Livro Completo
Viana a Logroño - 9,4 km

25 de outubro de 2002


No ano anterior, a Sônia vinha sofrendo com uma terrível bolha de sangue num dos pés, mas fomos num centro médico de Viana e ela acabou sendo atendida de forma excepcional para nossos padrões brasileiros. Mas, neste ano, ao descobrirmos os macetes dos esparadrapos, apenas o cansaço previsível e o calor, em raros momentos, a incomodavam. Iniciamos a caminhada do dia às 9h22 com uma temperatura um pouco "elevada" de 14 graus! Totalmente relaxados e com excelente humor, descemos, sem fazer barulho, as escadarias da pensão. Não queríamos acordar ninguém àquela hora e também queríamos evitar "companhias" incômodas! Percorremos a "calle mayor", atravessamos a carreteira, seguimos por um estreito caminho lamacento por entre pequenas hortas e os fundos de residências modestas. Alguns cães latiam à nossa passagem, assustando um pouco a Sônia, mas todos estavam devidamente presos e dentro dos terrenos cercados!

Tanto Viana como Logroño estão incrustadas no fundo de um vale, e, assim, a temperatura foi subindo à medida que as horas foram passando! Mas nada de calor demasiado, pois além de o tempo permanecer encoberto durante todo o trajeto, uma brisa suave nos acompanhava. Depois de mais de hora e meia de caminhada nenhum peregrino havia cruzado por nós. Ficávamos torcendo para que isso acontecesse e de vez em quando olhava para trás para ver se via algum!

Cruzamos de novo a carreteira e passamos a caminhar por uma estreita trilha paralela, isso durante uns 4 quilômetros! Nesse trecho sentimos saudades dos bosques fechados quando andávamos longe dos caminhões e automóveis. Mas isso não chegava a me abalar, pois a variação de percurso, apesar de minha preferência pela tranqüilidade da mata, também tinha lá seu sabor! A Sônia é que não gostava nem um pouco de caminhar perto das carreteiras! Depois, bem mais à frente, a trilha foi se afastando da carreteira ao se aproximar de Logroño. Passamos entre os fundos de uma enorme fábrica de tecidos ou estofaria, à esquerda, e plantações à direita! Foram centenas de metros andando ali; era um lugar ermo, sem graça, de forma que ficamos atentos, pois não gosto de caminhar por lugares assim nas periferias das cidades maiores! Vimos um enorme cão, desses que batem quase na cintura da gente, perambulando um pouco adiante. Tínhamos que passar por ele. A Sônia ficou com medo. Eu também, mas tinha que manter a pose para não assustá-la mais ainda! Não tem problema querida, disse! " Fica do meu lado esquerdo que ele está mais a direita". Abaixei-me no chão, peguei uma pedra de quase 1 quilo, acho, proporcional ao tamanho do bicho, e fomos nos aproximando. Ele ia atravessando a estradinha à nossa frente e à cada cinco passos nos olhava rapidamente. A adrenalina correndo pelo corpo e a Sônia "grudada" em mim aumentava a tensão! Mas qual não foi nossa surpresa quando ao chegarmos bem perto e imaginarmos que o bicho iria latir, rosnar, sei lá, e até avançar em nós, ele calmamente entrou no meio das plantações. Meio sem graça e me achando um tanto ridículo larguei a pedra, deixando-a cair, não sem antes dar uma última expiada no cão, que a essa altura, já nos "esquecera". Porém não seria a primeira nem a última vez que cães de proporções enormes iriam cruzar nosso caminho! "Faz parte", pensei!

Continuamos seguindo pela trilha e algumas centenas de metros à frente passamos por baixo de um viaduto. Nas paredes, centenas de inscrições e caricaturas feitas por peregrinos de todas as partes do mundo e, claro, do Brasil também! Lamentamos não termos carvão nem spray para deixarmos o nosso "recado" ! Ficamos ali por 1 ou 2 minutos nos distraindo com tudo aquilo e em seguida dobramos à direita, seguindo por uma estreita estrada pavimentada e de cor vermelha, subindo ligeiramente. Mais uma vez começamos a ouvir vozes femininas ao longe e atrás de nós. Não nos viramos pois sabíamos de quem se tratavam! As vozes foram se tornando mais fortes, mais próximas e inteligíveis, mas acompanhadas, então, de vozes masculinas. Ao cruzarem por nós, segundo a Sônia, algumas me cumprimentaram com o acompanhamento das caras feias dos respectivos maridos e/ou namorados! "Imagino o que elas inventaram a meu respeito", tornou a comentar a Sônia! Bem, a verdade é que a maioria dos peregrinos tanto homens como mulheres fazem o Caminho de Santiago sozinhos, descompromissados, etc. daí, ao nos verem juntos o tempo todo, alguns vão tirar, com certeza e muitas vezes, conclusões longe da realidade!

Não mais de 1 quilômetro após, paramos diante de uma mesa tosca, à beira da estrada e com uma pequena cobertura de lona. Uma senhora vestida modestamente de negro sentada em um banquinho nos chamou atenção pois fazia sinal para que nos aproximássemos. Havia em cima da mesa um livro de "presença", carimbo, algumas frutas e uma jarra de água. Logo ela foi nos dizendo que era filha da Dona Felícia e que estava pesarosa com o falecimento recente da mãe, mas que iria continuar a fazer o mesmo que durante os últimos 15 ou 20 anos ela fizera, ou seja, dar as boas vindas aos peregrinos, carimbar suas credenciais e oferecer algo de comer e beber aqueles que tivessem fome e sede! Não pude deixar de me emocionar com aquele quadro! Depois, quando já estávamos mais distantes, comentei com a Sônia sobre aquela pobre senhora e lamentei o fato de termos esquecidos de oferecer-lhe alguma ajuda! Quem sabe se não estava estendendo a mão, mas numa linguagem diferente? E se estivesse apenas exercendo um ato de amor, o que seria bem provável, não se ofenderia? Continuamos nossos passos, sem resposta às nossas dúvidas!

