Livro Completo
Carrión de los Condes a Calzadilla de la Cueza - 17,2 km

04 de novembro de 2002


Pagamos rapidamente o pernoite, 35 euros, mais o almoço da véspera, 16 euros, pedimos à senhora que estava na portaria para carimbar nossas credenciais, e, com o meu passaporte devolvido, fomos embora. Estávamos na região de Palencia e o "tramo" que tínhamos pela frente não era dos mais fáceis. Não pela distância, que era razoável, pouco mais de 17 quilômetros, mas pela ausência de vilas, cidades, ou mesmo de um simples pueblo pelo caminho. Já tínhamos percorrido algumas dezenas de quilômetros sobre a "meseta espanhola", um retilíneo planalto, em que o horizonte é o único ponto de referência, e é onde o peregrino, sob efeito de miragens, imagina estar vendo lagoas, rios, cidades próximas, etc.

Sempre fui fascinado por desafios, não os intelectuais, mas os físicos, quando o corpo, submetido ao esforço contínuo, vai vencendo obstáculos, dificuldades e sua própria fragilidade! Mais uma vez, essa tendência de superar sempre algo difícil só encontra explicação na minha pré adolescência quando meu corpo, ainda franzino e delgado, era alvo de comentários não muito lisonjeiros, o que minha mente captou e armazenou nas "prateleiras do inconsciente"; aliás, este foi o nome que minha filha Gabriela inventou se referindo a lembranças que guardava de sua infância!

Enquanto a maioria dos peregrinos detestava atravessar a planura da "meseta", eu, ao contrário, ficava excitado só de pensar na possibilidade, agora concreta, de passar horas e horas "comendo" os quilômetros de "tédio e isolamento" desse trecho! Esses pensamentos me acompanharam durante os primeiros minutos de caminhada. O relógio marcava 8h42! O tempo encoberto e temperatura de 7 graus, sem indicação de chuva para as próximas horas, nos davam a certeza de que chegaríamos ao destino ainda com bastante energia! Saímos do hostal e tomamos a direção à esquerda pela rua em frente; em pouco mais de 10 minutos já estávamos atravessando uma enorme ponte medieval, majestosamente alta, feita de grandes e bem esculpidos blocos de pedra. Demos uma pequena parada em cima para ver o rio, com suas águas rasas, cristalinas e uma correnteza razoável. Os vários arcos da ponte indicavam que ela passava há centenas de anos atrás, sobre um rio bem mais largo e caudaloso. Então, tornei a constatar a degradação da natureza pelo homem, mas ela continua teimando em permanecer viva mesmo que definhando aos poucos! Porém, acredito que o ser humano tem enorme poder de recuperação, e que, bem antes do último suspiro, a natureza será preservada pelas próprias mãos de quem quase a destruíra! Passaremos, com certeza, de predador por excelência a protetor por sobrevivência!

Atravessamos para o lado direito da ponte e tivemos uma das visões mais bonitas do Caminho, com grandes árvores de copas amarelas se espraiando pelo que antes era parte do leito do rio; um pouco mais ao lado, no alto de um barranco pedregoso, um antigo mosteiro compunha esse belo quadro!

Mais à frente, passamos por uma encruzilhada de 3 carreteiras. Recordamos que no ano anterior ao cruzamos esse trecho, pedimos informações a uma pessoa que passava pelo local e, assim, não tivemos dificuldades desta vez para seguir no rumo certo. Era só pegar uma estradinha secundária e asfaltada que saía dali. Sem erros, pendurando mais uma fita amarela num galho de árvore, seguimos adiante. Quem viesse atrás de nós, mais uma vez não teria dúvidas em que direção seguir! Um pouco mais de 2 quilômetros após, passamos em frente ao Monastério de Benevivere ou o que restou dele. Sua construção data de meados do século XI, sendo uma das relíquias da rota!

Após mais de uma hora desde que saímos do hostal, passou por nós um ciclista, que, diminuindo a marcha, disse: "Que a fuerza esteja con ustedes!" Alguns minutos depois o jovem casal de americanos passou. Há dias que não o víamos e ficamos alegres em reencontrá-los, mesmo que não parassem uma única vez para conversar conosco, a não ser em uma ou duas ocasiões quando fizeram uma pausa para descanso e por coincidência os encontramos! Notamos que a moça não mancava mais como da primeira vez que a vimos. Pouco tempo depois o mesmo ciclista passou de volta e repetiu a frase que dissera antes! Achamos um pouco estranho mas gostamos da mensagem. Também um outro casal de franceses passou e rapidamente todos, em poucos minutos "sumiram"! Em seguida, depois de um cruzamento com uma carreteira iniciamos uma grande reta de 12 quilômetros de extensão; nos dois quilômetros iniciais ainda havia árvores, plantadas sistematicamente na margem esquerda, depois só campos arados de perder de vista e de quando em quando um barracão de feno.

