23 de outubro de 2002
O barulho característico de carros passando sobre o chão molhado nas ruas, embora as janelas do quarto estivessem fechadas, me dava a certeza de que iríamos começar a jornada com mais um dia de chuva. Antes mesmo de levantar da cama, fiz alguns exercícios abdominais e alongamentos, o que acabou acordando a Sônia. Ela estava com um ar bem descansado e descontraído! Nem parecia que tinha se cansado tanto na véspera, ao atropelar, corajosamente, os duros quilômetros até ali! Essa alternância de estado físico dela, às vezes, ainda me surpreende. Ela é capaz de, num determinado momento, fazer um grande esforço, que a maioria das mulheres não ousariam, sem se sentir extenuada; em outra ocasião, mal começa qualquer atividade e já não se sente com a mesma força! Tínhamos mais uma dura caminhada pela frente e torcia para que se sentisse bem disposta e com energia o resto do dia. Pagamos os 30 Euros da diária e nos despedimos da Sra. Cristina. Perguntei antes se podia beijar-lhe as faces em sinal de gratidão pela acolhida simpática, e ela, com um sorriso sereno, mas cansado, disse que sim. A Sônia também fez o mesmo!
Durante todo o trajeto, desde o primeiro dia de caminhada, pedíamos aos donos dos hotéis, dos restaurantes, bares, etc. que colocassem o sello(carimbo) em nossas credenciais. Era a prova mais que evidente de nossas passagens pelos pueblos, vilas e cidades. Serviria principalmente para guardarmos como recordação importante do Caminho!
Com 14 graus de temperatura, ainda um pouco alta para a hora, 8h22, e também para a época, iniciamos a jornada do dia. Antes fomos até uma farmácia próxima comprar um rolo de esparadrapo e aproveitar para pesar nossas mochilas. Fiquei espantado com o peso das duas, a minha com 15,1 quilos e a da Sônia com exatos 9 ! Elas já haviam ultrapassado sensivelmente o limite recomendável de 10% do peso de cada um de nós! Claro, que jamais concordamos com essa recomendação que consta de maioria dos livros que lemos sobre o Caminho. Achamos desprovida de maiores fundamentos, pois é notória a vantagem masculina em se tratando de força física. Esse era um dos nossos questionamentos para o fato, além, é claro, de achar os limites muito baixos, principalmente para o peregrino homem, pois 10% de seu peso é muito pouco para limitar sua força e resistência. A Sônia, que não é atleta, levou sua mochila de 9 quilos tranqüilamente, salvo numa trilha ou outra em que sentiu alguma dificuldade! Finalmente, julgo que cada peregrino deve estabelecer seus próprios limites.
Percorremos algumas ruas de Estella, passando em frente ao albergue de peregrinos. Não havia qualquer movimento por lá, mas alguns metros adiante, encontramos um peregrino espanhol vindo em sentido contrário. Após os cumprimentos recíprocos, perguntamos se ele estava voltando de Santiago, pois alguns fazem a rota na direção contrária! Ele disse que não, mas que tinha acompanhado um companheiro até a saída da cidade. Continuamos por mais algumas ruas, passando por um bairro de casas novas, muitas ainda em construção, subimos uma ladeira e em seguida atravessamos uma avenida movimentada. Assim, já na periferia da cidade, fomos deixando Estella para trás e, quase que simultaneamente entramos em Ayegui e tão rápidos como entramos, saímos ao atravessar uma carreteira e indo em direção a Irache. Tomamos um pequeno desvio para passar em frente ao antiqüíssimo Monastério construído em várias épocas distintas, desde a medieval, há centenas de anos, até a mais recente onde o estilo barroco predominava. Perguntei à Sônia se ela queria entrar para uma visita, mas, como o percurso do dia seria longo e com certo grau de dificuldade, ela achou melhor darmos apenas uma pequena parada em frente e bater uma foto para recordação!
