Livro Completo
Triacastela a San Xil - 4 km - de táxi
San Xil a Sarria - 14,6 km

15 de novembro de 2002


Pedi ao dono do hostal que nos chamasse um táxi para nos levar até San Xil, uma pequena vila incrustada no meio da floresta e distante uns quatro quilômetros. Era um percurso curto, mas sabíamos que a estrada era íngreme e não queria arriscar andar esse trecho a pé, pois além da a Sônia ter se cansado muito na véspera ainda teríamos quase 15 quilômetros pela frente num percurso cheio de altos e baixos! Ficamos aguardando alguns minutos na calçada em frente até que o táxi apareceu. Vimos que no volante estava uma mulher. Depois que entramos e nos acomodamos no banco traseiro, perguntei à motorista o preço da corrida: 5 Euros! Ela respondeu. Tentei barganhar dizendo que no ano anterior pelo mesmo percurso um colega seu nos cobrara 500 pesetas e ela estava nos cobrando o equivalente a mais de 800! Secamente, ela disse que "No! No! No es posible!" dando a entender que eu estaria blefando para levar vantagem! Fiquei furioso por dentro, pois não gosto que duvidem de mim. Durante toda minha vida inúmeras vezes tive dissabores pelo fato de tentar sempre dizer a verdade; era o preço que eu tinha que pagar por esse conceito aprendido desde criança! Daí não "admitia" alguém colocar em dúvida minhas palavras! Mas o Caminho mais uma vez me mostrara não estar desassociado da vida, ou melhor, era, numa curta dimensão, a própria vida; portanto, ceder ou calar às vezes é mais sábio que a "defesa" da própria honra! E assim, silenciosamente, seguimos até San Xil, onde saltamos e ainda agradeci pelo serviço prestado.

Mais uma vez, estávamos a Sônia e eu, isolados, sem ninguém à vista, sentindo gostosamente o sabor do silêncio à volta, da aventura de podermos alcançar com nossas pernas lugares tão distantes, do contato estreito com a natureza, de respirar o ar leve e puro dos campos, das florestas, de sentir o perfume da mata, das flores silvestres, do cheiro de terra molhada, enfim, do próprio corpo se deslocando ao som das passadas e dos cajados! Sabíamos que nossa aventura estava chegando ao fim; faltava pouco mais de cem quilômetros para Santiago; Não estava triste por isso e tentava, mais uma vez, passar meu otimismo para a Sônia. Ela precisava do Caminho muito mais que eu! Foi assim, sob uma temperatura gostosa de 7 graus que iniciamos a caminhada. Passamos por inúmeros bosques, trilhas com água escorrendo entre as pedras; colhemos durante o trajeto mais de um quilo de castanhas; bati uma foto da Sônia junto à uma enorme árvore que reconhecemos como a mesma da foto que batemos em 2001; passamos por um sem número de fazendinhas de gado, separadas uma das outras por antiquíssimos muros de pedras: atravessamos colinas e mais colinas verdejantes sob um céu azul. A Galícia é uma das regiões mais verdes e bonitas de toda a Espanha.

A agricultura não tem a dimensão das outras regiões mais planas, mas a "ganaderia" é abundante e rica! Atravessar parte dessa região foi para nós um enorme prazer. Algumas horas depois, já quase no fim da caminhada do dia entramos numa extensa avenida que, surpreendentemente achamos menor que da outra vez. A Sônia, livre dos problema nos pés, "comia" os quilômetros rapidamente! Enfim, chegamos a Sarria, uma das maiores cidades da região. Encontramos facilmente o mesmo hostal em que já estivéramos antes. A proprietária, uma jovem senhora, nos atendeu de forma super simpática. Apesar de o hostal estar um tanto decadente, sem grandes confortos, nos sentimos ótimos por estar ali. Durante o almoço, a própria dona nos atendeu e até nos contou uma piada enquanto escolhíamos o menu! A Sônia, de um modo geral sempre reservada, se sentiu à vontade e conversou um pouco com ela. Quando terminamos de almoçar, ainda fomos brindados com a gentileza de tomarmos sorvete e coca-cola de graça! Essa foi a pessoa mais simpática que encontramos em todo o Caminho e que nos conquistou também com sua simplicidade e atenção! Não vamos jamais esquecê-la!

Após o almoço, subimos para o quarto e descansamos um pouco. Depois, fomos ao supermercado especialmente para comprar algo para retribuir toda a gentileza daquela mulher. Acabamos encontrando um chocolate com uma bonita embalagem e que nos pareceu bem gostoso; demos a ela e fizemos questão de dizer-lhe que ela tinha sido a pessoa mais cativante e mais gentil desde que saímos de Roncesvalles! Ela sorriu, agradeceu e ainda insistiu para pedirmos qualquer coisa ali do bar. Era mais uma cortesia sua! Aceitamos apenas um cafezinho! Aproveitamos para pagar a diária (24 Euros) e mais o almoço(12 Euros, os dois).

Antes de voltarmos ao hostal ainda andamos por mais de uma hora e conhecemos alguns recantos da cidade diferentes e bem mais bonitos que da outra vez. Fomos também a uma "internet" para receber e remeter os e-mails habituais e saber notícias do Brasil e do Mundo! Estávamos tendo dificuldades de comunicação com a Gabi, pois as correspondências que lhe enviávamos não chegavam ao destino e não recebíamos há dias quaisquer notícias dela. O pior é que Santiago estava cada vez mais próxima e chegando lá teríamos que tomar uma decisão sobre o lugar para onde iríamos. No íntimo sentia que o encontro com a Gabi em Barcelona estava perigando, ou seja, talvez ela estivesse com alguma dificuldade de se ausentar do emprego, ou sem dinheiro para a longa viagem de avião! Falei com a Sônia sobre isso e ela se entristeceu com a possibilidade de não vermos nossa filha! Eu também!