Livro Completo
Los Arcos a Viana - 18,5 km

24 de outubro de 2002


Estávamos em pleno outono europeu e nos causara espanto que até então os termômetros registravam temperaturas bem acima da que havíamos enfrentado no ano anterior. Mas sabíamos que era só questão de mais dias, menos dias. De qualquer forma estávamos preparados, ou pensávamos que estávamos! Na descida do Morro do Perdão, há poucos dias atrás, as capas das mochilas se mostraram vulneráveis pois deixaram passar um pouco de água após meia hora de chuva mais intensa! O fabricante das mesmas anunciavam que eram totalmente impermeáveis; propaganda enganosa, pensei! Nossos anoraks também protegem até pouco abaixo da cintura, mas quando chove mais forte as pernas das calças ficam inteiramente molhadas! Nada trágico, para quem se aventura pelas trilhas de Santiago! Afinal, caminhar horas seguidas, sob chuva, não há escapatória, vai simplesmente confirmar o velho ditado popular: Quem está na chuva é prá se molhar!

Nessa manhã, a cama estava convidativa para um sono mais prolongado e acabamos acordando mais tarde do que o habitual - 8h32 - Olhei o termômetro que a Sônia deixara de véspera no parapeito da janela e constatei que o dia amanhecera mais frio que de costume: 9,5 graus! Tínhamos uma rotina que se mostrara infalível para sairmos do hotel com as roupas adequadas sem ter que trocá-las no meio da estrada: Consistia em simplesmente verificarmos a temperatura e as condições do tempo antes de sairmos do hotel. Se, por exemplo, estivesse abaixo de 10 graus, já vestíamos um blusão, uma suéter e por cima o anorak, no caso de chuva. Contudo, se estivesse um pouco acima daquela marca já dispensávamos a suéter. O importante nisso tudo era evitar ficarmos gripados ou resfriados, o que poderia implicar na parada obrigatória numa cidade, por dias, ou até por uma semana, sei lá! A verdade é que com esses cuidados acrescidos da ingestão diária de vitaminas, frutas, além da mistura matinal de cereais integrais com frutas secas, estávamos bem protegidos! Por outro lado, as refeições que fazíamos nos restaurantes, ao longo do Caminho, salvo algumas exceções, só serviam praticamente para saciar a fome, porque em matéria de nutrição deixavam muito a desejar!

Bem, nesse dia, tínhamos uma primeira etapa bem fácil, de quase 7 quilômetros até o vilarejo de Sansol. As dores no tornozelo da Sônia cessaram; talvez o antiinflamatório que ela tomara já estivesse fazendo efeito, de forma que andamos com a boa média de 3,5 km por hora, incluindo aí as paradas para descanso, etc! A estrada, de poucas subidas e descidas, o terreno firme e arenoso, com um posterior desvio de terra e barro, sem lama, facilitou bem a caminhada na parte da manhã. Havíamos saído do hostal um pouco tarde, às 10 horas, mas estávamos tranqüilos, sem stress, e nada nos faria acelerar as passadas se não fosse por um motivo mais sério! Chegamos em Sansol bem dispostos. Aproveitamos para um intervalo e sentamos num banco de uma diminuta praça triangular! Tiramos as mochilas e fizemos um pequeno lanche. É engraçada a sensação que se tem ao dar alguns passos logo que se fica livre das mochilas depois de horas com as mesmas às costas! Era como se a gravidade não fosse a mesma!

Alguns pingos de chuva começaram a cair. Colocamos as capas nos equipamentos prevendo que poderíamos pegar uma chuva mais forte, pois faltavam ainda algumas horas até Viana! Nossa movimentação ali atraiu a atenção de uma moradora do sobrado em frente, que abriu a porta da varanda, expiou em nossa direção, disfarçou um pouco como se fosse cuidar de um vaso de plantas, e tornou a fechar a porta logo em seguida! Apesar da curiosidade com que víamos e reparávamos em tudo à volta, não guardávamos boa impressão das cidades mais desertas. Pareciam-nos estarem decadentes, pelo menos boa parte delas! Acreditamos que no verão o ambiente deve ser um pouco diferente, com maior movimento de pessoas nas portas das casas e nas ruas. A siesta, tradicional hábito espanhol da maioria das cidades do interior, quando a população faz uma pausa em suas atividades no horário das 14 as 17 horas, contribui para a desertidão nas ruas!