Antes, já havíamos parado em frente a uma vinícola, chamada Bodegas Irache. Essa vinícola mantém duas fontes a disposição de qualquer peregrino que passe por ali: Uma com água potável e outra com vinho! No ano anterior ficamos decepcionados pois a torneira do vinho não saía nada, estava seca! Mas dessa vez, realizei meu desejo e tomei um vaso de vinho delicioso. Tive tentação de repetir a dose, mas, pensando nos quilômetros que tinha pela frente, desisti! A Sônia não quis nem provar! Quando chegamos na vinícola, já estavam lá, sentados junto a um muro, um jovem peregrino americano e sua namorada. Aliás, já os tínhamos visto antes, a caminho de Estella. Chamou-nos atenção, naquela ocasião, o fato de eles caminharem ligeiramente mais rápidos que nós, embora a moça mancasse e tivesse no rosto uma expressão de cansaço e dor. Apesar disso, nos pareceu também, decidida a qualquer custo, completar a rota! Tentamos, ali, em frente à Bodega, iniciar uma conversação. Mas, eles não estavam muito a fim de prolongar qualquer conversa e apenas ficamos sabendo que o rapaz era de Boston e a moça, de Filadelfia! O fato simpático, ali na hora, foi quando a Sônia ia bater uma foto minha em frente às torneiras, uma servente, que fazia a manutenção do lugar, se ofereceu prontamente, para bater uma foto de nós dois! São fatos pequenos e simples assim, amistosos, que vão marcando o Caminho! Depois nos despedimos dos americanos, da servente, agradecendo efusivamente seu gesto, e seguimos em frente. Após o Monastério de Irache, começaram a surgir atrás de nós vários peregrinos. Em primeiro passou o Gabriel, como sempre, conversando animadamente, e desta vez, com o alemão fleumático que encontramos quando saímos de Pamplona; cumprimentamos os dois ligeiramente e demos a entender que, naquele momento, queríamos caminhar sozinhos, sem ninguém para forçar nossas passadas! Logo, dois franceses, passaram, cumprimentaram e seguiram em frente sem parar! Em seguida, em passos rápidos, um canadense junto com outro espanhol. Não me recordo do nome deles, mas me lembro que perguntei ao canadense se ele era um quebequoir. Não sei se é assim que se escreve aquele que nasce em Quebec, mas a pronúncia era quebequá! Ele disse um NON! tão peremptório ,que deixou claro o quanto tinha orgulho de dizer ser natural de Montreal! Aos poucos, todos esses peregrinos foram se distanciando e, novamente, eu e a Sônia estávamos a sós, na cadência de nossas passadas tranqüilas! Penetramos, alguns poucos quilômetros depois, num bonito e lamacento bosque. Uma chuva fina teimava em cair, o que fez baixar um pouco a temperatura. Mais a frente, já tendo saído do bosque, caminhamos por uma carreteira secundária, e, sempre subindo, chegamos à pequena vila de Azqueta.
Logo na entrada, uma enorme retroescavadeira fazia serviços na rua por onde iríamos passar, mas quando nos aproximamos o condutor parou a máquina totalmente para nos tranqüilizar. Ao chegarmos, adiante, numa curva, notamos que um senhor baixinho e gordo nos acenava e fazia sinal para nos aproximarmos dele! Ele estendeu a mão, nos cumprimentou e disse: Eu sou o Pablito! Lembrei-me logo do nome e fui logo perguntando: Ah! Usted es que hace bastón? Com orgulho e um sorriso confiante ele respondeu que sim! Depois, lhe disse que eu também fazia os meus próprios bastões. Ele olhou para o meu e apontou dizendo que estava bem feito, mas não devia tê-lo envernizado nem tê-lo feito de bambu, pois ficou liso demais e quando chovesse iria escorregar nas mãos! Politicamente, apenas sorri, pois não queria contrariar aquele personagem saído diretamente das páginas do livro. Pablito gostava de conversar com todos os peregrinos de passagem e acabava sempre oferecendo a um e a outro um bastão rústica e carinhosamente fabricado por suas mãos calejadas. A Sônia aproveitou e registrou com uma foto esse encontro! Prometemos lhe enviar uma cópia logo que chegássemos ao Brasil. Quando lhe pedimos que nos desse seu endereço, disse: Escreve no envelope apenas Pablito - Azqueta - Espanha. Foi o que fizemos depois! Após atravessarmos a cidade, passamos por campos arados e inúmeras parreiras, subindo e serpenteando por uma estradinha estreita na montanha. Rapidamente, chegamos ao topo. Foi surpreendente como subimos esse trecho bem mais rápido que no ano anterior! A Sônia estava bem apesar da dorzinha persistente num dos tornozelos, resultado da primeira queda, perto de Pamplona! A temperatura tinha baixado mais um pouco e estava em torno de 10 ou 11 graus! O vento soprava, então, com alguma intensidade!