Já estávamos no perímetro urbano da cidade, quando tivemos que atravessar uma enorme ponte de pedra erigida no século 19 no exato lugar, em que outra bem mais antiga, do século X ou XI, fora destruída! No ano anterior, chegamos a Logroño de ônibus, e, desta vez, a única referência que tínhamos para chegarmos ao hostal era a torre da Catedral, próxima! Assim, sem dificuldade, acertamos o caminho! Acabamos de completar praticamente 140 quilômetros com nossas próprias pernas e pés! A verdade é que tanto a Sônia como eu nos sentíamos orgulhosos ao olharmos para trás, para a linha do horizonte, e vermos longe as montanhas por onde havíamos passado já com aquele tom azulado e enfumaçado. Houve vezes que eu tinha a sensação de que, como num passe de mágica, tínhamos sido transportados de um ponto a outro sem tocarmos o solo! No Hostal Niza, que logo encontramos, havia vagas sobrando e não tivemos dificuldades para nos hospedar, mas o preço cobrado foi maior do que esperávamos. Aliás, de um modo geral, todos os hostais, até esse dia, estiveram mais caros. Para dois dias de pernoite nos cobraram 92,60 euros! Fiquei imaginando quanto custaria a diária de um hotel 3 estrelas! Para nossa realidade brasileira, onde nos preços está incluído o café da manhã, esses valores parecem absurdamente caros, pois nem hotéis são e ainda por cima não oferecem desjejum, a não ser, em alguns poucos e mesmo assim com acréscimo no preço. A etapa curta desse dia não deu para cansar pois chegamos pouco depois das 13 horas. Relaxamos um pouco, tomamos uma boa ducha e, em pouco mais de uma hora, já estávamos procurando um restaurante. Às vezes, tínhamos que ficar andando em torno de meia hora ou mais até acharmos um que oferecesse pratos a preços razoáveis. Em Logroño demos sorte, pois encontramos um pequeno e aconchegante restaurante, de propriedade de um imigrante grego, onde toda a família trabalhava. Notamos que, apesar da boa comida, não havia muitos fregueses. Deduzimos que a causa seria a ausência de um bar na entrada com as famosas "tapas" expostas no balcão. Ao contrário, havia no balcão de vidro, doces e sanduíches naturais! Os espanhóis são fissurados em "tapas" (tira-gostos) e lotam os bares durante praticamente o dia inteiro para saboreá-los! Nos dois dias em que ficamos em Logroño almoçamos nesse restaurante.

Mais tarde fomos a uma "internet" para enviar mensagens para o pessoal no Brasil. Aliás, era sempre um momento de alegria, enviar e receber e-mails. Que maravilha a eletrônica! Não há mais distância no planeta por maior que seja de onde você se encontre, que não possa se comunicar com outra pessoa. Essa tecnologia me fascina a toda hora! Envio e-mail para a Claudinha e para o Marco para saber a quantas anda a construção da linda casa que estão acabando de construir. Envio também para a Gabi nossas "coordenadas" prá que ela saiba onde estamos e para facilitar nosso tão esperado encontro em algum ponto do Caminho. Escrevo para meus irmãos e meus amigos. De quase todos, também recebo notícias e incentivo para continuarmos firmes na caminhada e votos de que aproveitemos bem todos os momentos! Saio de alma leve depois de uma hora ou mais "viajando"! A Sônia me ajuda sempre com seus comentários inteligentes e oportunos.

No dia seguinte, à tarde, estávamos calmamente passeando nas imediações da bela Catedral da cidade, quando vimos um grande número de pessoas bem vestidas em torno do templo! Deduzimos logo que se tratava de um casamento. Já estávamos há um bom tempo andando, então aproveitamos e sentamos num banco bem próximo dali. Ficamos observando os convidados em grupos conversando animadamente, e nos distraíamos com nossos próprios comentários a respeito, dizendo, "aquela" devia ser a sogra, um outro o pai da noiva, com cara séria. Rimos quando o noivo saiu e ficou fumando junto a uma roda de amigos . Era careca e meio gordo! A Sônia fazia piadas e eu idem com os personagens. Mas quando a noiva apareceu, mais gozações! Puxa, como é feia, disse a Sônia. Ah! Mas o vestido é muito bonito, falei rindo! Parecíamos dois adolescentes de ginásio, rindo de tudo e de todos!

Ainda nos restavam algumas horas da tarde e começo da noite antes de voltarmos para o hostal; então continuamos a andar pelas ruas e praças. Novamente, como no ano anterior, bati algumas fotos da Sônia na mesma praça onde a Gabi, há dez anos atrás estivera, pois morou por um breve espaço de tempo na cidade! Depois iríamos remeter para ela, na Tailândia. A Sônia, sem dores nos pés e mais descansada, andava tranqüilamente e, assim, podemos visitar o maior número de pontos turísticos.