Mal reiniciamos a caminhada e saíamos da cidade, ouvimos vozes femininas: Era o mesmo grupo de peregrinas tagarelas que vimos nos dias anteriores. Parece perseguição, disse a Sônia! De fato, coincidentemente nós e o grupo caminhávamos paralelamente, e sempre estávamos nos encontrando! Claro que elas tomavam o ônibus de apoio que levava as mochilas a qualquer início de chuva mais forte ou terreno muito pedregoso ou ainda, com subidas mais fortes. Quando o trecho era um pouco mais longo não se via nem sinal delas! Faziam o que eu e a Sônia chamamos de peregrinação light! Tudo bem, cada um faz o que gosta! Só que essas peregrinas perturbavam um pouco o nosso sossego, daí passamos a ser seus críticos, e, quando passavam por nós, eu mal respondia aos seus cumprimentos um tanto provocativos. A Sônia, é claro, as ignorava, e, por isso deixava a maioria delas contrariada! Houve vezes em que quase corríamos pelas trilhas com receio de chegarmos a um determinado lugar e já encontrar as poucas vagas dos hotéis ocupadas pelas peregrinas. Não vi mais nenhum peregrino nesse dia e depois de quase meia hora desde que saímos de Sansol também o grupo das mulheres não passou por nós! A chuva que era tênue até então apertou um pouco, e a temperatura começou a declinar.

Passamos por Torres del Río num piscar de olhos e como tínhamos descansado há pouco, passamos direto, sem parar. As trilhas no trecho seguinte já tinham alguma lama nos obrigando a desviar constantemente de poças d,água! Eram subidas fortes com bastante erosão no terreno! De repente, vimos alguém vindo em direção contrária acompanhado de um cão! Seria peregrino? Não! Era um simples andarilho mal vestido, muito pobre, que passou por nós sem levantar a cabeça, nem ao menos os olhos, coitado! Carregava um saco às costas, provavelmente contendo seus únicos bens! Continuamos num interminável sobe e desce, mais subindo que descendo. A Sônia, apesar de ir surpreendendo a todo o momento com sua energia, já demonstrava algum cansaço. Então, num pedaço em que a trilha se aproximara da carreteira, fizemos a opção de caminhar a partir de então, por ela. Seria uma forma de poupar um pouco as pernas. Mesmo assim, ainda subimos por mais de uma hora! Numa grande curva da estrada, vimos um atalho que atravessava uma grota. Perguntei a Sônia se ela estaria disposta a arriscar, pois não tínhamos exata noção de como era o terreno, e ainda, se de fato, iria terminar de novo na estrada! Havia o risco de termos que fazer todo aquele trecho de volta para pegarmos a estrada lá atrás! Ela concordou depois que eu disse que tinha praticamente certeza de que tudo ia dar certo! E deu!

Lá na frente, quase meia hora mais tarde, retomamos o asfalto. Só tivemos que pular um guard-rail e mais nada! Após mais um pouco de subida, vimos do alto um extenso vale com as cidades de Viana e Logroño. Pareciam próximas, mas ainda faltavam mais de hora e meia de caminhada. Iniciamos, então, a descida, debaixo de uma chuva mais forte! Havia pouco movimento de veículos, de forma que o isolamento era quase total. Depois do andarilho, faziam horas que não víamos ninguém! Comecei a pensar e a me indagar porque duas pessoas, com 5 e 6 décadas de vida estavam ali, juntas, fazendo algo que a maioria esmagadora das pessoas não faz, caminhando debaixo de chuva numa estrada, com um razoável peso às costas, longe de seu país, das pessoas que amavam, etc. Só encontrei duas respostas. E elas se chamam emoção e desafio! É! Para mim, o que leva um ser humano a fazer coisas que saem do script normal de suas vidas é a busca pura e simplesmente de desafio e de emoção diferente, talvez mais forte da que normalmente desfruta em sua vida ! Esses pensamentos me acompanharam por algum tempo e serviram para aliviar um pouco o cansaço ou a monotonia aparente de milhares e milhares de paços dados numa estrada deserta e chuvosa! Essa monotonia raramente acontecia, pois não há monotonia quando se está ao lado de uma pessoa como a Sônia!

Enfim, chegamos a Viana! Contudo tivemos que enfrentar, ainda, a porrada final do santo, ou seja, uma rua com uma bruta ladeira, íngreme mesmo, a ponto de ter escadas laterais no lugar das calçadas! Ainda nos lembrávamos que direção tomar até chegarmos ao hostal San Pedro, já nosso conhecido! Viana é uma cidade pequena, porém maior que grande parte das existentes na rota. Segundo a história, um de seus personagens principais foi o Cardeal César Borgia, um tanto devasso, filho do Papa Alexandre VI. Após fugir de uma prisão italiana, acabou morrendo algum tempo depois nessa cidade ao duelar com um nobre espanhol! Seus restos mortais se encontram até hoje numa igreja local!