Continuando pelo topo do morro, passamos em frente a uma interessante e antiqüíssima fonte romana. Isolada no meio do caminho, sem nada à volta a não ser a vegetação rala e alguns arbustos, a fonte está localizada no interior de uma edificação com abertura frontal em dois arcos; uma escadaria bastante íngreme termina numa pequena piscina de águas escuras. Julgamos ser essa uma das obras mais interessantes do Caminho. Alguns minutos mais de caminhada e chegamos a Villamayor de Monjardin. Passamos em frente a uma garagem e vimos um senhor no seu interior trabalhando em algo. Pedimos licença e perguntamos se ele poderia nos indicar onde ficava um tal restaurante, que vimos anunciado num cartaz. Notamos sua contrariedade em interromper o serviço para nos dar a informação. Foi até a rua apontou para uma estrada, que ficava bem abaixo do nível da cidade e grunhindo algumas palavras nos deu as costas e nos deixou meio plantados ali no meio da rua. Mesmo assim, agradecemos e pedimos desculpas por interromper-lhe o trabalho. Procurei compreender seu mal humor, afinal havia uma diferença entre nós e aquele senhor; enquanto estávamos fazendo algo prazeroso, andando por caminhos que nos faziam sonhar, que nos transportavam para um estado mental de constante euforia, ele estava ali, dentro de uma garagem mal iluminada, um tanto insalubre, tentando resolver algum problema mecânico, pois tinha ao seu redor um monte de peças metálicas soltas!
Seguimos em frente descendo por um atalho através de um caminho estreito e sinuoso pois vimos que ele iria nos levar mais rapidamente à saída da cidade. Seguimos depois por uma estrada de terra batida, retilínea, onde, uns 800 metros adiante, havia uma placa indicando à esquerda, o tal restaurante. Para chegarmos até lá teríamos que fazer um desvio de mais de 300 metros, subindo uma ladeira! Perguntei à Sônia se ela queria almoçar lá, mas ela desistiu. Tínhamos ainda mais de 12 quilômetros pela frente e o melhor seria pararmos um pouco adiante para lancharmos. À noite, então, quando chegássemos em Los Arcos, jantaríamos! Claro que concordei! O almoço seria apenas um pretexto para fazermos uma boa pausa para descanso. Nosso desjejum era sempre bem substancial e àquela hora - passado um pouco das 13 horas - ninguém estava com muita fome!
