30, já bem descansados, fomos a uma "internet", a uma "tienda" e em seguida retornamos ao hostal. Estava chegando ao fim mais um dia; pouco a pouco a proximidade do inverno fazia com que a temperatura caísse bastante ao anoitecer!