Entramos no hostal com praticamente a certeza de que conseguiríamos uma vaga para passar a noite ali. Total engano! Fiz a clássica pergunta ao extrovertido dono, que se encontrava no interior do balcão do bar-restaurante: Tiene habitaciones libres? Ele apertou um pouco os lábios e em seguida balançou negativamente a cabeça! Surpresos com a situação, ficamos ali parados durante uns 5 a 10 segundos. Tentei argumentar dizendo que havíamos ficado no seu hotel no ano anterior, e perguntei se ele não poderia dar um jeito. Como fez uma expressão de dúvida, talvez houvesse alguma chance de ele resolver o problema. Em seguida, pegou o telefone e metralhou um monte de palavras com alguém. A Sônia começou a ficar apreensiva com a possibilidade de termos que dormir em outra cidade. Eu também estava, mas mesmo assim, tranqüilizei-a dizendo que íamos encontrar uma solução, pois, de verdade, senti que havia boa vontade do dono em nos atender! Depois do telefonema, ele pediu que esperássemos uns dez minutos! Para aumentar sua boa vontade e aproveitando que não havíamos almoçado ainda, consumimos ali mesmo um pequeno lanche acompanhado de refrigerantes e duas canecas de cerveja. Foram quase 30 minutos de espera, mas a solução veio, não da forma como gostaríamos, mas da forma possível! Uma amiga dele, tinha uma pensão próxima e havia uma única vaga que seria guardada para nós, pois o resto dos quartos foram ocupados(ficamos sabendo depois) por várias peregrinas! Agradecemos pela ajuda e seguimos para lá.

Era um sobrado muito antigo, um clássico casarão espanhol Em seu interior, no térreo, o piso de pedra e a fraca iluminação dava um ar pesado ao ambiente. A proprietária, uma mulher em torno de 40 anos, um tanto agitada, nos recebeu com sorrisos e atenção, mas fez logo um preço um pouco alto! 30 euros! Como demonstrei que não estava muito satisfeito com o preço, ela logo baixou para 28; nesse meio tempo íamos subindo uma escadaria sem fim, com os degraus de madeira já bem gastos pelo uso. Ao chegarmos no terceiro andar nos deparamos com nada mais, nada menos que o grupo das peregrinas alegres sentadas num pequeno hall; todas se viraram em nossa direção, e cheguei a ouvir uma delas falar sorrindo e baixinho para outra: Mira o brasileño! A Sônia, quando as viu, só faltou soltar faíscas pelos olhos, boca, sei lá! Dessa vez passei sem cumprimentá-las e olhando em frente; não queria dar margem para qualquer diálogo que fosse contrariar a Sônia! Em seguida, entramos por uma estreita porta que dava acesso a mais uma escadaria. Isso tudo com as mochilas às costas e cansados! O quarto que nos foi arranjado se localizava simplesmente num sótão feio com uma estante cheia de revistas e jornais antigos, uma velha pia de cozinha num canto e duas camas; parecia mais um depósito de bagulhos do que qualquer outra coisa. Olhei para a Sônia, que calada, via e analisava tudo à volta! Perguntei se ela queria ir embora dali! Um pouco contrariada disse que não, pois estava cansada para procurar qualquer outro lugar para ficarmos. Nisso, sem que eu pedisse nada, a senhora baixou ainda mais o preço para 26 Euros. Eu concordei. Estava dada outra porrada final do santo! Paguei logo para ficarmos livres e no dia seguinte seguir sem ter que perder mais tempo! Nesse dia não consegui tomar banho, pois havia apenas um banheiro para todos os hospedes e se localizava no andar abaixo! A Sônia, ao contrário, surpreendentemente desceu e foi lá! Eu fiquei um pouco mais aliviado pois sei o quanto uma ducha a acalma e a deixa bem disposta! Aproveitando o varal que havia no terraço e cujo acesso era pela porta de trás do quarto, lavamos algumas roupas e as colocamos para secar ali!

Tínhamos chegado à cidade em torno das 16 horas e agora, já passavam das 19 e ainda tínhamos que esperar mais de uma hora para o jantar, pois o restaurante do hostal abriria depois das 20 horas! Aproveitamos, então, e fomos a uma tienda para comprar os alimentos de sempre. Depois, no jantar, mais uma vez as peregrinas apareceram! Sem comentários! Na saída, passamos por elas que se limitaram a nos observar e mais nada! Enfim, quase tudo acaba cansando e aqueles encontros já estavam se tornando rotineiros e sem nenhuma graça! Demos mais umas voltas pelas ruas próximas cruzando com poucos moradores e em seguida fomos para o nosso sótão! Apesar do cansaço custamos a pegar no sono, pois no andar de baixo o grupo das peregrinas fazia a maior algazarra. Parecia comemoração com o fim da peregrinação, no dia seguinte.