A temperatura de 14 graus e o vento frio nos auxiliou bastante nesse longo trecho; lembramos, quando passamos por esse lugar no ano anterior, que fazia bastante calor e fora bem mais difícil que desta vez. Mas, como nem tudo são flores, a Sônia reclamava de vez em quando dos tornozelos. Ela já estava tomando antiinflamatório há quase dois dias, por isso tínhamos esperança de que a dor cessaria a qualquer momento! Logo mais a frente, numa grande reta da estrada vimos dois peregrinos. Como havia uma boa diferença de estatura entre eles, julgamos tratar-se do alemão e do Gabriel, além do que o primeiro andava sempre com roupas escuras, facilmente identificável de longe! Não conseguimos alcançá-los. Deduzi que chegamos a vê-los porque devem ter parado para almoço; era a única explicação, pois andavam mais rápidos que nós! Numa encruzilhada adiante paramos onde havia bancos de cimento e uma fonte de água potável. A verdade é que durante todo o trajeto existe de quando em quando um lugar para o peregrino descansar e beber água! Soltamos as mochilas e, ao mesmo tempo que lanchávamos, aproveitamos para relaxar um pouco. Ficamos ali em torno de meia hora. Quando já estávamos nos preparando para partir chegou o casal de americanos. Perguntaram se podiam ficar ali descansando um pouco! Of course, please! respondi. Eles agradeceram com um sorriso, mas, como das outras vezes, sem nos olhar diretamente! Logo em seguida recomeçamos a andar!
Eu me sentia bem disposto e leve; a Sônia, também se sentia assim! O resto do trajeto, foi tranqüilo, pois a estrada nesse ponto era plana, sem altos e baixos, com o piso de saibro e sem pedras. Os americanos, depois de mais ou menos 40 minutos, nos alcançaram. Nós os vimos ainda fazendo uma pequena pausa mais a frente e logo seguiram adiante, para em poucos minutos desaparecem no horizonte! Foi a última vez que os vimos! Houve uma ou duas vezes que tivemos dúvidas em que direção tomar, pois algumas encruzilhadas não estavam bem sinalizadas! Era preciso usar de bom senso e dedução, como marca de pisadas e furinhos das pontas dos bastões no chão, etc., para seguir no rumo certo! Mais uma vez, minhas fitas amarelas foram úteis ! Já perto de Los Arcos, faltando, talvez, uns dois quilômetros, vimos um casal de meia idade passeando. Não eram peregrinos! A cidade não poderia estar muito distante. Vimos também, numa estrada paralela, uma mulher levando um carrinho de bebê, acompanhada de outras duas mulheres. Estava terminando um dos trechos mais isolados do Caminho!
Enfim, chegamos, mas ainda tivemos que enfrentar a porrada final do Santo. Nome gaiato que eu e a Sônia inventamos para a última dificuldade do dia! E a porrada do dia foi a ladeira acentuada de acesso à cidade. Tivemos que subi-la por inteiro para chegar ao hostal. Mais tarde, quando estávamos no quarto descansando, escutei um vozerio que vinha do andar térreo. Não deu outra! Era o mesmo grupo de peregrinas alegres que já tínhamos visto várias vezes. Algum tempo depois foram embora! Ficaram em outro hotel! Gabriel, o peregrino espanhol, nos revelara, dias antes, que uma das mulheres havia lhe dito que o grupo ia terminar a caminhada em Logroño, e que os maridos e namorados de algumas iam se juntar ao grupo para alguns quilômetros antes percorrerem o Caminho juntos até aquela cidade! Quando estávamos no restaurante do hostal, jantando, eis que as peregrinas apareceram de novo e foram se espalhando pelas mesas. Duas delas iniciaram um rápido diálogo com a esposa do proprietário! Dois a três minutos depois, de repente, todas se levantaram e um tanto contrariadas foram embora! A Sônia só faltou soltar foguetes! Com razão! Elas não eram nada discretas e algumas ficavam o tempo todo com sorrisinhos marotos em minha direção!
Fazia pouco mais de uma semana que saíramos do Brasil. Nesse breve espaço de dias já havíamos passado por tantas experiências, tantos lugares, que era inevitável alguma confusão de nomes de cidades, datas, etc.! Queríamos curtir cada minuto do Caminho, pois sabíamos que seria improvável rever tudo aquilo no futuro próximo(?). Los Arcos é um vilarejo parecido com os outros, apenas com um pouco mais de movimento de pessoas nas ruas. Mas, como sempre, a marca registrada, e que muito me impressionou, foi a ausência de crianças e adolescentes, que certamente dariam um ar mais alegre aqueles povoados! Ao final desse dia contamos 10 peregrinos, incluindo a Sônia e eu!