Ao longe, víamos a "Carretera Nacional", paralela, com automóveis e caminhões trafegando em altíssima velocidade. Jamais tinha visto coisa igual (a velocidade) em nossas estradas no Brasil! Um espanto! Mais quatro peregrinos franceses, todos muito jovens, nos alcançaram. Iam em ritmo acelerado e conversando animadamente. Todos nos olharam, sorriram e disseram qualquer coisa como se fosse um cumprimento e, sem parar, foram, aos poucos, se distanciando até que o relevo não nos permitisse mais vê-los! A temperatura durante o trajeto não passou dos 13 graus para alegria da Sônia principalmente, apesar de o sol ter esboçado aparecer entre nuvens num momento ou outro! Com as primeiros sinais de cansaço aparecendo após mais de 5 horas de marcha, incluindo pequenos intervalos para descanso e lanche, queríamos chegar logo à Calzadilla, o que não tardou, pois ao longe, numa depressão do terreno, começamos a ver a ponta da torre do cemitério. Ainda teríamos que caminhar aproximadamente 1,5 quilômetros até o hostal. Aproveitamos que estávamos com a máquina fotográfica à mão, batemos algumas fotos, que serviram para quebrar um pouco a doce monotonia; enfim, as primeiras casas começaram a surgir!

Tínhamos completado, até então, 231,2 quilômetros, fora os que percorríamos em todas as pequenas ou grandes cidades, seja, passeando ou procurando os hostais, "tiendas", padarias, farmácias, "internets", etc. A cidade, com a maioria das casas construídas em "adobe" (como se fosse o nosso pau a pique), tinha um aspecto pobre. A Sônia raspou com a unha uma das paredes de uma casa e ela se esfarelou! Não compreendemos como aquelas construções podem resistir a centenas de anos num clima de grandes contrastes como é o espanhol! Entramos no hostal e tomamos, como sempre, todas as providências de praxe, ou seja, a entrega de passaporte, indagação de preços, se havia calefação, etc.

Já no quarto, através de uma pequena janela, pude ver toda imensidão dos campos à volta. A cidade era de fato um pequenino ponto de civilização naquela planície imensa de cor marrom e verde. Ainda chegamos a tempo de almoçar no próprio restaurante do hostal. O dono nos reconheceu, para espanto nosso. Acredito que tenha sido por causa da conversa que tivemos da outra vez, quando ele desabafou conosco dizendo que tinha vontade de vender seu empreendimento e se mudar com a esposa para uma cidade maior, pois "aquilo não era vida" conforme suas palavras! Quando descemos para almoçar e enquanto esperávamos à mesa pela refeição, pudemos ver sua esposa sentada a uma mesa próxima, com ar de enfado e de olhar distante dali. De quando em quando o marido, que ajudava o garçom, ia até ela e carinhosamente a beijava!

Depois do almoço fomos andar indolentemente pelas poucas e desertas ruas do pueblo. Uma pequena praça com brinquedos estragados ou enferrujados , tipo play ground, e mato crescido à volta, demonstrava sua inutilidade por absoluta ausência de crianças e os poucos "vecinos" existentes ali! A dimensão da vila em torno de 100 metros de largura por 300 de comprimento, com poucas casas, se tornara praticamente apenas uma passagem ou abrigo para os que estavam atravessando aquela imensa planura. Sem mais nada para ver retornamos ao hostal. A Sônia viu da janela um bando de ovelhas conduzidas por um velho pastor e seus cães, num quadro bucólico e gostoso de ver! Depois, também um solitário peregrino saindo da vila, caminhava a passos firmes pela estreita trilha que contorna a vila. Eram quase 18 horas e com certeza iria chegar à próxima cidade( a mais de 9 quilômetros) com ajuda de lanterna, pensei! Mais tarde, acabei adormecendo, enquanto a Sônia colocava algumas roupas lavadas para secar sobre o aparelho de calefação!